Esta é a história de um clube de crianças que virou uma rádio, de uma rádio que virou uma redação, de uma redação que quebrou, e de uma casa que foi reconstruída do zero e chegou aos vinte anos.
Tudo o que está aqui vem de fonte primária: os textos que a própria equipe publicou, as conversas internas que sobreviveram, as mensagens que o público deixou. Onde há aspas, são palavras exatas de quem estava lá.
2005Antes de tudo, um clube
Antes da rádio, antes do fórum, antes de qualquer site, havia um clube de crianças em Uberlândia com sede própria e pôsteres na parede.
"Nessa época, eu, Guideki e Silvinha fazíamos parte de um clubinho, estilo aqueles do Bolinha, de Luluzinha. Tínhamos uma sede, cujas paredes eram repletas de pôsters do Pokémon e do Digimon, fingíamos ter pokébolas, monstrinhos, discutíamos os episódios do anime, e tudo mais... o clubinho se chamava... erm... Powermon."
Hick, entrevistado no programa Blastionário!
Hick e Silvinha eram irmãos. Guideki, primo dos dois.
Naquele mesmo ano, um garoto de catorze anos ouvia uma webrádio cobrindo um evento de anime ao vivo e decidia que queria fazer aquilo.
"na época, quando o assunto era ouvir música japonesa e Internet, a maior referência era a Rádio Animix. [...] Lembro-me que eles estavam cobrindo um evento de anime ao vivo (depois descobri que era o Anime Friends 2005) e fiquei vidrado com aquilo — aliás, acho que foi aí que eu comecei a me identificar com o jornalismo, propriamente dito."
17 de agosto de 2005 — o Fórum Powermon vai ao ar.
Fórum, portal, rádio: três coisas com o mesmo sobrenome
Vale separar os nomes agora, porque eles se confundem no resto da história.
O Powermon nasceu como fórum, e só como fórum. Nada de site, nada de rádio — um fórum de animes, mangás e games, com gente conversando. Os dois textos mais antigos que sobreviveram no acervo dizem isso com todas as letras:
"O portal já existe desde o ano passado, quando o fórum foi lançado, em 17 de agosto de 2005."
"Está no ar há quase dois anos, desde 17 de agosto de 2005, mas apenas em sua versão fórum."
Desse primeiro ano não sobrou uma única página. Nem endereço, nem tela, nem tópico. O que existe é a data, escrita duas vezes por quem estava lá.
E ela viria a definir todas as outras. O dia 17 de agosto ainda apareceria muitas vezes nesta história — inclusive quando ninguém mais lembrasse por quê.
2006A rádio nasce dentro de um fórum
O fórum já estava rodando havia quase um ano quando a ideia da rádio apareceu, e ela apareceu do jeito mais banal possível.
"A ideia de criar uma rádio surgiu em meados de julho de 2006, num momento em que eu e o Guideki não tínhamos nada pra fazer. [...] Em um mês, de julho pra agosto, a gente já fez o plano virar realidade."
O nome e o slogan saíram no mesmo lugar.
"Eu e o Guideki estudamos juntos durante quase a vida toda. Num dos horários vagos que a gente tinha, começamos a pensar num nome e num slogan pra rádio. E eu juro que 'Rádio Blast!, uma explosão de conteúdo' surgiu aí, nesse momento de vagabundagem escolar. Foi assim que tudo começou."
1º de agosto de 2006 — o primeiro programa vai ao ar. Chama-se Tokazoreiah, apresentado pelo DJ Hick, e dura duas horas.
17 de agosto — exatamente um ano depois da fundação do fórum — passa a ser a data que a casa comemora.
Como era, de verdade
Os primeiros meses foram pequenos de um jeito que os números depois esconderam.
"começo de rádio, todo mundo procurando gente capacitada, lá vai o rim fazer um programa de rádio chamado Time MacHyn, a vida de DJ na época não era fácil, tendo que fazer programa para um número recorde de ouvintes, 5 no total, sendo que 3 eram seus amigos de msn, 1 era o Hick e o outro era outro DJ, consegui a duras penas bater o recorde de 18 ouvintes, sendo batido posteriormente pela Mika que fez 21."
Hyn, escrevendo um ano depois
Os DJs faziam cinco programas por semana — três próprios e dois de tapa-buraco. O Karalhokê, inventado pelo Hick, tinha um prêmio incomum: quem ganhasse apresentava a edição seguinte.
O que estava no ar em 2006
Agosto — o powermon.info entra no ar como endereço provisório, com o fórum, a rádio e os outros canais dentro dele. A Blast! mora em powermon.info/blast. A home traz um aviso:
"Portal Powermon em construção! O site oficial será lançado em breve. Por enquanto, acesse os nossos canais e fique por dentro das novidades e atualizações através do fórum. Dentro de algumas semanas, o portal de anime e mangá mais interativo do Brasil abrirá as suas portas. Aguarde!"
19 de outubro — a rádio ganha seu primeiro site oficial, depois de "mais de um mês de trabalho intenso e diário". Ele nasce dentro do endereço do portal, e nos meses seguintes acompanharia a mudança dele: quando o powermon.net entra no ar, em novembro, a Blast! passa a responder em blast.powermon.net e em powermon.net/blast.
Era esse o endereço que os DJs falavam no ar. Quem ouvia em 2006 e 2007 decorou "powermon ponto net barra blast" antes de a rádio ter nome próprio na internet.
25 de outubro — a primeira cobertura de evento: o Anime Festival, em Belo Horizonte, por Hick e DJ King_Salmon.
6 de novembro — o fórum tem 314 membros e 13.906 mensagens.
Novembro — nasce o Blog Blast!, "o blog dos DJs". E o blog publica a lista da equipe: 41 pessoas, quatro meses depois de a rádio entrar no ar.
AsukaBulma · Kenshin · Hick · King_Salmon · Napster · Hinamori · Alucard · Zerorox · Hyn · Nica · Pierre · Aero · Mika · Juko · Koyuki · Duriel · Ks · Keitaro · Liquid · Hurray · Greed · PacKZz · Anakin · Miojuu · Luffy · Driff · Gaby-chan · Silvinha · Kairi · JohnVeeJones · Dana · Lethenil · Guideki · Hitoki · Tsukai · Rafitcha · Luger · Miya · IchigoKeitaro · R · Demon
É o retrato de equipe mais antigo que sobreviveu. Dezoito desses nomes não aparecem em nenhum outro lugar do acervo — nem antes, nem depois. Estavam ali, e é tudo o que se sabe.
E a grade daquela fase tinha nomes que dizem o que a Blast! era antes de virar rádio de música japonesa: Trance Night · Metal Daze · Game Clash · Nonsense · Bom Dia · Meio-Dia · Kafeh cum Leiti · Otaku Eien. Em dezembro, o Top 5 da home ainda trazia System of a Down ao lado de Porno Graffitti e Utada Hikaru.
19 de dezembro — os primeiros textos que sobreviveram no acervo. Todos tratam do portal, e um deles marca data para a estreia do site central: 25 de dezembro de 2006. O site não saiu no Natal.
No mesmo dia, entra no ar o doe.powermon.net, com a relação das despesas mensais publicada.
"disponibilizamos aqui uma relação das nossas despesas mensais, acompanhada de links importantes sobre os nossos servidores, para que você possa verificar na realidade se o preço cobrado por nós equivale à quantia necessária que divulgamos aqui."
A transparência financeira da Blast! é do quarto mês de vida.
Aquela página de contas parecia detalhe burocrático no meio de um ano cheio de estreias. Não era. A conta que ela publicava seria o assunto mais difícil dos vinte anos seguintes — e a coisa que quase acabou com tudo.
E um bot
Em algum momento entre agosto de 2006 e o começo de 2007 nasce o canal de IRC #radioblast e, com ele, um bot de moderação batizado com um trocadilho de Dragon Ball: a Booma.
De tudo o que entrou no ar naquele ano, ela é a única coisa que nunca saiu.
2007A rádio vira operação
2 de fevereiro — a rádio bate 387 ouvintes simultâneos, num servidor com capacidade para 400. E o texto que registra isso é a primeira declaração de método da casa.
"É interessante que a Rádio Blast! seja encarada pelo público como um projeto comunitário, ao qual todos tenham acesso e todos possam se envolver, e não como um projeto intocável, onde as atividades se limitam à transmissão pobre do DJ e ao acompanhamento mórbido de um ouvinte."
Guarde essa frase. Ela explica o fã-clube que os ouvintes fundariam sozinhos, o programa em que o público fazia as perguntas, e o acervo em que, vinte anos depois, as pessoas contariam a própria versão desta história.
Detalhe técnico que vale ouro: a Blast! começou no Jetcast, não no Shoutcast. E a barreira de entrada para ser DJ não era talento — era ter um computador que aguentasse rodar o stream. Uma DJ recrutada em 2006 ficou um ano parada porque a máquina dela não dava conta.
