Re:Re:
E aí, pessoal da Rádio Blast!? Sou Pictor, DJ da RB há pouco mais de um mês. Pode ser que algumas pessoas ainda não me conheçam nem tenham me ouvido durante esse tempo, por isso, sempre que possível, me apresento, seja nos artigos ou nos programas em si.
Apresento o Japanice, todas os sábados e às quintas, às 10h e 16h, respectivamente. O programa tem como foco apresentar aos ouvintes o lado mais estranho e diferente do Japão, que quase ninguém conhece. É incrível a quantidade de costumes e valores bizarros que eles têm por lá, isso sem falar em cada notícia que sai daquele país. Dessa forma, a cada semana é escolhido um tema diferente para que eu possa desenvolver, que, mais tarde, é compilado para a forma de artigo. Além disso, o programa serve para mostrar a todos que existem muito mais do que se aproveitar na cultura japonesa. Por isso, vamos além dos animes, mangás e tantas outros assuntos que as pessoas resumem como se toda a cultura nipônica dependesse deles. Não que eles sejam ruim, afinal, quem sou eu, um assíduo jogador de Final Fantasys, para dizer uma coisa dessas? Assim, meu objetivo não é denegrir a imagem do Japão, aliás, pelo contrário, é conhecê-lo de cabo a rabo antes de qualquer juízo de valores!
Já que os assuntos tratados geralmente são bizarros e engraçados, resolvi dar uma chance a algo mais sério e ver como as pessoas reagem. É com esse pensamento que escolhi, dentre tantos outros temas possíveis, um que incomoda muitas pessoas, seja por ser um tabu, ou seja por não ser respeitado. É com muito respeito que falo sobre o tema dessa semana: suicídio.
Antes de tudo, quero me pronunciar a respeito do tema. Eu sou extremamente contrário ao suicídio, acredito que a vida deve ter suas dificuldades, sim, e que nosso grande desafio é conseguir superá-las. Por mais clichê que isso possa parecer, muitas vezes, é, sim, muito difícil arranjarmos força o suficiente para conseguir enfrentar alguma situação. Mas o triunfo que alcançamos depois de tê-la superado não é o que nos destaca e faz tudo valer a pena? Elas são como chances que devemos saber lidar.
Este texto tem como ideal apenas apresentar o assunto como ele é visto no Japão, e nada mais.
Um grande problema:
O Japão, sem sombra de dúvida, é um país rico e desenvolvido. Ainda que ele passe por terremotos, recessões econômicas e tantos outros problemas, o arquipélago se mantém numa posição privilegiada dentre as nações. Seja na estrutura das cidades, nas oportunidades oferecidas, na prosperidade econômica ou na extrema educação do povo, em todos esses aspectos o Japão se apresenta de uma maneira quase perfeita aos olhos de quem o vê de fora. Sem nenhum tipo de problema aparente, o país é como um verdadeiro paraíso no que diz respeito aos hábitos sócio-culturais. A forma como os estrangeiros enxergam o Japão é como se ele fosse, muitas vezes, um país sem problemas, perfeito e avançado.
Sem dúvidas que, de fato, a nação japonesa tem várias qualidades e formas de se portar exemplares ao resto do mundo, afinal, há muito da cultura japonesa que faria muito bem em algumas outras nações. No entanto, o Japão, acima de qualquer outro, é um país onde os problemas sociais estão enraizados junto com sua cultura milenar. É por esse aspecto ao mesmo tempo tão interativo, como é ter a cultura em nosso dia-a-dia, e ao mesmo tempo tão problemático que o país passa hoje por uma época em que seus habitantes preferem se livrar das obrigações sociais esperadas de cada um do que viver tentando as cumprir.
O país, como qualquer outro, possui vários problemas em todos os setores da sociedade, sejam eles públicos ou privados. Principalmente no campo social, e recentemente econômico, o país tem passado por grandes dificuldades. O grande segredo do Japão é que ele sabe esconder seus defeitos como ninguém. No entanto, não é difícil encontrá-los se o alvo da pesquisa for o intelecto de um japonês, ou até do pensamento oriental em geral. Completamente diferente do estilo ocidental de encarar a vida, os japoneses ainda têm muito de sua tradição em seus hábitos, como é sempre bom relembrar. Valores nipônicos como a honra, a glória e a rendição ainda estão em várias pessoas por lá, queiram elas ou não. E é aí que o suicídio entra.
Aqui, no ocidente, qual a primeira coisa que pensamos quando alguém se suicida? Provavelmente tentamos evitar falar e até pensar no assunto, mas, quando conseguimos pensar em algo, o que vem em nossa mente é que a pessoa em questão era fraca psicologicamente e não conseguiu suportar as dificuldades da vida. Na maioria dos casos isso é, sem dúvida, uma verdade absoluta, no entanto geralmente vemos o suicida como alguém fraco e despreparado, sendo o responsável pela dor e vergonha provocada na família. Dessa forma, as pessoas que se matam por aqui são vistas como verdadeiras covardes em relação à vida e seus desafios. No Japão, não é isso o que acontece. Por lá, o ato de se matar gera honra.
