Outra vez:

Olá e muito prazer mais uma vez! Sou Pictor, DJ que apresenta o Japanice todos os sábados às 10h e quintas às 16h. O Japanice tem por motivo fazer os ouvintes conhecerem uma face completamente estranha do Japão por meio de temas sugeridos a toda semana. Junto deles, também já é praxe a versão em texto, um pouco mais longa e aprofundada, do que foi dito no programa.

Já falamos de otakus, herbívoros, festivais, e agora o tema escolhido, como já foi adiantado no último post, é Moda de Rua Japonesa. Acima de tudo original, o estilo japonês de se vestir é sem dúvida uma das características mais peculiares do país. No entanto, junto dos visuais bonitos e alegres, há aqueles no mínimo diferenciados. Veja até onde a mente japonesa pode ir:

Base Cultural:

O Japão, como sempre acho de extrema importância relembrar, é um país onde o grande diferencial mora em sua capacidade cultural, acima de tudo. O país até hoje mantem tradições e características milenares de uma forma que poucos povos ainda cultivam. Os ideais da antiguidade estão enraizados em cada japonês, afinal o culto às tradições está por toda parte do arquipélago. Foi só a partir da segunda metade do século XIX que os portos japoneses foram abertos ao ocidente, o que permitiu que a cultura de outros países pudesse entrar. No entanto, os costumes ainda não foram esquecidos e até hoje influenciam o povo mais do que a gente imagina. Hoje, seja na forma de falar, comer, se portar, agir ou pensar, os japoneses remetem a todo momento ao que eram seus antepassados.

Especialmente no campo psicológico, a estrutura se manteve como em quase nenhuma outra parte do mundo. Vários tipos de comportamentos e atitudes extremamente normais para nós são vistas de uma maneira totalmente diferente para os orientais, que muitas vezes as transformam ao seu estilo ou simplesmente preferem não aderir.

Foi a partir do grande crescimento econômico que o país foi verdadeiramente invadido pelos valores e ideais ocidentais, o que sem dúvida era tudo muito novo e confuso. Com o passar do tempo, o Japão aderiu a esses costumes e os transformou em um estilo que só ele possui. É um estilo próprio e extremamente peculiar a forma como os japoneses conseguem alterar o que entra por lá e fazer daquilo algo mais parecido com seus gostos. Por exemplo, foi o que aconteceu com a música pop, tão popular por lá nos dias de hoje.

É com esse espírito transformador e único que o Japão modificou algo tão extraordinário e complexo: a moda. A moda de rua japonesa, surgida das ruas de Tóquio, alcançou lugares que ninguém nunca imaginou antes, e hoje existe em qualquer peça de roupa ou até na forma de se portar dos japoneses. Num verdadeiro universo a parte, os estilos são muitas vezes carregados de valores japoneses, o que também pode os deixar bizarros.

Harajuku:

Tudo começou por volta dos anos 60 e 70, quando a economia do país crescia vertiginosamente e agregava novos valores à cultura já tão tradicional. Com o capitalismo e o consumismo já fazendo parte integrante da vida dos japoneses, os costumes mudavam com o passar do tempo. Tal mudança aconteceu de forma tão devastadora e revolucionária que os jovens da época não compartilhavam os mesmos sentimentos que seus pais tinham nas décadas anteriores, e, como não poderia deixar de ser, não se reconheciam nem um pouco neles. Dessa forma, os adolescentes japoneses demandavam urgentemente uma nova cultura, que concordasse com o período transformador o qual estavam passando.

O bairro de Harajuku era, e até hoje é, um lugar onde se podia encontrar influencias de todo o mundo. Devido aos muitos imigrantes que moravam por lá, os japoneses começaram a enxergar nestas pessoas seu novo estilo de vida e jeito de ser. Assim, o bairro passou a ser muito frequentado, e não demorou muito para que alguma coisa nova saísse dessa interação. A formal sociedade japonesa, mesmo que sem perceber, oprimia e desqualificava as pessoas, principalmente os jovens que não seguissem à risca a conduta de vida comum a todos. A pressão feita em cima dos adolescentes sempre foi muito grande, deixando-os em uma posição desconfortável. Incapazes de se manifestarem contra ou até mesmo de se pronunciarem a respeito, precisavam de algo que os fortificassem enquanto jovens e, acima de tudo, criasse uma identidade.