Essa barreira ainda estaria de pé nove anos depois, e reprovaria três vezes alguém que acabaria comandando a rádio.
Abril — o site novo entra no ar. Estreiam o DJ Note e o Sociedade Anônima, apresentado pela Silvinha de segunda a sexta às 14h, que a própria casa chamaria de "um dos programas mais ouvidos da história da rádio".
27 de abril — o primeiro anúncio de vagas da história. Já traz a palavra que definiria a casa por duas décadas.
"a administração da rádio está recrutando voluntários para integrar a nossa equipe de DJs. Há horários disponíveis de madrugada e na hora do almoço. Além disso, convocaremos também alguns DJs tapa-buraco."
5 de maio — 621 ouvintes simultâneos. Recorde que duraria um ano.
16 de maio — a primeira entrevista com banda: †oru, da PSYGAI.
Junho — o Portal Powermon é finalmente lançado, e não por nota no site.
"O Portal Powermon foi finalmente lançado no finalsinho do programa Plantão Powermon de quarta-feira, às 22hs, na apresentação de Hick e Guideki. Essa era a surpresa da noite."
A rádio anunciando o nascimento do portal, e não o contrário. E há uma explicação escrita para essa ordem invertida:
"A maioria dos sites/portais de anime/cultura oriental brasileiros lançavam o site central e depois as suas subdivisões. Aqui foi diferente. Inicialmente, o fórum foi lançado. Depois, a Rádio Blast!, que é, sem dúvida, o nosso canal de maior sucesso. Somente depois que as ramificações da Powermon foram aprovadas pelo público alvo é que o portal é lançado."
Comunidade primeiro, produto depois, marca por último. Está escrito em 2007, por um garoto de dezesseis anos, e é a mesma ordem que a casa seguiria em todas as vezes que precisou recomeçar.
25 de junho — a grade tem 41 programas, cobrindo as 24 horas, com nomes que davam o tom da casa: O Justiceiro (Kira) · Animadruga (Geki) · Acorda, Dorminhoco! (Lockheart) · Universo Pokémon · Mercadinho Blast! (Kanjiry) · Roda o vinil! (Quel) · Dirty Pop! (Osama) · Plug In, Baby (Thi) · Karalhokê e Time MacHyn (Hyn) · Nois capota mais num breca (Pyong) · Ohayo, otaku! (Kuroneko) · Animorning Café (Densetsu) · National Blast! (Dohko) · Anime's Reaver (Ichimaru_Gin) · Powermon S.A. (Silvinha) · AnimALL (Duu) · J-Music Universe (Kuroi_Kurai) · Mika Night (Mika).
A grade era 24 horas por sete dias, e tinha três horários vagos naquela semana. O post pedia ajuda: "se você conhece alguém que pode cobrir os horários em branco na grade, procure a administração".
Como se tocava uma rádio de 24 horas
Sobrou um registro de como isso funcionava por dentro: o log do canal de operações da equipe, #blast_op, de maio de 2007. O tópico do canal, fixado pelo fundador, resume a rotina melhor que qualquer relatório:
"GENTE, CADÊ AS VINHETAS? TEM QUASE NINGUÉM TOCANDO!"
Ali dentro, a operação acontecia em tempo real. Alguém não podia entrar, outro cobria. O próprio Hick pegava turno:
"[Jiraiya-Sama]: Olha, se importa de eu cobrir?"
E coordenava por nome, um a um:
"[Guideki]: Procure o Buddye, o Tsukai e o Fullmetal e fale com eles. Eles são os caras das 18 horas de segunda a sexta, ok?"
Um DJ explica, sem que ninguém tenha perguntado, por que cobria buraco dos outros:
"tb tive apoio no começo, por isso sempre que posso ajudo os dj novatos ou sem espaço na programação, deixando eles de tapa buraco na hora que tô na madrugada."
E o medo constante da casa virava piada de oração:
"e livrai-nos do servidor offline"
Num único dia daquele mês, o canal registrou mais de três mil mensagens.
A rádio que batia recorde de audiência e aparecia no jornal era, por dentro, um grupo de adolescentes se organizando por chat para que nenhuma hora do dia ficasse vazia.
A audiência, do outro lado
Do mesmo período sobrou o log do canal público, o #radioblast — quase catorze mil mensagens de ouvintes em poucas semanas de 2007. É a primeira vez que se ouve o público da Blast! falando.
Um bot avisava, de tempos em tempos, quem estava no ar:
"ATENÇÃO: A DJ que está na rádio agora é a Dj_Kaah. Para ouvi-la → servidor1.brasilradios.com.br:8182 — pedidos no PVT por favor!"
E os pedidos chegavam como se pede música para um amigo, não para uma emissora:
"Lily, toca aí a Open 7 daquele desenho que tem os carinhas assim com uns trecos coloridos na cabeça e que fazem aquelas paradas maneiras com uns treco"
Entre os mais falantes do canal naquelas semanas estava um ouvinte chamado Loro-Jose, que aparecia junto de outro chamado Ana Maria — e que, dezenove anos depois, contaria como aquele apelido de brincadeira acabou virando o mascote de pelúcia da rádio.
A Booma no ar, em maio de 2007
E ali está ela, funcionando, com nome e defeito.
"se conseguiu arrumar aquele barato de Flood da Booma? Porque tinha vez que ela começava a kikar todo mundo, só falando uma linha no canal."
Havia uma divisão de responsabilidade sobre ela:
"o Hick disse que você ia hospedar a Booma, mas que eu ia continuar operando."
E ela jogava com o público:
"ganhou a Booma xD"
"não vale Booma"
"eu ganhei da Booma agora pouco"
Em maio de 2007 a Booma moderava o canal, errava e expulsava gente por engano, tinha alguém que a hospedava e alguém que a operava — e disputava trivia com os ouvintes, que reclamavam quando ela ganhava.
Um DJ chamado Duu
Naquela grade, às terças, das 12h às 14h, ia ao ar um programa chamado AnimALL. O apresentador assinava Duu.
Ele tinha entrado pelo processo daquele ano: gravar um áudio de até três minutos, mandar por e-mail e, se aprovado, conversar no mIRC com o Hick ou com o Guideki. Ele guardou o log dessa conversa:
[19:22:26] Duu: xego a escuta bastante mew programa?[19:23:26] Hick_Duarte: Escutei todo.[19:23:27] Hick_Duarte: Curti pra caralho.
Em maio de 2007 ele era a segunda pessoa mais falante do canal de operações, e anunciava o próprio programa ali mesmo:
"HOJE a 01 da madrugaaa... AnimALL!"
e o Hick respondendo: "Um abração, cara... bom programa!"
Ele também cobria turno dos outros. Uma DJ agradece, uma semana depois:
"bom programa, valeu por me substituir /o/"
E há uma linha, de 3 de maio de 2007, que só ganha sentido muitos anos depois. O Duu cumprimentando outro apresentador no canal:
"[Dj-BuddyE]: e ai malucooo!"
O BuddyE era o DJ que estava no ar no dia em que um garoto, baixando ROMs de Game Boy num site parceiro, ouviu pela primeira vez uma música que não conhecia e ficou escutando para entender o que era. Esse garoto virou ouvinte por causa dele. Um ano depois, os dois estavam no mesmo canal, brincando um com o outro como colegas de equipe.
O AnimALL saiu do ar antes de a grade migrar para o domínio próprio. Sobreviveu numa única captura de junho de 2007 — duas linhas, um nome de programa e um apelido.
Guarde esse apelido. Ele volta nesta história seis anos depois, e não como DJ.
16 de julho — a rádio ganha domínio próprio: radioblast.com.br. Depois de um ano morando dentro do endereço do portal, ela passa a ter casa com o próprio nome.
O endereço mudaria de novo só nove anos depois. E o
radioblast.com.brnunca seria desligado — vinte anos depois ele ainda responde.
2 de agosto — nasce o Blast!dores, e ele nasce cheio: catorze textos publicados no mesmo dia, por oito autores diferentes.
"Uma pequena 'pagininha' pros djs postarem um resumo do que rolou na programação no dia, ou coisas chatas ou legais que vc tenha que dizer aos ouvintes [...] Blast!dores vem de bastidores, ou seja, tudo o que rola por traz no funcionamento da Rádio."
É por causa desse blog que boa parte desta página existe.
A conversa que definiu o que a Blast! toca
Agosto de 2007 traz uma decisão editorial que só faz sentido olhando o que veio antes. Na mesma semana em que o Blast!dores abre, três apresentadores escrevem sobre a mesma dor.
O Hyn, no segundo post do blog:
"oi eu sou o Hyn, apresento o karalhoke, sim, minha foto está horrivel, sim eu pretendo mudá-la"
"Não é de hoje que eu entre outros DJs enfrentamos esse terrivel mal, a cabeça durice de muitos ouvintes [...] essa é uma das barreiras que muitos dos inovadores enfrentamos, se de fato quisermos alcançar a meta de nosso slogan, precisamos também da colaboração de nossos ouvintes, eu não acredito que este post vá modificar alguma coisa, só queria notificá-los que o problema existe."