Sim, se suicidar por lá significa se redimir de todos os problemas e dificuldades que você tenha causado no tempo em que esteve vivo. Acima de tudo, toda a honra perdida é “devolvida” a partir do momento em que a pessoa aceita deixar o mundo por sua própria vontade. Assim, o suicídio lá e aqui é encarado de maneiras totalmente diferentes. Na mente japonesa, se matar não é algo que envergonhe alguém, muito pelo contrário, é algo que o preserva e até perdoa seus atos mais desastrosos. No entanto, é claro que o motivo de se redimir perante algum erro já não é mais o principal motor dessas ações no Japão. Ultimamente, o que realmente motiva um japonês a cometer algo tão egoísta é justamente a vontade de se ausentar, de ser inerte e indiferente.
O Suicídio na cultura:
Foi no final do século XII que o suicídio como autopunição foi descrito pela primeira vez no Japão. Uma morte tão dolorosa e ao mesmo tempo consciente fez com que o ato começasse a ser respeitado e incorporado a certas camadas da sociedade. No entanto, o suicídio só começou a ser visto da forma como ele é visto nos dias de hoje a partir da época dos samurais. Os espadachins seguiam um código de conduta que determinava a própria morte em alguns casos específicos. Essa seleção de valores e ideais, inclusive, é o que hoje molda a vida dos japoneses, seja em sua forma de agir, pensar, e até no estilo extremamente formal como tratam uns aos outros.
O Bushidō, como é conhecido o código de conduta, acompanhava a mente dos guerreiros, e determinava que eles vivessem em função de certas virtudes. Entre elas, estavam principalmente a honra, determinação e dedicação a uma causa. Dessa forma, era de extrema gravidade quando essas virtudes, por algum motivo, eram desrespeitadas ou contraditas. Assim, se o samurai fosse preso em batalha, perdesse a guerra, tivesse seu mestre morto ou simplesmente não cumprisse com seus deveres, ele, por vontade própria, desejava se punir de alguma forma que o redimisse em relação aos seus desvios. Foi assim que o seppuku (ou harakiri), ritual de suicídio típico dos samurais, surgiu. Dessa forma, como os espadachins eram uma das mais altas classes da sociedade, o ato de retirar sua própria vida foi visto entre as camadas populares como algo nobre e de boa intenção.
Cerimônia de seppuku
O povo japonês pensa, age e, principalmente, é como é hoje devido aos ideais de servidão e subordinação herdados de classes tradicionais como os guerreiros samurais. Se hoje o país é avançado politica e economicamente, é o modo de ser dos japoneses que merece crédito por isso. O país só cresceu vertiginosamente depois da Segunda Geurra Mundial devido ao ideal japonês de luta, trabalho e perseverança.
Tudo isso ficou ainda mais explícito nas décadas de 70 e 80, após o país ter sua economia engrandecida muitas vezes baseada nos árduo trabalho dos “salarymen”, os homens extremamente ligados ao trabalho. Dessa forma, o povo japonês é um povo que está apegado ao passado não só por suas tradições e costumes e, sim, pela forma de pensar e ter impressões sobre o que presenciam. Junto com eles, permaneceu também a mesma conotação positiva que o suicídio tinha há séculos atrás, e é por conta dele que o governo japonês tem dificuldades em resolver esse problema.
Taxas:
Neste momento em que você lê a matéria, alguém já deve ter se matado no Japão. Pelo menos são esses os dados de 2010, que indicam que uma pessoa comete suicídio a cada 15 minutos por lá. No ano de 2009, mais de 30.000 pessoas morreram desta forma, e tirar a própria vida é a principal causa de morte entre homens de 22 a 34 anos. De todos os países desenvolvidos, o Japão é o que apresenta a maior taxa de suicídios, e só perde para a Lituânia em um apanhado geral.
Os casos acontecem principalmente entre os homens, que representam 71% deles, principalmente os de meia idade. No entanto, o problema não se restringe só a eles, embora sejam maioria, o suicídio atinge todas as camadas da população, sejam homens, mulheres, velhos e até crianças. É relativamente comum, por exemplo, a existência dos chamados “Suicide Circles”, em que um grupo de pessoas bem grande, sejam elas de mesma idade, sexo, ou não, se reúne para se matar todos ao mesmo tempo. Há casos até de famílias inteiras que compartilham do sentimento de decadência e decidem se matar todos em conjunto.
