Apresentação:

Muito prazer a todos! Sou o novo DJ da rádio, todos me chamam de Pictor e é assim que quero ficar conhecido por aqui. No último sábado, aconteceu a estreia do Japanice, programa em que, a cada semana, falarei sobre um tema que remeta a alguma bizarrice do Japão. Junto do programa, postarei também uma versão escrita sobre o assunto neste blog, o que melhora a compreensão e até permite que eu me aprofunde mais. O tema que foi escolhido no primeiro programa é um assunto que pouca gente conhece verdadeiramente: otakus. É praticamente impossível gostar de anime e mangá sem nunca ter ouvido a palavra “otaku” antes. Bastante comum entre os grupos fanáticos por animação japonesa, o termo aqui no Brasil ganhou um significado um pouco diferente de como é conhecido no Japão. São poucas as pessoas que se consideram otakus sabendo como eles realmente são. Você se considera um otaku? Tenha certeza disso agora:

Otaku do dorama Densha Otoko

O que é um otaku?

Otakus são frequentemente conhecidos como os fãs de animação e quadrinhos japoneses. É dessa forma que conhecemos a palavra aqui no Brasil e que normalmente empregamos até para descrever-nos. Ultimamente, com mais pessoas ouvindo falar e conhecendo a cultura japonesa, o termo tem se tornado um pouco mais famoso. No entanto, há diferenças entre o seu significado original e o que usamos aqui. No Japão, é otaku aquela pessoa que possui um vício extremo e doentio por algum hobby qualquer.

Desta forma, não importa se o cara coleciona bonecos, armas ou livros. Se ele o fizer de forma compulsiva e deixar que isso afete sua vida social, ele é considerado um otaku. Então não são otakus só aqueles que gostam de animes, mangás e games, para quem normalmente usamos a palavra. Em nosso país, o termo chegou com o sentido um pouco deturpado, e muitas vezes o usamos de maneira incorreta. Em comparação com seu país de origem, os fanáticos brasileiros são muito diferentes dos japoneses, e de forma alguma seriam reconhecidos dessa forma se estivessem no Japão.

Quarto de um otaku. Dá pra ter uma ideia do tamanho do fanatismo.

Diferença entre otakus brasileiros e japoneses:

O estilo dos otakus japoneses é de assustar qualquer um. São pessoas em sua maioria estranhas e eternamente condenadas por seu vício, como se aquilo fosse realmente uma droga como outra qualquer. O nível de fanatismo chega num ponto tão alto que a pessoa tem dificuldades em se socializar e fazer atividades comuns do nosso cotidiano que remetem à vida em sociedade. Por conta disso, o termo otaku tem uma conotação extremamente negativa no Japão, diferente do que vemos acontecer por aqui.

Sem dúvida, há uma razão bem óbvia pra isso: os fãs brasileiros não são tão fanáticos como os japoneses. Dessa forma, o otaku brasileiro não deixa que um simples hobby cause danos irreparáveis a seu modo de viver, e por isso provavelmente nunca vão ser vistos como um problema. No caso dos japoneses, para se ter uma ideia, o estrago pode ser tão grande que eles simplesmente se livram das obrigações sociais para se fecharem em seu próprio mundo. O caso mais famoso é o dos hikikomoris, pessoas que se trancam nos seus quartos para quase nunca mais saírem. É claro que nem todos eles são otakus e muitas das vezes têm outros motivos para serem levados a tomar uma atitude tão extrema. No entanto, a causa geralmente também está ligada ao vício de um hobby que o indivíduo simplesmente não consegue parar.

Local de “vida” de um hikikomori

O estilo em toda parte:

Os otakus, como qualquer outro grupo, têm suas características e gostos próprios, que se fazem presentes em vários aspectos das produções destinadas a eles e que poucas vezes percebemos. Você provavelmente já viu um anime ou jogou algum game em que os personagens, por falta de tradução oficial ou qualquer outro motivo, têm suas vozes mantidas no original japonês.