A DJ Rê, no mesmo dia:
"eu como 'DJ', tento sempre trazer o melhor do mundo j-rock/ j-pop para os ouvintes da radio blast!! Mas nem sempre o pessoal entende isso, é normal pessoas com programas parecidos com o meu serem 'insultados', 'apedrejados', e até mesmo deixados de lado pelos ouvintes!!!! GENTE !!! Entendam !! Nem tudo é Bleach e Naruto !!! Programas como o meu o do Dj VileDeGuille, Dj Sashiko e tanbem a mais nova dj CarolMana_Chan, entre outros djs que tem uma tematica diferenciada e nao tocam 100% de musicas de anime sempre sao apedrejados pelos ouvintes."
E um terceiro, no post "Guerra contra a mesmice":
"Apenas tem medo da mudança... da revolução... do novo... Só que se esquecem de um fato muito importante... O universo ao nosso redor está em constante mudança... E quem não acompanhar essa mudança será tragado e caído no esquecimento. Estou nessa batalha no momento."
O reposicionamento para 90% de cultura japonesa, anunciado naquele mês, é a resposta a essa conversa.
Não veio de estudo de mercado. Veio de três apresentadores dizendo, em público e na mesma semana, que o público só queria Naruto e Bleach — e a casa decidindo o que fazer com isso.
Agosto também traz a BlasTV!, transmissão de vídeo ao vivo. Num domingo de outubro, a Blast! foi a TV mais assistida do mundo no sistema Ustream.
24 de agosto — abre o primeiro processo seletivo formal. Áudio de trinta segundos, três dias de prazo, resultado anunciado ao vivo no Jornal da Rádio Blast!. Chegaram mais de 130 inscrições, de todo o país.
12 de outubro — o fórum tem 1.729 membros e 27.256 mensagens.
Testemunhos de um DJ
No segundo semestre de 2007 o Blast!dores abre uma série em que os apresentadores contam, em primeira pessoa, como chegaram ali. Em 20 de outubro publica o do PacKZz, que abre citando o texto do Hyn — a série era sequencial, um DJ puxando o outro — e que se despede deformando o slogan da casa com carinho:
"a RaDiU Bréstí! Uma Isprosaum di Contiúdo"
Em 3 de dezembro sai o da Letícia, e é o documento mais importante que sobreviveu daquele ano. Ela conta como foi recrutada.
"num suspiro em última instância, eu resolvi atender ao meu último apelo infantil e me cadastrei num fórum de animes, apenas para satisfazer o último anseio por notícias da terra do sol nascente. Eu estava tão atordoada com a minha missão de me tornar uma lady que acabei dando o meu cadastro no tal fórum (Kendan era o nome) por esquecido, então, é de se compreender a surpresa com que encarei a nobre visita de um distinto jovem chamado Henrique Duarte ou, simplesmente, Hick."
"Este rapaz que me adicionara no MSN numa manhã chata de quinta-feira me falava de um certo sonho que ele tinha desde a mais tenra idade. Seu sonho, dizia ele, era fazer com que as pessoas buscassem dentro de si mesmas aquela única centelha que as fazem vibrar verdadeiramente por algo bom, genuíno e forte. Aquele sentimento que é comum a todos nós e que nos une na mais perfeita devoção e carisma. Segundo ele, esta união só seria possível se todos estivéssemos conectados pelo maior prazer ofertado pelo Criador: a música."
"Eu não entendia nada. Não sabia nada de música, tampouco como ela poderia unir as massas em prol do bem-estar coletivo. Em resumo, eu o achei um completo maluco e, apesar de ainda achá-lo, havia algo em suas palavras que me fez sentir intensamente curiosa sobre esse tal projeto."
"'Uma rádio', ele começou. 'Eu comecei a ler seus textos no fórum e achei que você daria uma boa DJ'. 'Como é que é?', eu perguntei, na mais absoluta incredulidade."
"'Uma web rádio que toca músicas japonesas', ele continuou e em menos de 5 minutos me apresentou o esqueleto do que viria a ser o império da Rádio Blast!. Eu ainda estava sob efeito da notícia, mas acabei aceitando para a minha própria surpresa. Por sorte, eu não fazia a menor idéia dos problemas que isso me traria."
"Semanas após a conversa, discutimos sobre o meu programa, que viria a se chamar Leticidade. Eu tocaria músicas orientais, ocidentais e, na medida do possível, diria algo interessante. Meu piloto, bem me recordo, foi falando sobre o e-mail da rádio. 'Mande um e-mail para radioblast arroba dí-meiu (gmail) para mais informações!'."
"Infelizmente, como o meu computador decadente não agüentava o stream do programa, que na época era o Jetcast, minha posição de DJ da Blast ficou estacionada por mais ou menos um ano."
"A estréia foi, para mim, o cúmulo da crueldade, pois eu já havia esquecido como o público poderia ser maldoso com um DJ iniciante. [...] A pressão foi tamanha que acabei largando o posto, voltando às atividades de sempre."
"Meu primeiro evento, eu me lembro, foi o Carioca Anime. Deu tudo errado, mas foi excelente. [...] E hoje, aos 16 anos, vejo que amadureci muito mais me mantendo ligada a esse universo do que teria caso mantivesse-me afastada."
Ela tinha quinze anos quando foi convidada. O convite não veio pela voz — veio pelos textos que ela escrevia num fórum. E o que a rádio ofereceu, no primeiro minuto, não foi um programa: foi uma ideia.
2008Imprensa, e queda
14 de janeiro — sai o resultado do primeiro processo seletivo. De 130 inscritos, 53 passaram à segunda fase e quatro foram aprovados: Kazu (VK Station), Kaoi (J-Biroska), Hisashi (Stay J) e Fuyu (Konbanwa), de São Paulo, São José do Rio Preto, Avaré e Fortaleza.
1º de abril — nasce o Arquivo B!, com o primeiro upload feito pela DJ Sachi.
"Arquivo B!: o depósito de mídia da Rádio Blast!. É primeiro de abril, mas de mentira não tem nada."
7 de abril — estreia o J-Info, por Chaos Crescent e Kamus.
Maio: o Miyavi
Os shows do Miyavi no Brasil ocupam o site de abril a julho. A Blast! monta hotsite próprio, faz aquecimento com entrevista do gerente do JaME Brasil, recebe vídeo-mensagem exclusiva do artista e cobre os dois shows.
"agradecemos a todas as entidades envolvidas na realização do evento, em especial ao JaME Brasil e à Yamato, não só por terem trabalhado tanto [...] como também pelo apoio e pelo respeito com que trataram a Rádio Blast! enquanto imprensa e veículo de divulgação, e principalmente pela confiança a nós depositada como canal de comunicação."
É o momento em que a indústria passa a tratar a Blast! como imprensa.
20 de abril — 800 ouvintes simultâneos.
O maior sucesso da rádio até ali cobraria a conta em seis meses. Um mês depois dos shows, o fundador declarava no ar que os servidores estavam sobrecarregados — e não voltariam ao normal.
Junho — estreia o Blastionário!, programa de entrevistas apresentado pelo DJ Tiano, às sextas, 22h. Dez perguntas por edição, enviadas pelo público. Em menos de um ano já teria entrevistado 22 pessoas, incluindo o coordenador da Yamato Music, o gerente do JaME Brasil, o gerente do KoME Brasil e o editor da revista Neo Tokyo.
Julho a setembro — a Fanbook MYV, um livro feito por fãs brasileiros para o Miyavi, é acompanhada em nove textos até chegar ao Japão.
Setembro — a grade dos dois anos tem 56 programas e uma espinha dorsal jornalística de segunda a sexta, das 8h às 16h: J-Info Geek World (Chaos_Crescent) · J-Info Games World (Kamus) · J-Info Entrevista (Chaos e Kamus) · Japan B-Side (Sky_Jones) · B!reak Time (Alucard) · Jornal da Rádio Blast! (Hick, às 13h) · Sociedade Anônima (Silvinha) · Estação Blast! (Guideki) · Divã das 4 (Kaoi).
À noite a grade abria para o autoral: Ready2Rock (PacKZz, Jiraiya-sama e Anninha em dias diferentes) · J-Neration (Sachi e suu) · Breguetz (Lood e TchulioJoe) · J-Metal is the Law e A regra é Kalkha! (Kalkha) · BLASFEME! (Lily) · Cafofo do Osama (Osama) · Questão B! e Conexão B! (Fuyu) · Blast'n'Plush! (Lynn) · 7ªrte (Anninha e NeoConcepts) · Show da Virada (JohnVeeJones) · Rock Shock Waves (iori) · Time MacHyn e Show Time (Hyn) · J-Biroska (Kaoi) · Pzycho GAY-sha (NeoConcepts) · JaME Soundsystem (Rodrigo Esper) · Blastionário! (Tiano) · Hot Stuff (Quel) · T! (Tiano) e T! Fêmea (Sky_Jones) · Animorning Café (Densetsu) · B! Fatorial (Anninha) · Ligue e se ligue (Bronx) · Programa Livre (Futrigo) · Plug In Baby (Thi) · Indiestation (Thexder) · Vírus B! (Anniel_Douglas) · Let's Anidance! (Koneko-chan) · STEP by STEP! (TchulioJoe) · Universo Pokémon (Syaoran-kun) · Happy Hour (Jiraiya-sama) · B!EM FEITO (Sachi) · Dirty Pop (Osama) · Top Blast! (Hick) · Danação (Dana) · Gamecast (Beranko).
