Retomando:

E aí, povo da Rádio Blast! Tudo certo? Pra quem não me conhece, sou o Pictor, DJ que apresenta o Japanice todas as quintas às 16h e aos sábados às 10h. O programa tem um propósito bem simples e extremamente válido: provar que a cultura japonesa não se resume em animes, mangás, games, música doramas e tantas outras coisas normalmente vistas como único aspecto da cultura oriental. De uma forma no mínimo diferenciada, meu objetivo é apresentar a cultura japonesa no seu aspecto mais curioso e, muitas vezes, obscuro. Sem dúvidas de que o Japão é um país que carrega uma história cultural extremamente rica e inegavelmente bonita. No entanto, ao invés de apresentá-los ao lado mais tradicional do arquipélago, quero que o conheçam de uma forma extrovertida e informal.

É debatendo e desenvolvendo assuntos que estejam ligados à modernidade e à mente do povo japonês que o Japanice funciona. Isso tudo pode parecer bem chato pra quem olha de fora, e realmente seria se os temas tratados não fossem justamente o que o Japão apresenta de mais estranho em seus séculos de tradição somada à extrema mistura de culturas. É falando sobre características e aspectos extremamente bizarros e estranhos à nossa cultura que pretendo levá-los ao lado mais divertido desse país ainda muito desconhecido pelo ocidente.

Na última semana, o tema escolhido foi um pouco mais sério, mas de enorme importância para se entender um pouco mais sobre a sociedade japonesa como um todo, bem como seus valores e ideais. Depois de abordar alguns temas mais exóticos para qualquer pessoa, como otakus, homens herbívoros, festivais japoneses e moda de rua japonesa, o último assunto a ser tratado foi o suicídio. É justamente seguindo essa linha mais séria e muito interessante que apresento o tema dessa semana: a Yakuza

A tradicional máfia japonesa

A máfia japonesa nos diz muito a respeito de seu próprio país com relação principalmente a valores e sentimentos compartilhados na sociedade que se fazem presente em peso nas atitudes mafiosas. O crime organizado representa e muito o caráter japonês e, apesar de se tratar de algo ilegal, traz em suas concepções estruturas tão complexas como qualquer outro negócio. Saiba mais sobre a Yakuza, e principalmente sobre o povo japonês no texto a seguir.

Iniciação ao crime:

A estrutura do crime organizado de qualquer país, antes de qualquer outra característica em comum, segue um fundamento principal em qualquer uma de suas operações: o crime deve ser tratado como um negócio qualquer e, portanto, com enorme seriedade.

É a partir desse conceito que as atividades criminosas organizadas se fazem presentes em quase todos os países do mundo como um dos negócios que mais movimenta dinheiro. Antes de tudo, o crime, mesmo sendo uma atividade nem um pouco ética, deve se portar como tal e fazer por onde para se destacar. Dessa forma, as organizações criminosas de todo o mundo seguem um código de conduta próprio que se baseia principalmente no respeito e na confiança do sistema criminal como um todo. É preciso confiar no seu parceiro, afinal, se você não o fizer, o que é que impede vocês de se matarem por conta de seus interesses?

É no intuito de impor uma autoridade respeitada por todos que várias organizações criminosas seguem uma hierarquia no que diz respeito à divisão dos poderes dentro da gangue. Assim como a máfia italiana, a Yakuza se baseia na divisão do poder por meio de cargos e a famosa relação mestre-aprendiz. É assim que o respeito se constrói numa atividade tão incerta como pode ser o tráfico de armas, drogas, mulheres, entre outras atividades ilegais. Sem alguém ou algo para seguir, o sistema todo não funciona da forma como deveria, e, como já é de se imaginar, toda e qualquer falha nesse ramo pode significar a morte, ou o dedinho, no caso da máfia japonesa.

