A proposta:
Muito prazer à todos! Pra quem não me conhece, sou Pictor, novo DJ da Radio Blast!. Todos os sábados, às 10h, apresento o Japanice, programa cuja proposta é falar sobre aspectos totalmente bizarros e estranhos da cultura japonesa, e que, a cada semana, escolherei um tema diferente para abordar.
Os otakus foram o último assunto escolhido, e agora chegou a vez dos “Homens Herbívoros”. Os herbívoros são, como os otakus, uma espécie de grupo surgido no Japão com características que nos levam a crer, mais uma vez, o quão opressora a sociedade japonesa pode ser. Eles são homens que simplesmente não ligam para sexo, dinheiro, emprego, competições e outros assuntos normalmente classificados como “para machos”. Grupos como estes nos ajudam a entender como a mente de um japonês funciona, e desmistificar a ideia que muitos brasileiros têm de que o Japão é um lugar sem nenhum problema.
O “moderno” homem Japonês
Herbívoro? Como assim?
O termo “Homem Herbívoro” surgiu pela primeira vez em 2006 para denominar um novo estilo de homens cada vez mais comuns na sociedade japonesa. O original em japonês, “sōshoku-danshi”, começou a se tornar um vocábulo corriqueiro por lá, o que não é nada bom aos olhos do governo, visto os problemas que eles podem causar. Os herbívoros são adultos, normalmente entre 20 e 34 anos, que têm uma atitude e estilo de vida diferenciado do que era comum nas gerações anteriores. Ao contrário do japonês extremamente ligado ao trabalho e dinheiro, entrou em ação um jovem calmo e delicado, cujos interesses até se assemelham com o das mulheres.
Eles não se interessam por nada que remeta ao ideal machista de homem, o qual consideram nojento e desrespeitoso. Dessa forma, é mais atraente para um herbívoro levar uma vida calma, mas sem nenhum luxo, do que procurar o sucesso pessoal e querer ocupar uma posição de destaque. Entre suas características, estão principalmente o total desinteresse pelo sexo oposto, a falta de ânimo em ter um bom emprego (e consequentemente ganhar muito dinheiro), a atração por maquiagens e o jeito “fashion” com que levam suas vidas. É isso mesmo, esse grupo tem um estranho interesse por maquiagens e artigos femininos de moda. Coisas no Japão normalmente associadas às mulheres estão sendo incorporadas por eles, como o jeito delicado de ser, a forma mansa de falar e o estilo submisso de lidar com os outros. Ao contrário do que se possa pensar, os herbívoros não se consideram gays, eles apenas não demonstram nenhum gosto por relacionamentos, o que os torna uma espécie de “assexuados”. É por conta dessa falta de atitude para com as mulheres que esse grupo recebeu a denominação “herbívoros”, afinal, eles não estão mais interessados em assuntos carnais.
De onde surgiram:
O Japão, após a Segunda Guerra Mundial, passou por um período de grande crescimento econômico para se transformar na potencia que conhecemos hoje. Se atualmente o país é um dos mais modernos e ricos do mundo, é devido a essa época de grande prosperidade. Especialmente no fim da década de setenta e início da de oitenta, esse desenvolvimento se refletiu principalmente na sociedade. O povo japonês, acostumado a um estilo de vida não tão ligado aos bens materiais, deu lugar a uma geração consumista e mais agressiva no que diz respeito ao sucesso pessoal.
Dessa forma, surgiu o ideal de homem machista sempre ligado ao trabalho, dinheiro e mulheres. O principal objetivo dos homens daquela época era ter um bom emprego numa empresa de destaque e formar uma família o mais rápido possível. Assim, os tão famosos “salarymen”, homens viciados no trabalho, apareceram, dando a oportunidade de o país crescer ainda mais. No entanto, junto com o desenvolvimento, veio também a arrogância. O machismo se fazia cada vez mais presente na cultura japonesa, em que, tradicionalmente, as mulheres já não tinham tanta influência assim. Com o tempo, esse estilo de vida se desgastou e começou a ser abominado, ainda que muito presente hoje em dia. Foi assim que os herbívoros apareceram, justamente para negar e contradizer tudo aquilo que “ser homem” significava nas décadas anteriores. Eles são justamente o oposto daquilo que consideram “nojento”, mesmo que isso os dê uma fama de impotentes.