Três programas rodavam com apresentadores diferentes em dias diferentes. A marca do programa já era maior que a pessoa no microfone.
17 de agosto — dois anos. E um presente que a equipe não esperava:
"Vocês sabiam que alguns ouvintes veteranos da nossa programação organizaram-se para criar o fã-clube oficial da Rádio Blast!? De verdade, muito foda. Nós ficamos lisonjeados quando eles anunciaram isso pra gente, no dia em que a rádio completou 2 anos. Foi como um presente-surpresa de aniversário."
A ideia foi da Shinobu_Tarmann, com DanteDMC, Katsumoto, Mih e Minami_Maho ajudando a fundar.
Novembro: o mês que não existe
Outubro fechou com 52 publicações. Novembro teve zero. Dezembro, doze.
É o único mês completamente vazio entre 2007 e 2013 — e o chat da rádio registra o mesmo silêncio, sem nenhuma mensagem em novembro e dezembro. Os textos publicados nos meses seguintes deixam claro o que aconteceu:
"No final do ano passado, quando o site da Rádio Blast! estava em versão provisória por causa dos ataques, nós colocamos um aviso."
"Como fizeram o favor de atacar o servidor da rádio, comecei a ouvir programas que tinha baixado do Arquivo B!."
O ataque não derrubou só o site. Parte do Arquivo B! se perdeu naquele momento.
Aqueles programas nunca foram recuperados. É a primeira vez que a Blast! perde pedaço da própria memória — e não seria a última.
2009O auge
14 de janeiro — a versão 2009 do site entra no ar.
"nossa equipe concluiu que o site, que sempre foi espaço de informações importantes para o amadurecimento da cena no Brasil, precisava ser reestruturado."
A reconstrução transforma o site numa plataforma de colunistas. A casa passa a ter setenta e cinco blogs assinados, cada um com seu autor e sua identidade.
Janeiro também traz os mascotes. O fã-clube, fundado cinco meses antes pelos próprios ouvintes, cria cinco personagens, um para cada letra de BLAST:
Baku · Lyna · Arashi · Saya · Tsubasa
Desenhados pela Midori Yajima e pela Shinobu Tarmann, com ficha completa — data de nascimento, altura, temperamento. Mais as bombinhas Yin e Yan. E o Tititi, o cão de pelúcia do DJ Tiano, que virou co-apresentador do Blastionário! e acompanhou a equipe nas visitas presenciais às gravadoras.
Março — as entrevistas do Blastionário! passam a ser publicadas em texto.
Foi essa decisão que salvou as conversas com os fundadores. O áudio se perderia todo; o texto ficou.
O número que explica tudo
Em abril, respondendo à pergunta "se você pudesse fazer algo pela rádio, o que faria?", o fundador dá a resposta mais crua da história da casa:
O AMF que ele cita era o programador do site, responsável pela infraestrutura e revisor da redação — a única outra pessoa de quem há registro de ter pago custos da rádio do próprio bolso.
"eu faço sacrifícios mensais pela rádio. Não sou um cara rico. Preciso pagar um monte de despesas da faculdade, comer, andar de ônibus, ler o jornal e cobrir os custos com a rádio. Tudo isso com mágicos R$ 465,00 (um salário mínimo). A minha sorte é poder contar sempre com a ajuda da minha mãe e com a colaboração e paciência do AMF [...] Temos uma despesa de cerca de R$ 300,00 mensais com a rádio. Não é fácil mantê-la financeiramente."
Sessenta e cinco por cento da renda de uma pessoa, no auge da rádio, com mil ouvintes simultâneos virando rotina.
Essa frase levaria quinze anos para ser respondida. E a resposta viria de um lugar que ninguém imaginava.
Na mesma entrevista, ele conta que tinha um blog pessoal com uma seção chamada "sonhos", e nela uma imagem editada do site da rádio com mil ouvintes no contador.
"A sensação de ver, alguns meses atrás, aquela screen se tornando verdade foi indescritível."
28 de abril — estreia a Música Comentada, coluna que se propunha a explicar a música japonesa em vez de só tocá-la. O texto de lançamento define a ambição da casa naquele momento:
"A Internet está cheia de sites especializados em segmentos musicais diversos e a Rádio Blast! está lutando para se destacar nesse meio. Acontece que a nossa proposta é um pouco mais ousada, já que não nos propomos a abordar um ou dois segmentos musicais, mas sim a cultura musical de um país. A responsabilidade é grande."
Ela viraria o segundo maior blog do site, com 151 textos até 2012.
9 de maio: a mãe no ar
Três semanas antes, ao explicar como conseguia pagar as contas da rádio, o fundador tinha dito que sua sorte era "poder contar sempre com a ajuda da minha mãe".
No Dia das Mães daquele ano, o Blastionário! colocou essa pessoa no ar. A convidada foi Vânia Duarte, mãe do Hick e da Silvinha e tia do Guideki, respondendo por webcam a perguntas enviadas pelos ouvintes sobre a infância dos filhos.
Uma rádio feita por adolescentes num quarto em Uberlândia, sustentada com um salário mínimo e com o que a mãe podia ajudar, dedicou um programa a entrevistar essa mãe — e deixou o público fazer as perguntas.
Julho — na programação da Blast! no Anime Friends, o lançamento da versão 4.5 do site, "com muita ênfase nos nossos blogs".
24 de julho — pelos três anos da rádio, o Blastionário! recebe Hick e Guideki juntos, num programa de quase duas horas. O áudio não sobreviveu.
17 de agosto — festa de três anos, com oito estreias na grade: B! Tips (Lenalee), QG dos Vingadores (Mecano e Carcaju — o primeiro programa em dupla), Blast!Live (ICKX), J-Neration (Taro), K-pop Koffee (Eriol — o primeiro programa de K-pop com nome próprio), mais os programas de anne-chan, Ghonchu e Yan_Bahamut.
Em setembro a grade tem 59 programas, e pela primeira vez a página traz uma coluna de temática: J-Music, J-Rock, K-Music, Visual Kei, Animesongs, Metal, Oldies, Nacional, Soundtracks. Entram na grade daquele ano Risa, dk3, Gio, Chuck, Makika, Ayuki, Brê, L'Z, Klef, Herb, Suu, Anne-chan, Lily e NeoConcepts, ao lado dos veteranos.
Nada a ver com a lista de 2006 — "games, rock, metal, humor". Em três anos a casa tinha virado uma emissora especializada por gênero.
1º de outubro — o Hick publica seu último texto. É uma promoção de ingressos.
Não há despedida, nem aviso, nem balanço. Em 642 textos publicados, ele tinha escrito 13% de todo o acervo da 1ª geração.
Ninguém escreveu sobre a saída dele. E aconteceria de novo, exatamente igual, dois anos e meio depois.
6 de novembro — a página de doações publica a planilha de custos, item por item: domínio 35€ ao ano, hospedagem US$ 34,95 por mês, estatísticas US$ 9,95, distribuição de conteúdo US$ 20, servidor de streaming R$ 80. E uma salvaguarda que diz muito sobre a cultura da casa:
"Este tipo de doação será imediatamente revertido em pagamento das nossas contas [...] **não há chance nenhuma de darmos a louca e desviarmos esse dinheiro para contas na Suíça!**"
21 de novembro — o Blastionário! encerra.
2010A Blast! decide deixar de ser rádio de anime
O ano tem quatro ciclos de recrutamento em doze meses — o mais intenso da história. Em abril, oito novos DJs assumem de uma vez a faixa das 11h às 15h, de segunda a sábado: Dukelouis, FX, Gennie, GuHh & LinkZ, Heep, Ray, Sekai e Yohan.
E em outubro entra a última leva de locutores da 1ª geração — onze pessoas: Lestaat, Klaus, Toshi, Kazuya, Hagen, Zuera e Lujon, Nana7q, Mary, Frosteu e Kokai.
6 de maio — o rebranding. Logo nova, e um reposicionamento declarado.
"decidimos que já é hora de adotarmos um novo posicionamento [...] Por isso decidimos aposentar nossa logomarca antiga, e adotar um novo conceito!"
"A logo [...] nos ajuda a transmitir melhor nossos valores e nosso posicionamento na internet, que é a simplicidade, o entretenimento, e o dinamismo [...] Preservamos as cores, verde e laranja, agora o 'B' de Blast! simula uma nota musical."