Tatuar o corpo inteiro é tradição na Yakuza

Algo bem interessante no que diz respeito à Yakuza é que ela, ao contrário de outras organizações criminosas pelo mundo, não se esconde dos olhos da população. A casa onde a administração do grupo mafioso fica geralmente tem um grande letreiro em sua frente com o nome da “família” a que pertence. Todos, sejam policiais ou simples cidadãos, sabem onde encontrar os criminosos e onde eles agem, no entanto é raro uma situação em que integrantes da Yakuza realmente são presos.

Como o estilo de crime praticado é extremamente planejado e complexo, conseguir provas que possam incriminar a organização é complicado e requer operações que gastam muito por parte da polícia. Dessa forma, o governo não dá conta de um contingente tão grande de crimes bem-feitos, e por isso as famílias mafiosas japonesas podem viver da forma mais explícita possível. Os criminosos japoneses podem ser facilmente reconhecidos por suas roupas, estilos de falar e modos de agir. No fim, todos sabem quem faz parte da Yakuza.

Em uma sociedade tão conservadora e formal como é a japonesa, os hábitos polidos e extremamente respeitosos da Yakuza têm muito a dizer sobre a sociedade geral. Querendo ou não, os sentimentos compartilhados por um membro da Yakuza e um cidadão japonês qualquer são muito semelhantes no que diz respeito aos valores éticos de cada um. Como nesse caso, há vários detalhes que passam despercebidos por nós que dizem muito sobre o comportamento japonês, e a Yakuza é um deles, sem dúvida.

De onde surgiu?

A Yakuza, primeiramente, não foi um fenômeno planejado. Tudo no que diz respeito ao seu crescimento e valorização se fizeram no decorrer dos séculos de sua existência, e até hoje o conceito de Yakuza pode ser classificado em diversos gêneros dependendo das regiões. No entanto, a máfia japonesa possui suas origens em comum.

Tudo começou na Era Edo, quando o Japão ainda mantinha o sistema feudal de governo. Havia, entre as pessoas de bem, alguns grupos que tinham como um meio de se sustentar o comércio de mercadorias enganosas ou roubadas, os tekiya. Também na mesma época, era comum a presença dos bakuto, aqueles que tomavam conta ou, de alguma forma, eram ligados a atividades que envolviam apostas.

Tanto um como outro eram grupos considerados de baixo nível na sociedade da época, e, por isso, foi preciso que eles se juntassem e se organizassem no intuito de crescerem economicamente. Dessa forma, o movimento formado ganhou expressão e destaque ao conseguir mover uma grande quantidade de dinheiro, mesmo que ilegalmente. Assim, junto com o a prosperidade econômica, a influência em situações políticas e públicas se tornaram corriqueiras.

A Yakuza, portanto, é uma organização que teve suas origens há séculos, e por isso conta com um sistema de conduta formalizado e baseado no tipo de relação social da época. Com o tempo, novas formas de praticar e pensar o crime foram sendo construídas, afinal, a máfia, como qualquer outro negócio, precisa atualizar-se se quiser continuar no mercado. No entanto, apesar das mudanças no que diz respeito à execução dos negócios, as bases continuam as mesmas desde sempre, e talvez esse seja o segredo pra uma iniciativa como essa durar tanto tempo.

A relação “Mestre-Aprendiz”

Que a sociedade japonesa é de uma seriedade fora do sério não é novidade pra ninguém. O interessante é como eles conseguem manter esse nível de respeito sem regredir durante tanto tempo. A mente de um japonês, por herança dos costumes da antiguidade, funciona de uma forma hierárquica. É preciso saber que acima de você há alguém que mereça seu respeito e ajuda a qualquer momento.

Assim, há sempre uma “força maior” a que é preciso se curvar e obedecer, seja por imposição social ou apenas por admiração. Por exemplo, é esperado de todos nós que respeitemos e obedeçamos nossos pais; dessa forma, uma relação baseada na confiança é estabelecida entre as duas partes. Você, acima de tudo, tem respeito por seu pai e sua mãe, mas isso não impede que você se expresse e mostre o que realmente pensa a respeito dos mais variados assuntos. No Japão, essa relação ainda não é tão liberal assim, infelizmente.