Dessa forma, com números e dados tão arrasadores, o governo japonês, sem dúvida, teria que tomar uma posição diante desse impasse. De uns tempos pra cá, o Japão tem sofrido muito no que diz respeito à sua taxa de natalidade. Por lá, a quantidade de pessoas que nascem é extremamente baixa se comparada à expectativa de vida, que chega aos 80 anos. Ou seja, enquanto poucas crianças nascem, os que já são adultos ainda têm muito o que viver. Assim, a força que, em tese, movimentará a economia e sustentará a geração mais velha não consegue crescer na proporção que deveria. Somado a isso, o suicídio atinge principalmente os homens em idade de ter filhos, o que, sem dúvida, agrava ainda mais o problema.
Aokigahara:
A forma, o local e a hora que os japoneses escolhem para se matar são os mais variados possíveis. Há pessoas que escolhem lugares simbólicos, e formas ainda mais simbólicas ainda de deixar de existir, como é o caso da floresta de Aokigahara.
A floresta fica no pé do monte Fuji, perto de Shizuoka, a umas duas horas de trem de Tóquio. O lugar ganhou um significado “místico” após um romance no qual dois amantes adentram a floresta para se matarem foi escrito. Os suicídios já eram realizados com certa frequência por ali, e ganhou ainda mais força após a publicação do livro. Por ano, são achados, em média, mais de 100 corpos, isso sem contar o enorme número de pessoas que acampam ali com o intuito de tirar sua própria vida e acabam hesitando. Dessa forma, se você for ao Japão algum dia e por algum acaso fizer um tour pela floresta de Aokigahara, que, aliás, deveria ser um lugar turístico, não vai ser muito difícil encontrar um corpo pendurado entre as árvores, que está ali há poquíssimo tempo.
Sem dúvida que é um lugar extremamente aterrorizante, e, justamente por isso, a floresta ganhou a fama de mal-assombrada. É um local onde há casos novos de suicídio e pessoas que a adentram com esse propósito todos os dias. Geralmente, os suicidas escrevem cartas de suicídio em tábuas e as pregam nas árvores próximas do local de sua morte. É bem comum também a presença de barracas e tendas entre os que ainda não têm tanta certeza do que realmente querem. A floresta é o segundo local com maiores taxas de suicídio do mundo, e só perde para a ponte Golden Gate em San Francisco.
Nota de Suicídio em Aokigahara
A sociedade e seus motivos:
Quando pensamos em sociedade japonesa, devemos nos lembrar, acima de tudo, que se trata de uma sociedade extremamente formal. Absolutamente tudo o que diz respeito às principais fases da vida de um japonês segue à risca uma determinada expectativa vinda da sociedade. Obviamente, isso acontece em todos os lugares do mundo, uns com mais intensidade do que outros. O que diferencia o Japão é justamente seu caráter, muitas vezes, antiquado.
Ainda que hoje o país passe por uma época de enorme tecnologia e modernidade, a mente de um japonês ainda guarda características de outras eras. Basicamente, a sociedade ainda gira em torno da honra que cada um deve possui e manter custe o que custar. Dessa forma, é esperado de um japonês que ele mantenha sua honra e faça de tudo para aumenta-la e preservá-la. Assim, a sociedade se mostra de uma forma opressora, e não algo em que o indivíduo possa se apoiar de vez em quando.
Todos esperam do indivíduo que ele cumpra suas obrigações sociais, como casa, ter filhos, um bom emprego e, principalmente, dinheiro. Assim, a força com que essas expectativas atingem às pessoas e a maneira como elas tentam cumpri-las é fortemente desgastante. Elas deixam de se manifestar a respeito do que gostariam e apenas seguem o que as disseram para seguir. Dessa forma, a individualidade de cada um é sobreposta e, muitas vezes, acaba desaparecendo. É por conta disso que hoje existem, por exemplo, os Herbívoros, homens indiferentes quanto às obrigações sociais impostas pelas sociedades. Eles simplesmente não se preocupam em ter uma filha ou um bom emprego, o que prova o quanto a pressão social pode ser grande em alguns casos.
É assim que, se você não cumpre com o que se espera de você, a sociedade infelizmente tende a te rejeitar e isolar. E é assim que os suicidas acabam surgindo, nesse contexto de extrema indiferença social em relação a um problema de caráter, principalmente, sentimental. O que as pessoas com a intenção de tirar sua vida precisam é simplesmente uma maior compreensão de uma sociedade que não consegue aceitar e pardoar os menores erros possíveis.
Finalmentes:
Bem, o tema sem dúvida é pesado e, eu diria, até um pouco complicado de se desenvolver sem ser um pouco mais formal. Espero que todos tenham compreendido um pelo menos uma parte de como esse assunto funciona no Japão, e como a sociedade em si também é. De qualquer forma, apenas de poder falar a respeito de uma questão considerada um tabu mundial já é, em minha opinião, extremamente válido.
Mais uma vez digo que, em minha opinião, não há nada que justifique uma decisão tão drástica.
Na próxima semana o tema escolhido é um que muita gente ouve falar e poucas conhecem. A máfia japonesa dá as caras por aqui! Conheça tudo sobre a Yakuza no próximo programa e artigo! Até lá!
Publicação original de 21/08/2011. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.