"A Rádio Blast! agora não é só mais uma rádio de anime, ou rádio de música japonesa, mas é uma rádio para todos. Talvez seja um bom desafio, afinal não é fácil agradar todo mundo [...] mas estamos embarcando nessa onda e tentando fazer a rádio mais democrática possível."
É a primeira das duas grandes viradas de posicionamento da casa. A segunda viria seis anos depois, e seria maior: deixar de ser rádio.
28 de maio — a casa publica instruções para ouvir a Blast! no iPhone e no iPad. A demanda por escuta móvel é de 2010.
Dezembro — o último recrutamento de redação da 1ª geração. Quatro pessoas entram: Caian, Inga Edulis, Vini Damazio e Yuri. E o post anuncia o fim de uma prática:
"A exemplo do recrutamento de DJs, este foi **o último Recrutamento de Redatores ever da Rádio Blast!**. Isso porque, a partir de agora, o email [email protected] [...] também passará a aceitar [redatores]."
Duas dessas quatro pessoas escreveriam, juntas, um terço de tudo que a Blast! publicaria no ano seguinte. E as duas sumiriam catorze meses depois.
Dezembro — a grade chega a 66 programas, o maior número de toda a história da Blast!.
28 de dezembro — a retrospectiva do ano:
"agradecemos todos os 2 MILHÕES E MEIO de acesso que tivemos [...] São mais de 9,6 MILHÕES de minutos com todo mundo! Sem dúvida estes foram os melhores 365 dias pra todos nós!"
2011O ano mais produtivo, e o mais silencioso
1.057 textos publicados. É o recorde absoluto da 1ª geração, e nunca foi superado.
Um terço disso saiu das mãos de duas pessoas que tinham entrado sete meses antes: Vini Damazio, com 212 textos, e Inga Edulis, com 140. Atrás deles vinham Hana, Mystician, Tiano, iori e o Guideki.
Julho de 2011 é o mês mais produtivo de toda a história da casa: 118 textos.
29 de novembro — 1.243 ouvintes simultâneos, o recorde histórico. Setenta blogs e colunas no ar ao mesmo tempo.
11 de março — depois do terremoto e do tsunami no Japão, a Blast! publica "Pray for Japan, share LOVE!", com canais de doação, e acompanha por semanas a resposta da indústria de games e dos artistas japoneses. É o momento em que a razão de existir da casa fica mais nítida.
30 de novembro — o texto mais comentado do ano não é sobre música. É uma crítica à desorganização da produção do show do DIR EN GREY, seguida no dia seguinte pela resenha do show. Apuração e opinião separadas, como o manual de recrutamento pedia.
O outro lado do mesmo ano
Enquanto a redação batia recorde, alguma coisa do outro lado ia embora.
O chat da rádio, que em maio de 2010 tinha 414 mensagens no mês, cai para 138 em maio de 2011 e chega a 82 em setembro. Em novembro, uma promoção de ingressos passa a exigir uma coisa nova para participar: curtir a página da Blast! no Facebook.
Nos links citados pelos próprios textos do acervo, o Twitter já aparece mais vezes que o Orkut.
O público não sumiu. Mudou de endereço. E a casa levaria cinco anos para construir um endereço próprio capaz de trazê-lo de volta.
Agosto de 2011 — a Rádio Blast! completa cinco anos, e não há um único texto sobre isso. Nenhum post de aniversário, nenhum concurso, nenhuma retrospectiva no fim do ano. Em 2010, com quatro anos, houve os três.
O Blast!dores publicou 118 textos naquele ano — mais que em 2010 —, mas apenas cinco tratavam da própria casa. O blog dos bastidores tinha virado uma coluna de conteúdo.
E há uma frase, escrita de passagem numa resenha de disco em outubro, que resume o ano melhor que qualquer balanço:
"fogem de qualquer coisa que possa ser associada à palavra 'modernidade' da mesma forma que nossos visitantes e ouvintes fogem da página de doações"
Em julho, duas rifas no Anime Friends — o maior evento de cultura japonesa do Brasil — arrecadaram R$ 58,00 para servidores que custavam R$ 300 por mês.
Não cobria nem um quinto de um mês de servidor: faltavam duzentos e quarenta e dois reais para fechar a conta de julho. A rádio estava no melhor momento da sua história e não conseguia se pagar.
2012A queda
De 1.057 textos em 2011 para 241 em 2012.
A inflexão começa em dezembro de 2011, com 52 publicações — o pior mês desde o apagão de 2008. Janeiro de 2012 fecha com 22. E o colapso operacional vem em abril, quando a produção cai de 33 para 13 textos e nunca mais passa de 21.
As saídas
20 de janeiro — a Inga Edulis publica seu último texto, depois de 140 em treze meses. O motivo não é briga:
"Estou em pleno final de período da faculdade [...] a faculdade me consumiu totalmente esse semestre, e a tendência é piorar. [...] não tem lógica me manter redatora se não estou redigindo."
Ela tinha dezessete anos quando entrou.
8 de fevereiro — o Vini Damazio publica pela última vez. Em 2011 ele havia escrito 212 textos, 21% de tudo que a casa publicou. Não há post de despedida.
22 de março — o Guideki publica seu último texto. É uma nota sobre um cantor vindo ao Brasil.
O co-fundador da Rádio Blast! saiu exatamente como o outro tinha saído dois anos e meio antes: sem uma linha.
O ano que o Tiano segurou
Com a redação esvaziada, uma pessoa sustenta 2012 quase sozinha. O Tiano publica 59 textos, quase todos do Top Top — uma coluna semanal de listas nerd que manteve entre vinte e trinta e nove comentários por post, mês após mês, o ano inteiro.
Ruivos! · Roteiros Cagados! · Personagens com tapa-olho! · Braços-Direitos · Robôs! · Animes mais relevantes! · Músicos!
Enquanto o resto do site esvaziava, uma coluna de listas mantinha o público voltando toda semana. Isso importa: quando alguém voltasse para reconstruir a casa, ainda haveria gente do outro lado.
A grade não encolheu. Foi sendo substituída.
A grade de 1º de janeiro de 2012 lista 43 programas. Mas há uma linha nela que não existia em nenhum ano anterior: "Playlist / Aleatório" — e ela ocupa mais de quarenta faixas horárias espalhadas pelos sete dias da semana.
Não é madrugada automatizada. É playlist no meio da tarde, no fim da tarde, no horário nobre.
A rádio continuava no ar 24 horas por dia. Só que boa parte do dia já não tinha ninguém no microfone. Isso, sozinho, explica a queda editorial daquele mês.
Em agosto de 2012 a grade tem 37 programas, e aparece uma linha nova, ainda mais franca: "(playlist ou manutenção)". A própria página admite, por escrito, que aquele horário pode simplesmente não estar funcionando.
Sobrevivem os veteranos: T! (Tiano) · JOE'S MUSIC (TchulioJoe) · Brasil in Metal e J-Metal Is the Law (Herb) · DoraPop (Ana) · SEELE — OPEN THE DOOR (Kazuya-kan) · J-Neration (Sachi) · Banzai Blast! (Mary) · Dramalhão Blast! (Sky_Jones) · Double Impact (GuHh e Kiyo) · Fliper Blast! (Frosteu) · BlastFocadoS! e Blast!Sweet Home! (Lestaat) · Noise Brain e Tequila Party! (Tioroshi) · J-Info (Kamus e Chaos).
É a estrutura mínima de uma rádio segurando as pontas.
O que ainda se tentou
13 de janeiro — a única tentativa documentada de comercializar a Blast!: venda de spots e banners para parceiros. Dois comentários.
22 de julho — o último recrutamento da 1ª geração:
"Venho informar a vocês que, em breve, receberemos novos companheiros DJs que foram recrutados no evento Anime Festival BH, realizado em maio. Por conta de algums probleminhas, só conseguimos resolver esse recrutamento agora. Ainda não vou postar nomes pois ainda pode haver alterações."
Os nomes nunca foram postados. Não há post seguinte.
No segundo semestre, a rádio sai do ar.
Não há registro da data. Há o registro do motivo — e ele apareceria meses depois, quando ela voltasse.
Em todo o ano, o blog de bastidores publicou dois textos sobre a própria casa. Não há despedida coletiva, não há balanço, não há explicação. A casa continuou publicando — e parou de escrever sobre si mesma.
2013A entrega das chaves
Março de 2013: quatro publicações no mês. É o fundo.
13 de janeiro — uma conta é criada no sistema. Fica sozinha por vinte e dois dias.
Fevereiro — o Ero, último remanescente ativo da 1ª geração, encontra alguém que voltou para ver como a rádio estava.
"em 2013 as coisas melhoraram e eu fui ver como estava a Blast, me deparei com uma situação bem difícil, o projeto parado, sem locutores ao vivo, sem redação ativa e somente o site sendo mantido no ar pelo Ero, troquei uma ideia com ele, me apresentei pois não o conhecia, nos demos muito bem e ele sentiu confiança em compartilhar comigo a administração do projeto. Ali iniciamos a nova fase da Blast."