Foi assim que a partir da década de 60 começaram a surgir nas ruas de Harajuku pessoas que procuravam expressar todos seus sentimentos em relação ao futuro e principalmente à vida através de uma maneira até então não muito reconhecida: o modo de se vestir. Por todo lado surgiam estilos e vertentes de uma moda de rua especialmente única. Não demorou muito para o estilo atingir praticamente tudo no que diz respeito ao vestuário japonês. Hoje é perceptível que a influência das ruas está presentes em quase toda peça, seja ela apenas um acessório ou um vestido inteiro. Dessa forma, a juventude japonesa conseguiu se libertar da forma que a rigorosa sociedade desejava que eles fossem. Agora eles possuíam uma identidade e, além de tudo, se expressavam não só na forma de se vestir, como também de na pensar.

Pessoas de toda Tóquio começaram a se reunir em volta da estação de Harajuku aos domingos para divulgar seu novo estilo. Por conta disso, hoje a região é infestada de lojas refinadas e que atendem ao gosto de cada um. O bairro é hoje conhecido como o lugar onde todos os estilos se encontram sem nenhuma distinção de classe social, ideologia, ou estilo aderido. É sem dúvida um dos lugares mais agitados da cidade, ideal de se visitar.

Harajuku num domingo à tarde

O estilo em si:

Apesar de hoje ser extremamente fácil aderir a um estilo de rua, não foi bem assim que eles começaram no Japão. Foi alterando e até fazendo algumas mudanças à mão sobre suas roupas que os estilos foram criados de forma inteiramente artesanal. Tudo o que se trata de moda de rua japonesa hoje começou com a iniciativa pessoal de alguma pessoa que resolveu mudar um pouco sua maneira de se vestir e ir às ruas. Dessa forma, o surgimento de novas tendências acontece até hoje não por meio de marcas e grifes famosas, e, sim, por meio de cada pessoa, o que sem dúvida é o segredo para essa cultura conseguir atingir muitos setores da sociedade. Assim, é possível uma pessoa confeccionar uma nova blusa e calça e, depois de algum tempo, uma nova subcategoria fashion se formar.

São muitos os gêneros e subgêneros que surgem todos os finais de semana ao redor de Harajuku, Shibuya ou Shinjuku, mas são poucos os que sobrevivem. Muitas vezes isso se deve ao estilo em si, que não possui uma ideologia concreta o suficiente para manter seus membros. Por conta disso, o fotógrafo japonês Shōichi Aoki resolveu fotografar e catalogar toda e qualquer nova tendência que surgisse pelas ruas de Tóquio em sua revista “FRUiTS”. Assim, mesmo que algumas categorias e ramificações da moda de rua japonesa se percam durante o tempo, elas serão conhecidas e poderão, no futuro, servir de inspiração para uma nova tendência.

Como dito anteriormente, o estilo atende a todas as classes da sociedade, e, por conta disso, não são só as mulheres que fazem parte desse movimento. Os homens também estão presentes no que diz respeito a vestirem e portarem-se de forma totalmente diferenciada do comum. Talvez até mais participativos no que diz respeito à forma fashion de vida do que os ocidentais, os japoneses são vaidosos e realmente gostam de fazer parte desse mercado. Não tanto quanto as mulheres, mas, ainda assim, bem alternativos, os homens procuram, como elas, se reafirmarem diante da sociedade pelo seu modo de se vestir.

Apesar de, hoje, a moda urbana japonesa estar tão ramificada e diferenciada em diversas categorias, há algumas características comuns a todas elas. Como o movimento surgiu de um só lugar, nada mais normal do que atenderem a alguns fatores semelhantes até hoje. Em especial, pode-se destacar a todos os estilos a preocupação com a extravagância e a sensação que estar vestido daquele jeito produz nas pessoas. Eles querem mostrar que são diferentes e originais, e, por conta disso, a extravagância sempre se faz presente em qualquer gênero.