Nunca perceberam o quanto esse tipo de relação é presente?

Desde sempre, a relação mestre-aprendiz existiu por lá justamente para dar sustentação ao modelo formal de sociedade. Tendo alguém para abaixar a cabeça, a respeitabilidade se constrói mesmo que obrigatoriamente, e isso certamente mantém os laços sócias estáveis.

Desde a época dos samurais, em que o guerreiro devia honrar e obedecer cegamente ao seu mestre, a subordinação aparece em quase todos os aspectos da sociedade japonesa. A palavra “senpai”, bem comum para os simpatizantes da cultura japonesa, se refere justamente ao “veterano”, ou seja, aquele que tem como missão ensinar, proteger, e se preciso, reprimir seu aprendiz.

Nas escolas japonesas, essa é a relação na qual todos se baseiam. Os “kōhai” são os alunos de uma série escolar mais baixa e devem ser auxiliados pelos “senpai”, que por sua vez é aclamado por seus subordinados. Por incrível que pareça, esse tipo de interação social, apesar do estilo nada pessoal de ser, funciona muito bem se o objetivo é manter os mesmos valores para as gerações futuras. Já viu algum anime em que um personagem chama outro com o sufixo “-sama”? Pois é...

Da mesma forma, é justamente essa hierarquia que acontece na Yakuza. Cada novo integrante que entra para o crime organizado japonês, após passar pela cerimonia de iniciação, é recebido por seu mestre, que irá ser seu superior para sempre. Dessa forma, o criminoso deve sempre respeitar as pessoas acima de seu nível dentro organização, na proporção que seu mestre o auxilia. Os novos integrantes são chamados de “kobun”, e seus respectivos mestres de “oyabun”. A própria organização como um todo é chefiada por um mestre em comum, o kumichō, que literalmente significa padrinho. Abaixo dele estão outros subchefes que se dividem entre bairros e regiões, o que aumenta a área de dominação da família mafiosa.

O que eles fazem, afinal?

A Yakuza tem vários negócios em diferentes ramos de trabalho. Basicamente, a organização trabalha com mercadorias e serviços ilegais. Já que o produto não é legalizado no Japão, o que acontece com muitas coisas, a Yakuza os traz e vende dentro do país de forma contrabandeada. Por serem tão difíceis de conseguir, esses produtos acabam tendo seus preços elevados, o que acontece em todos os países do mundo com relação, por exemplo, às drogas.

A máfia japonesa trabalha principalmente com tráfico de drogas, armas e prostituição. Várias casas noturnas são de propriedade da Yakuza, e o dinheiro recebido por um dos serviços mais tradicionais do Japão não é pouco, sem dúvida. Os mafiosos também podem agir chantageando grandes empresas e corporações já consagradas no cenário econômico japonês, ameaçando-os seja com a força bruta ou informações embaraçosas.

Algo até engraçado de se dizer é que é a Yakuza a responsável pela entrada de pornografia sem censura no Japão. Sim, todo tipo de pornografia comercializada no Japão deve ser censurada. Aí você me pergunta: “E que graça tem pornografia censurada?”. Pois é, justamente por isso que a máfia japonesa age nesse ramo que é sem dúvida um dos estilos cinematográficos que mais cresce no mundo, e tem uma demanda especialmente grande tanto no Japão como em outros países asiáticos.

As famílias e tradições:

O termo yakuza se refere genericamente ao crime organizado japonês e não descreve especificamente a subdivisão. No entanto, o crime organizado japonês é formado por diversas “famílias” tradicionais que comandam verdadeiros exércitos de seguidores. Com cerca de 110 mil integrantes, a máfia japonesa é uma das maiores facções criminosas de todo o mundo. Só a família principal, a Yamaguchi-gumi, possui mais de 50 mil integrantes. As famílias possuem um “poderoso chefão” que tem o poder absoluto sobre todo o resto do grupo. Abaixo dele estão os chefes das subdivisões da organização em diversas partes do território japonês. E, por fim, abaixo desses chefes territoriais estão outros criminosos-chefes que comandam cidades e mais algumas outras patentes responsáveis por bairros. Cada um desses chefes dispõe de um grande grupo de seguidores, todos sempre se curvando ao que está numa posição acima da sua.