Joke
Quem assumiu não era estranho à casa. Era o Duu, do AnimALL das terças-feiras de 2007 — o mesmo que tinha gravado três minutos de áudio, mandado por e-mail e recebido do Hick um "curti pra caralho" no mIRC.
Ele ficou alguns meses no ar e saiu ainda em 2007. Foi na saída que trocou de apelido: Duu virou Joke, e é como Joke que ele aparece em tudo o que veio depois.
O que veio depois foram outras rádios. Chegou a ter a chance de entrar na Rádio Project, que não se concretizou, e passou pela Hall Music, webrádio tocada pelo Fullmetal, ex-integrante da Blast!. Saiu de lá pela desorganização — e resolveu montar a própria: a JConnection.
A JConnection durou até 2012 e fechou pelo mesmo motivo que estava derrubando a Blast! naquele momento:
"foi muito maneira a experiência de gerenciar um projeto como um todo, aprendi muito ali, em 2012 fechei ela porque não tínhamos muita equipe."
Ele saiu da Blast! como Duu e voltou como Joke — com nome novo e com a experiência de ter tocado uma rádio inteira do zero. Voltou sabendo exatamente o que não funciona.
E foi como ouvinte que ele chegou, por um caminho que ninguém tinha documentado:
"sempre gostei de portáteis e sempre baixava roms de Game Boy Advanced em um site parceiro da Blast na época, o RomsParaGBA [...] Em um certo dia, ao entrar, começou a tocar uma música estranha, nunca havia escutado algo parecido, continuei ouvindo para ver se entendia o que era e então um dj entrou no ar e começou a falar. O DJ era muito louco, lembro até hoje do nick que usava, era o BuddyE."
4 de fevereiro — onze contas são criadas de uma vez. Metade são nomes da 1ª geração — Ayuki, Tioroshi, FengLan, Bela_Orihime —, metade são novos: Sephs, JackWinchester, Juh, Neku.
Os remanescentes durariam entre um dia e quatro meses. Os novos, entre sete meses e nove anos — o JackWinchester publicaria até 2022.
Ao longo do ano entrariam também Kiyo, Kazuya Shiroid, Kaeda, Kyuu e o Tiano, que ainda aparece nas conversas internas de março antes de sair de vez.
Como era reconstruir
Em abril, para garantir que a rádio fosse ouvida, o Joke improvisa com o que tem — um endereço no próprio domínio pessoal, avisado à equipe assim:
"tem um link que criei que tu pode usar pra ouvir no Media Player —
http://blast.jokewd.com"
A equipe de locução daquele mês tem dezoito pessoas, todas marcadas num aviso sobre configuração do SAM Broadcaster. E a conta era paga por vaquinha:
"Quem for depositando escreve aqui o valor, por favor. Para que saibamos quando fechar o valor de 210,00."
A 1ª geração custava R$ 300 por mês, pagos por uma pessoa. Naquele começo de 2013 a conta era menor e era de todo mundo, feita à vista de todos. Não duraria muito tempo assim.
A Monny
Pouco depois de a administração mudar de mãos, apareceu alguém oferecendo ajuda — sem ter sido chamada, sem cargo, sem combinação prévia. Era a Monny.
Ela assumiu o que ninguém estava cobrindo: treinamento de locutor novo, condução do recrutamento e a administração do dia a dia. Foi ela quem deu as aulas ao Nobu antes da estreia dele, em janeiro de 2014.
Em setembro de 2013, discutindo o futuro da rádio no canal interno, ela deixa clara a divisão que existia e o quanto ela era frágil:
"Se o Edu sair eu saio também, pois não manjo nada de programação. Comigo é só treinamento, recrutamento e administração geral mesmo."
Em 2013 a Blast! era duas pessoas. Uma cuidava de código, servidor e programação; a outra cuidava de gente. E as duas sabiam que, se uma saísse, não sobrava projeto.
Vinte e quatro ouvintes
Em fevereiro de 2013, a Blast! tinha vinte e quatro ouvintes simultâneos — e caía para nove quando um programa terminava.
Em 2009, mil ouvintes ao mesmo tempo eram rotina.
24 de março: a primeira reunião
Sete pessoas apareceram. A pauta tinha três tópicos — Recrutamento, Site e Programação — e o Joke abriu explicando as regras:
"a reunião de hoje não será muito grande. É para passar pra vocês o foco atual da radio e para que todos dêem suas opiniões [...] Não terá muita frescura então vamos começar."
O primeiro assunto era o mais duro. Ele tinha tentado chamar de volta todo mundo que conseguiu localizar da equipe antiga:
"eu entrei em contato com todos que consegui da equipe antiga da radio e etc, mas poucos realmente se interessaram e estão locutando atualmente. Foi quando iniciei o recrutamento pelo site, recrutando a Nanao, dooms, Johnni e Shoyu."
"se vocês analisarem os que aqui estão online, dos djs antigos, creio que só o satou."
E, ao falar do site, ele precisa parar no meio da frase para explicar quem era o autor do layout que estavam tentando implementar:
"Ano passado eu acho o nosso designer e astro rei Guideki fez um novo layout, lindo de morrer porém estava paradão. Guideki para os que não sabem é um dos fundadores da radio."
Em março de 2013, numa reunião da equipe da Rádio Blast!, foi preciso explicar quem era o Guideki.
Quem estava montando esse layout novo era o Ero. Ele já não administrava a rádio, mas seguia ali, trabalhando no site — e a casa dependia dele para isso.
A reunião termina com uma meta e uma data:
"é até Agosto estarmos com esse site novo PRONTO, para que no Anime Friends desse ano, chegarmos la com tudo e lançarmos esse site novo ao vivo."
O site não ficou pronto em agosto. Levaria mais um ano, e não seria lançado no Anime Friends.
O que se perdeu na migração
O site antigo rodava em Drupal, e vinha caindo cada vez mais. Nem quem assumiu a administração conseguia mexer nele:
"o site atual foi desenvolvido em Drupal. Não conheço muito o Drupal, então fica complexo pra mim editar essa parte."
Com o Ero cada vez mais ausente e o site instável, a saída foi construir do zero — outra infraestrutura, outra linguagem, outro banco.
11 e 15 de junho — o site antigo é abandonado.
"como comunicado na home, não iremos mais utilizar o site que estava, muitos problemas devido a ele estar super bugado [...] iremos ficar por alguns meses com a estrutura que estou montando até o novo site começar a sair"
O provisório ia durar dois ou três meses. Durou nove.
E foi nessa passagem que a Blast! perdeu a maior parte do próprio acervo.
A migração do banco de dados do Drupal para a estrutura nova não deu certo. O que se conseguiu salvar foi um backup do banco — o texto. O repositório de arquivos, com as imagens e os áudios de sete anos, estava num servidor no exterior e era grande demais para ser baixado com o armazenamento que havia.
E a conta desse servidor não estava no nome de quem assumiu. Quando o cartão cadastrado nela foi cancelado, ninguém percebeu a tempo: a rádio já tinha migrado, o site já rodava em outro servidor no Brasil, e ninguém estava olhando para trás. Quando alguém foi ver, a hospedagem antiga já tinha expirado e removido a conta.
É por isso que sobrou o texto e sumiu o resto. Todas as fotos de cobertura, todas as artes de programa, todos os áudios do Arquivo B! anteriores a 2013 estavam naquele servidor. Ninguém apagou nada. A conta simplesmente venceu.
15 de outubro — a rádio sai da hospedagem compartilhada e vai para VPS própria. A transmissão passa a 128 kbps, o dobro da qualidade anterior, e ganha a capacidade de programar vinhetas e áudios em horários fixos.
Essa última linha parece detalhe técnico. É a semente da grade que, treze anos depois, tocaria sozinha oitenta e dois por cento do tempo.
Com a migração vem também a transferência dos domínios e o controle de toda a infraestrutura. E junto com o controle vem a conta: hospedagem, streaming e tudo o mais passam a ser pagos por uma pessoa só.
A vaquinha tinha durado alguns meses. Dali em diante, e pelos treze anos seguintes, a Blast! voltaria a ser sustentada exatamente como a 1ª geração era — por um bolso só. A diferença entre as duas não estava no dinheiro. Estava em tudo o mais.
Maio — 21 publicações no mês. É o melhor resultado desde fevereiro de 2012, e o primeiro sinal de que a reconstrução tinha pegado.
Em março de 2013, a grade tinha chegado a 21 programas — um terço da de dezembro de 2010.
56 → 59 → 66 → 43 → 37 → 21
É a grade da Blast! de 2008 a 2013, em seis fotografias. O pico é dezembro de 2010. De lá até março de 2013, a casa perdeu dois terços da programação.
A grade de julho de 2013, já sob a nova administração, tem 23 programas — e um deles chama Baú da Blast.
A casa nova não apagou o passado. Abriu uma faixa de grade para ele.
2014O site verde
9 de fevereiro — o beta público entra no ar, depois de uma sequência de madrugadas.