Seja por meio de acessórios ou formatos de cabelo, a intenção ali é aparecer para todos conseguirem perceber que, além de tudo, você está vestido de uma forma diferente e tem um motivo para isso. No entanto, o nível de vaidade pode aumentar e exceder os limites consideravelmente, o que acaba por dar origem a tendências bem estranhas. Conheça um pouco dos gêneros a seguir:

 

Gals:

 

As Gals surgiram no começo da década de 80 nas ruas de Harajuku. É um estilo no primeiro momento feminino, mas que hoje também alcança os homens. Como um dos gêneros mais conhecidos e seguidos por toda Tóquio, as gals se dividem em muitas subcategorias e formas de agir. Em comum, elas possuem o desinteresse por responsabilidades sociais e preferem viver de uma maneira despreocupada. No entanto, diferente dos Homens Herbívoros, elas vivem sua vida nas ruas de um jeito extremamente radiante.

Geralmente se tratam de meninas entre a idade escolar até os 25 anos, mas nada impede que mulheres mais velhas participem. No que diz respeito à moda, as gals se preocupam em negar o padrão de beleza japonês se vestindo de uma forma muitas vezes provocante. Não importando a forma como elas ficam daquela forma, seja com perucas, bronzeamento artificial ou qualquer outra coisa, o importante é contradizer o senso comum japonês. No entanto, com a modernidade, o estilo básico das gals se tornou algo mais acessível e não tão estranho às pessoas, que começaram a seguir suas tendências.

 

Decora:

 

O estilo Decora (decora-kei) é, sem dúvida, aquele que mais faz jus ao termo kawaii (fofo) da cultura japonesa. As decoras se preocupam em mostrar seu lado mais delicado e infantil possível através de roupas e toneladas de acessórios que compõem seu visual. Os membros desse estilo se comportam como verdadeiras crianças, seja no modo de pensar ou de agir. Um estilo tão colorido e contente como esse não poderia ficar apenas na aparência, e se estende ao modo de vida “feliz” das decoras. As cores vivas e geralmente associadas às crianças são fundamentais ao estilo, estando sempre presentes em qualquer formato. A maquiagem usada também é pesada e preza pela máxima extravagancia para deixar seu usuário com um aspecto delicado.

 

Lolita:

 

As Lolitas também são muito conhecidas, principalmente fora do Japão, devido ao seu estilo de se vestir extremamente fofo e bonitinho. Seu vestuário se baseia na época vitoriana e no rococó do século XIX. Peças que remetam a essa época e as façam parecer como verdadeiras bonecas de porcelana sempre estão presentes. Comum a quase todas as categorias do gênero lolita está o vestido longo, com babados e bordados em toda sua extensão. O visual preza por uma forma elegante e formal de se vestir, diferenciando-se das gals no que diz respeito à sensualidade. Os acessórios geralmente são os laços e guarda-chuvas. Já o cabelo é cacheado, geralmente loiro. Por se bem infantil, o estilo lolita é muito visto em vários outros aspectos da cultura japonesa, principalmente aos referentes à cultura otaku.

 

Kigurumi:

 

Kigurumi é a palvra japonesa para a prática de se vestir como um animal de pelúcia. Dessa forma, kigurumis são as pessoas que se vestem de animais ou personagens de pelúcia geralmente para divulgar alguma marca ou um produto qualquer. No entanto, essa prática acabou sendo aderida às ruas de Harajuku, onde as pessoas que fazem parte dessa subcategoria se vestem com verdadeiros pijamas de seus animais preferidos. Apesar de ser até bonitinho, o estilo não deixa de ser estranho. Afinal, quem tem coragem de sair vestido de Pikachu por aí?

 

Ganguro:

 

As Ganguro são uma subcategoria das gals que ficou popular em Tóquio por volta do final da década de 90. Elas são geralmente meninas que fazem de tudo para se aproximarem ao máximo do que é uma mulher americana. Dessa forma, elas não excluem a opção de se bronzearem quase que totalmente para isso. Assim, as ganguros são uma mistura de aberrações no que diz respeito à seu vestuário. Geralmente, além do bronzeamento que as deixa quase negras, o cabelo é loiro e a maquiagem muito pesada. Sem dúvida é um dos estilos mais estranhos de que se tem notícia nas ruas de Harajuku, um título que não é fácil de se conseguir, tenha certeza.

Por fim:

Meu Deus, o texto ficou bem maior do que eu imaginava! É meio impossível pra mim escrever pouco, só espero que isso não seja um incômodo. Espero que com essa pequena explicação, vocês tenham entendido um pouco mais sobre o Japão, que afinal, é muito mais que animes, mangás e games!

No próximo programa, o tema será mais sério, porém não menos importante: suicídio. Vejo todos por lá!


Publicação original de 14/08/2011. 7 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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