Símbolo da Yamaguchi-gumi, a maior família da Yakuza

A máfia japonesa já é um movimento tão antigo que possui várias tradições e costumes internos. Entre eles está a cerimônia de iniciação, na qual o novato e seu aprendiz trocam copos de saquê em um símbolo de respeito e confiança. Também é costume da Yakuza a rigorosidade e os procedimentos de punição. O mais famoso deles é também um dos mais cruéis. Quando um membro da organização não cumpre uma regra ou a transgride, ele é punido de uma forma bem sádica: seu dedo mindinho deve ser cortado por ele e entregue ao seu superior como prova de sua lealdade.

Isso é o que um membro recebe quando não cumpre as regras

As origens desse costume estão associadas aos primórdios da Yakuza, quando seus integrantes ainda usavam espadas. Para se segurar a espada com habilidade e destreza, é preciso que seus dedos estejam todos enfileirados. Os dedos que ficam mais “embaixo” no cabo da esbada, como o mindinho e o anelar, são os que mais importam, pois são eles que definem a precisão do corte, enquanto os mais acima determinam a força. Cortar o dedo mindinho fazia com que a pessoa dependesse mais de seus companheiros e não mais transgredisse as regras. No mínimo é uma explicação aceitável.

A Yakuza no Brasil:

Não é segredo para ninguém que a Yakuza age dentro e fora do Japão. Principalmente nos Estados Unidos e México, a máfia japonesa, mesmo que não tão expressiva como em seu país de origem, detém negócios que ajudam a formar sua fama longe de seu território além de adquirir influência.

No Brasil, as atividades da Yakuza são bem tímidas, porém não inexistentes. Em 2009, um dono de uma oficina em Birigui foi detido por seu envolvimento com a máfia japonesa. Ele era um braço da maior família mafiosa japonesa, a Yamaguchi-gumi, no Brasil. Apesar de ainda ser uma iniciativa bem pequena, é preocupante só o fato de saber que organizações como essa já podem estar influentes no Brasil.

Por fim:

A Yakuza se mostra, acima de tudo, como uma organização extremamente forte e complexa no que diz respeito à execução de seus negócios. O ideal japonês de devoção, disciplina e subordinação aplicados em qualquer tarefa mais respeitada, como trabalho e família, são incorporados na Yakuza de uma forma ainda mais forte e respeitada. Dessa forma, os mafiosos japonês sabem muito bem o que fazer, como fazer e onde fazer de um jeito bem japonês: com respeito e, acima de tudo honra.

Apesar de se tratar de uma atividade ilegal, a máfia, ao incoporar esses ideais tão presentes no que diz respeito à quase tudo na cultura japonesa, o faz de uma maneira que só ela consegue e que dá tão certo.

E mais uma vez o texto fica gigante. É muito engraçado como, a cada vez que me detenho em escrever um artigo, ele vai ficando maior e maior até sair completamente do controle. As palavras parecem desabar na minha cabeça a cada semana, e é por isso que os artigos aumentam gradualmente. Como sempre digo, espero que isso não seja um problema pra vocês, leitores, muito pelo contrário, que seja um impulso a mais rumo à cultura japonesa!

No próximo programa, que vai ao ar no próximo sábado, às 10h, falarei sobre um assunto que tenho certeza que é do interesse da maioria dos ouvintes da rádio: eventos de anime. No entanto, falarei deles com uma pequena diferença. Vocês vão ouvir sobre os eventos de anime no Japão, como eles funcionam por lá, bem como os fetiches e preferências da, no mínimo bizarra, cultura otaku. Espero por vocês!


Publicação original de 28/08/2011. 6 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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