"nossa data oficial de lançamento do novo site é 01/Março, porém não podemos deixar pra colocar o site no ar e testar nesse dia, então nessa última semana fiz um intensivo programando quase 8h por madrugada [...] Gostaria que todos vocês acessassem e testassem o site procurando por bugs, etc.
radioblast.com.br/novablast"
1º de março de 2014 — o novablast entra no ar. É o primeiro site próprio da 2ª geração, e o verde dele não foi escolha estética. Quando o layout foi apresentado à equipe, meses antes, alguém escreveu:
"não acho muito viável colocar vermelho pq a rádio se caracterizou com o verde e não podemos mudar tudo de uma vez"
1º de abril — um mês depois de lançar, o servidor apaga o site inteiro.
"depois que os acessos e ouvintes começaram a aumentar, o servidor começou a se comportar de uma forma estranha [...] ontem ele nos pegou de surpresa deletando todo o nosso site, passamos a madrugada recuperando ele com os backups que tínhamos."
Em 2008, sucesso gerou sobrecarga e o acervo se perdeu para sempre. Em 2014, sucesso gerou sobrecarga e os backups funcionaram. A diferença entre as duas gerações cabe nessa frase.
O BlastCast
2014 é o auge do podcast no Brasil — todo mundo começando o seu. A Blast! tenta o dela, e a ideia vem de dois DJs: Tioroshi e FengLan.
27 de junho — vai ao ar o BlastCast #1, e o tema escolhido é a própria história da rádio. Dois nomes que vinham da 1ª geração contando o passado para a casa nova.
Não teve segundo episódio. Juntar duas pessoas para gravar, editar e publicar com regularidade se mostrou mais difícil do que parecia, e o projeto parou no primeiro. O áudio estava no SoundCloud e não está mais lá.
A Blast! tinha um programa de entrevistas em 2008 e um podcast em 2014, e nos dois casos o áudio se perdeu. O que sobrevive, sempre, é o que alguém se deu ao trabalho de escrever.
E começa uma série de entrevistas com a própria equipe, que atravessaria dois anos — Ero, Momonari, Sephs, Tioroshi, Joke, Onizuka, Lujon, Kamus, Nobunaga e Ashllan. A primeira parte é assinada pela Dai; a segunda, pelo Faylors Master.
O ano é carregado pelo Sephs, que publicaria 255 textos entre 2014 e 2016 — mais que qualquer outra pessoa da 2ª geração naquele período — e que também cuidava dos servidores.
É o mesmo gesto do Blastionário! de 2008 e da Quinzena do DJ de 2009, com outro nome: dar o microfone para quem está atrás dele. A casa faria isso mais uma vez, doze anos depois — e aí seria o público a falar.
2015O ano difícil
1º de junho — um comunicado longo para a equipe reconhece três coisas ao mesmo tempo.
Sobre a audiência:
"nossa audiência caiu drasticamente nos últimos meses [...] nenhum trabalho é reconhecido se não existir visibilidade [...] um dos se não o principal parceiro está entrando em inatividade."
Sobre o site novo, prometido para aquele ano:
"o novo site demorará mais alguns meses pra sair [...] Peço para que não fiquem desanimados com isso, nosso site atual é muito bem programado, bonito e ainda é moderno [...] não é ele que está causando nossos problemas."
E sobre quem escrevia: fase de TCC, faculdade terminando, e a promessa de voltar. A estrutura citada no comunicado tem Dai na redação, Sephs no suporte, e Nobu, Faylors Master, Luidi e Br4nC0 na coordenação de locutores.
O Nobu tinha entrado como locutor em fevereiro de 2014 e ainda não havia publicado um texto sequer. Em junho de 2015 já coordenava a locução da casa.
Naquele ano entram Layla Boy — que escreveria os textos mais longos da 2ª geração —, Lujon, Onizuka, Ashllan, Jocker, ChrnoTodd, Haru e Hotz.
No mesmo comunicado aparece a primeira receita externa registrada da 2ª geração: R$ 130 de um patrocinador, parados numa conta pessoal, oferecidos para custear cobertura de evento.
O site prometido para o fim daquele ano sairia dezessete meses depois — e mudaria o nome da casa.
2016O ano em que a rádio virou rede
545 publicações — o pico editorial da 2ª geração, e o melhor ano desde 2011.
É também o ano em que entra a maior leva de gente da 2ª geração. Em fevereiro chega o Akiba'Spot, que publicaria 126 textos em dez meses. Em março, o Snow. Em maio, o Las Noches. E ainda Aylena, Ayumi, Kirito, Kasai-chan, Bwiyomi, Hina, Kay e Menegroth Susej.
É também o ano em que o Nobu, que estava na casa desde 2014 e já coordenava a locução, publica seu primeiro texto.
Duas dessas pessoas ainda estariam publicando em 2026, dez anos depois.
1º de abril — começa o desenvolvimento do site que mudaria o nome da casa. E, junto com ele, uma ideia que o Joke descreve nos mínimos detalhes:
"Finalmente comecei a trabalhar no novo site galera, estou na fase de modelagem do banco de dados [...] Pensando em como fazer o novo chat, me veio essa ideia na cabeça: quando a pessoa clicar no menu CHAT, ele surgirá da direita e a página se adaptará à tela para que ela consiga usar o chat e navegar pelo site ao mesmo tempo, ouvindo a rádio sem parar."
9 de abril — a primeira versão entra em teste, e ele pede que a equipe force a barra:
"o chat está no caminho para o final da primeira versão. Preciso que vocês usem ele como o whatsapp, usem ele pra bater papo furado, fiquem online lá [...] preciso que vocês lotem o chat pra analisar"
Não funcionou. O chat próprio não ficou de pé, e a comunidade acabou indo para outro lugar — que chegaria quatro meses depois.
A ideia ficou guardada. Levaria dez anos para sair do papel exatamente como estava escrita ali, em abril de 2016.
31 de maio — o texto que explica por que o site de 2016 foi desenhado como portal, e não como página de rádio:
"Atualmente temos uma parceria gigante, o site AnimesOrion, eles fornecem 90% da nossa audiência (ouvintes) e se amanhã eles cancelarem a parceria e removerem o player, perderemos esses 90% [...] acho que temos que criar um ambiente onde a pessoa consiga navegar e se divertir pelo site por bastante tempo."
Nove em cada dez ouvintes chegavam por um player embutido em site de terceiro. A casa vivia de tráfego emprestado, sabia disso, e passou o ano tentando sair dessa dependência.
Agosto — nasce o servidor da Blast! no Discord, com 920 mensagens já no primeiro mês. A comunidade migra em bloco do mIRC.
"A ideia é transformar o nosso Discord na mesma vibe que tínhamos na época do mIRC"
Outubro — o site passa a registrar recados, pedidos de música e comentários.
São essas três séries que permitiriam, dez anos depois, medir tudo o que aconteceu com a audiência da casa.
5 de novembro — o anúncio da mudança de nome:
"Desde que assumi a rádio em Jan/2013, notei que o ramo webrádio está defasado, já não conseguimos mais alcançar o mesmo público [...] teríamos que ampliar nossos horizontes e abranger de alguma forma uma área maior, deixar de passar a ideia de apenas uma rádio."
"Mudar a ideia? Mudar o nome? Mudar o foco? Demorei pensando, pesquisando... me veio o nome na cabeça, que acho eu, teria sido o mais óbvio para muitos de vocês, 'rede'."
"o slogan para toda a rede continuará sendo 'Explosão de conteúdo', porém nossa marca se chamará Blast apenas. [...] você poderá responder, sou membro da Blast e não mais da Rádio Blast."
E uma decisão de continuidade, dita com todas as letras:
"o domínio radioblast.com.br, manteremos isso como backup até porque são 10 anos usando esse nome."
7 de novembro de 2016 — o redeblast.com entra no ar.
"Galera, novo site está no ar, porém ainda não ativei o redirecionamento no nosso domínio radioblast.com.br."
Nove anos e quatro meses depois de a rádio ganhar endereço próprio, ela troca de nome pela última vez. O
radioblast.com.brfica no ar como estava — e leva junto todo o acervo de 2006 a 2013, com as URLs antigas respondendo no domínio novo.
2017A redação encolhe, a audiência explode
91 publicações — uma queda de 83% em relação a 2016.
E o mesmo ano registra o recorde histórico de audiência da 2ª geração: 3.965 recados e 1.756 pedidos de música. Os dois maiores números de toda a série de dez anos.
Os dois fatos são o mesmo fato, visto de lados opostos. A 1ª geração era um site que tinha uma rádio. A 2ª é uma rádio que tem um site. Quando os textos pararam, na primeira, não sobrou nada. Na segunda, a transmissão nunca parou — e o público nunca precisou do blog para continuar ouvindo.
O vocabulário das mensagens daquele ano mostra do que o público estava falando: música, toca, programa, noite, blast, anime, rádio, abraço — e gatorro, o nome de um locutor, entre as quinze palavras mais escritas por milhares de pessoas.