Não dá pra destinguir muito bem, não é?
O grande problema:
Numa pesquisa recente, 60% dos jovens entre 20 e 34 anos se consideram herbívoros. Ou seja, mais da metade dos homens em idade de procriar não querem ter nenhum tipo de realção com o sexo oposto, o que sem dúvida, é muita gente. Pra quem não sabe, o Japão, hoje, tem sérios problemas no que diz respeito à taxa de natalidade. O mínimo de filhos que uma mulher deve ter para dar continuidade à espécie sem prejudicar a economia de seu país é dois. No Japão, segundo dados de 2009, nasce apenas 1,37 filho por mulher, o que é um índice extremamente preocupante.
Em um país cuja expectativa de vida é de mais de 80 anos, os idosos estão por toda parte, inclusive em maior número que os jovens. Em comparação, num país sem problemas de natalidade, as gerações mais novas sustentariam a aposentadoria dos mais velhos e dariam continuidade à movimentação econômica responsável pela prosperidade dos anos futuros. Infelizmente, não é isso que acontece no Japão, onde esse problema mostra-se como um dos maiores do país no momento. Com tantos grupos desinteressados em ter um relacionamento, como os herbívoros, otakus e hikikomoris, a tendência é que o problema se agrave ainda mais. Dessa forma, o grande desafio do governo nos próximos anos é encontrar uma possível solução para essa situação sem interferir muito na tradicional cultura.
As mulheres carnívoras:
Junto com a aparição dos “sensíveis” e “calminhos” herbívoros, vieram também as “Mulheres Carnívoras”. Como foi dito, as mulheres japonesas tradicionalmente sempre foram submissas aos homens, ainda mais em um país que mantem suas tradições tão vivas como o Japão. Dessa forma, as mulheres por lá nunca conseguiram se equiparar aos homens no que diz respeito principalmente às oportunidades. Elas tinham o intuito apenas de cuidar da casa e dos filhos numa cultura que sem dúvida as subestimava e não dava lugar para se destacarem.
A atual queda no comportamento agressivo dos homens coincidiu com a ascensão feminina. Antes, eram elas que ficavam esperando para serem conquistadas por alguém que as sustentasse e desse filhos para cuidar. Agora, são elas que correm atrás, se vestindo e comportando como verdadeiras “caçadoras” em busca de seu objetivo. Com mais oportunidades à vista, as mulheres japonesas estão sem dúvida mais independentes dos homens que as subjugaram tantas vezes. Por conta dessa agressividade vinda das moças em arrumar um marido e ganharem mais dinheiro, elas ganharam a denominação de carnívoras.
Agora são elas que partem pra cima
Ser como quero ou como querem?
Um país com homens herbívoros e mulheres carnívoras parece, sem dúvida, um lugar bem estranho. No entanto, fenômenos como esses nos levam a uma discussão bem maior. Os herbívoros não têm culpa de serem assim, eles apenas agem da forma como se sentem melhor. Isso, no entanto, contraria totalmente o ideal esperado de cada um, além de, é claro, trazer consequências graves ao país. Dessa forma, há um embate de ideias em se adequar ao que a sociedade quer que você seja ou ser quem você é realmente. Afinal, o que eles devem fazer? Continuar vivendo de uma forma que os agrade e os faça feliz ou ajudar seu país a não entrar em um colapso quase irreversível?
Na minha humilde opinião, acredito que esse estilo de vida herbívoro não nasce naturalmente de cada um. Assim como nos otakus, a sociedade japonesa tem grande participação no problema, mesmo que ela não perceba. Desde sempre, os jovens japoneses sofrem uma espécie de expectativa por parte da família, que esperam que eles sejam de um determinado jeito. Nesse caso, o esperado é que eles tivessem o mesmo interesse de seus pais durante o crescimento econômico, ou seja, tivessem a vontade de se sobressaírem em suas vidas. No Japão, que, como sempre digo, a pressão não é pouca, essa expectativa se tornou insuportável por parte dos jovens, que a contradisseram totalmente se tornando herbívoros, otakus, hikikomoris e tantos outros semelhantes que negam completamente esse ideal.
A solução para esses problemas, no entanto, é que ainda parece tão distante.
Publicação original de 28/07/2011. 3 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.