É muito comum acontecer que, em alguma produção nesse estilo, exista uma personagem adulta ou adolescente do sexo feminino com uma voz que não parece ser sua, e, sim, de alguém bem mais novo. Essa é uma das características mais bizarras dos otakus japoneses: o gosto por aspectos infantis. Outras coisas como o fetiche por roupas de empregada, colegiais e personalidades extremamente delicadas e infantis compõem os gostos desse nicho. Esses exemplos estão por toda parte por um simples motivo. Os otakus, independente de como o fazem, consomem tudo que os agrada. Então, não importa como ele vai conseguir dinheiro para comprar, o fã hardcore vai consumir de qualquer jeito. Isso, é claro, movimenta muito dinheiro numa indústria cada vez mais saturada como a dos animes e mangás. Por conta disso, é muito mais fácil e prático apostar em iniciativas que os produtores têm certeza que vai fazer sucesso do que em algo experimental e inovador. Outras características ainda mais bizarras e completamente estranhas para nós fazem parte do imaginário desses fanáticos. Já percebeu a cisma que as produções japonesas têm por calcinhas? Pois é...

Possíveis Causas:

Se afundar em algo a ponto de não mais ligar para a realidade é o que chamamos de escapismo. É algo que muitas vezes nós fazemos e sequer nos damos conta. Quando jogamos videogames, por exemplo, estamos, de certa forma, nos desligando da realidade por um tempo com a intenção de esquecer nossos problemas. Atividades assim são absolutamente normais e tem um objetivo bastante claro: nos fazer relaxar. O problema é quando essa “fuga da realidade” se torna maior e mais forte do que nossas próprias forças, fazendo com que a vida real pareça mais chata e difícil de ser encarada.

Casos assim acontecem em qualquer lugar do mundo, cada qual com sua respectiva essência que o faz ser único. No entanto, há, sim, algumas causas matrizes que muitas vezes agem como impulso a situações de isolamento social. No caso específico dos otakus, há uma razão central que, sem dúvidas, tem parte no problema: a extrema e rigorosa sociedade japonesa. Pra quem não sabe, o Japão é um país onde antiguidade e modernidade se encontram de forma sublime e no mínimo curiosa. Lá as tradições se fazem presentes em todos os cantos do país sem serem vistas como características de uma época passada, e, sim, como parte integrante do presente. Unida a todas essas características passadas de geração em geração está a moral do povo, que inevitavelmente se conservou durante todo esse período de transição e mudanças radicais iniciadas principalmente após a Segunda Guerra Mundial.

Dessa forma, os valores e ideais de séculos atrás estão vivos em qualquer cidadão japonês. Disciplina, trabalho, dedicação, subordinação e, principalmente, honra são aspectos inerentes a essa sociedade, o que dá origem a outro sentimento: a pressão. Observando valores como esses é impossível não imaginar a pressão que é feita em cima de cada um. Não há outro jeito, todos têm que ser assim, do contrário a sociedade não o vê com bons olhos. É claro que manter características tão nobres em nossas ações não é nada fácil e muitas vezes se torna uma experiência devastadora do intelecto. Àqueles que não possuem ou não conseguem atingir o resultado esperado resta apenas descobrir um outro sentido na vida ou continuar tentando se encaixar nos moldes sociais. De um lado, está um mundo complicado que exige o melhor das pessoas que o compõem. Do outro, fica um paraíso onde todas as obrigações e deveres do primeiro são substituídos por acomodações e prazeres. Não fica difícil dizer qual dos dois parece mais atraente, não é? Desse jeito, surgem grupos como os otakus, hikikomoris, e tantos outros com várias características diferentes, mas que têm em comum o escapismo e a vontade de se verem livres de uma sociedade opressora, mesmo que ela não o faça por querer.

E então, ainda se considera um otaku?


Publicação original de 22/07/2011. 3 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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