Os nomes mais citados espontaneamente pelo público em 2017 foram Las Noches, Gatorro, Gaspar, Nobu, Ashllan, Kirito, Konekomaru, Meglias e Snow — e vários deles nunca escreveram um texto. Eram conhecidos pela voz.
14 de agosto — estreia Bubu e Pou Pou, áudio-série original da Blast!.
30 de setembro — a primeira edição do Prêmio Best of Blast!, votado pelo público, com categorias para os destaques da casa.
E o Papo Reto, série de entrevistas conduzida pelo Snow, pega o bastão da documentação interna — com o DJ FX, a DJ Nah e, depois, apresentadores de fora da casa.
2018A casa se organiza
23 de janeiro — a diretoria da Blast! muda de plataforma.
"Vamos começar a discutir as coisas da diretoria da Blast por aqui, já que todos utilizamos o Discord, é melhor do que usar o Facebook, estou começando a gostar da ideia de centralizarmos tudo que envolva a comunicação entre os membros da Blast aqui no Discord."
31 de janeiro — a revista da Blast! já está em produção, com gente da redação e da locução envolvida. E fecha-se a primeira parceria de troca de publicidade da 2ª geração, com um podcast.
27 de agosto — doze anos, comemorados com a segunda edição do Best of Blast.
Chegam à redação naquele ano Meglias, Kon, UrivasTec, Zequi e Bicky.
Dezembro — o Arquivo B! volta ao ar, dez anos e oito meses depois de ter sido criado. Cinco programas são publicados em oito meses: Festa da Blast!, Best of Blast!, Turbo Blast!, Crazy Arcade e Aishiteru!.
O nome que o Hick criou num primeiro de abril de 2008 sobreviveu à morte da 1ª geração, à perda do servidor e à troca de banco de dados.
22 de dezembro — pela primeira vez, quatro web rádios otaku do Brasil transmitem juntas ao mesmo tempo.
2019Sete cargos
17 de março — a Blast! cobre o massacre de Suzano. Dezenove minutos de transmissão sobre um assunto que não é cultura pop. É a primeira vez que a casa faz hard news.
1º de novembro — o recrutamento passa a ter sete funções distintas:
"Além de vagas para Locução e Redação, temos vagas para outros 5 cargos, são eles: Editor de Áudio, Editor de Imagem, Ilustrador Digital, Diagramador de Revista Digital, e Social Media."
E a carga exigida é metade da que a 1ª geração pedia. Onde 2010 exigia dois artigos por semana do redator e duas locuções semanais do DJ, 2019 pede um programa semanal de pelo menos uma hora e postagens minimamente semanais.
Não é frouxidão. É calibragem de um projeto que aprendeu, com a morte da primeira geração, que exigência alta demais sobre voluntário mata a operação.
15 de dezembro — o Otaku Festival 2019, com 8 horas e 6 minutos de transmissão gravada. É a maior peça do acervo de áudio.
O ano traz Sparker, Hero Avan, Glub Glub, Machado e Gabriel Caires para a redação.
31 de outubro e 1º de novembro — em dias consecutivos, Nobu e Ashllan publicam seus últimos textos.
Os dois que dividiam a administração com o Joke pararam de escrever com um dia de diferença. Levaria mais dois anos para a coordenação ser passada adiante.
2020A pandemia enche a casa
28.566 mensagens no Discord — o dobro de 2019.
A Blast! atravessa o ano com lives, e o público volta em massa a um lugar que já existia havia catorze anos.
A redação daquele ano tem Jota, Sathurno, Rafa Battousai, Geovanna Santana, zEppe, Hana, Amon e Matsumoto. E os nomes que o público mais cita mudam junto: Ayumi, Seven, Chris, Bruxa e Kayo aparecem pela primeira vez no topo.
Dezembro — a casa se departamentaliza. Até novembro havia um único canal interno, aberto em 2016. Em dezembro passam a existir três novos, separados por função: locução, redação e coordenação.
A reorganização veio no auge, não depois do esvaziamento. É a diferença entre arrumar a casa cheia e arrumar a casa vazia.
Naquele dezembro, um texto publicado na seção de Curiosidades resume o ano — e, sem querer, explica por que esta página existe:
"Já faz algum tempo que a Rádio Blast está no ar e muita coisa aconteceu desde então. Não sei ao certo quando ela começou, talvez próximo do ano de 2006, quem o sabe?"
O mesmo texto explica, melhor que qualquer análise, o que prendia as pessoas:
"era muito divertido simplesmente gastar horas ouvindo a programação, conversando no chat com a galera e enviando pedidos pros DJs na expectativa de que seriam lidos e atendidos, o que cá entre nós, sempre foi uma das minhas partes favoritas na rádio, pois criava uma conexão de quem ouvia com quem apresentava."
E o balanço, escrito em plena pandemia:
"muita coisa aconteceu [...] como a chegada de uma pandemia, a perda de pessoas queridas, a necessidade de se reinventar, e apesar de tudo, é legal saber que a Blast se mantém de pé e que possui pessoas que ainda acreditam nela, pois para uns e outros ela é um refúgio."
2021O ano mais cheio de todos
59.663 mensagens no Discord. É o ano de maior atividade de comunidade de toda a história da Blast! — as duas gerações incluídas.
Abril de 2021 teve 16.362 mensagens em um único mês — mais de quinhentas por dia, todos os dias.
Março — a Blast! lança seu aplicativo para Android na Google Play.
9 de março — alguém usa uma VPS para inflar artificialmente o contador de ouvintes. A resposta é um ajuste no contador e uma piada:
"eu ajustei nosso contador do site, agora só exibe ouvintes únicos. Mas foi engraçado. Tamo fazendo algum barulho."
Treze anos antes, um ataque semelhante tinha apagado um mês inteiro do acervo. Em 2021, virou uma linha de log.
A sucessão da coordenação
Depois que Nobu e Ashllan se afastam, o Joke convida para a coordenação alguém que tinha entrado como locutor em 2016 — e que tinha sido reprovado três vezes antes de conseguir entrar:
"eu tentei me inscrever pra Blast 3 vezes, na época era bem rigoroso a seleção e meu equipamento e internet não eram bons o suficiente [...] finalmente em 2016, onde eu já tinha uma internet decente e um microfone que eu considerava aceitável (que era de uma web cam da Logitech)."
Cinco anos depois de entrar com um microfone de webcam, o Las Noches assume a coordenação da locução, ao lado do Joke, que segue na administração do projeto.
Naquele ano entram também Eduardo Borges, Squalid e Ytallobdez21, e o público passa a citar Jerry e Luby com frequência.
A 1ª geração perdeu os dois fundadores em silêncio e nunca teve sucessão. Esta foi a primeira, e foi feita por convite — a quem o público mais reconhecia.
2022A travessia
30 publicações no ano — o pior resultado editorial da 2ª geração.
E 34.789 mensagens no Discord. Com o site praticamente parado, a comunidade seguia conversando todo dia.
Naquele ano, o Brucky sozinho concentra 89 menções espontâneas do público — mais que qualquer outra pessoa em qualquer outro ano. Ao lado dele aparecem TiuJuca, Kayzou e Mr.Alucard.
O Brucky é o Momonari, entrevistado pela casa lá em 2014. Mesmo nome de sempre, outro apelido — e, dali em diante, o responsável por levar a Blast! para a Bahia.
Enquanto a redação estava congelada, a locução segurava a conversa. É a mesma coisa que o Top Top fez em 2012, dez anos antes, com outro nome e outra pessoa.
24 de janeiro — entra na casa o projeto Somos Tokufans, que ocupa faixas próprias na grade mantendo identidade própria. É um modelo de entrada novo: não recrutamento, mas hospedagem de projeto.
A Blast! passa a funcionar como plataforma. Quem chega não vira redator nem locutor da casa — traz o próprio projeto e ocupa espaço com marca própria. O mesmo arranjo sustentaria, do outro lado do país, a operação da Bahia.
Dezembro — a página das revistas entra no ar em redeblast.com/revistas.
2023O acervo começa a ser reunido
Abril de 2023 — abre um canal chamado você-e-a-blast, onde as pessoas passam a contar como conheceram a rádio. Oitenta e quatro pessoas participariam dele.
Ninguém sabia ainda, mas aquele canal seria a matéria-prima do maior projeto de memória que a casa faria — três anos depois.
24 de abril — a equipe de cobertura ganha uniforme em segunda versão, com a Bomba da Blast aplicada.
A bomba é descendente direta das bombinhas Yin e Yan que o fã-clube criou em janeiro de 2009. Catorze anos depois, no uniforme de campo.
A Bahia
Enquanto o site publicava pouco, uma frente da casa não parou um único ano — e ela fica a mil e oitocentos quilômetros de onde a Blast! nasceu.
A Rede Aerotakus de Entretenimento, de Alagoinhas, passou a representar oficialmente a Blast! na Bahia. Não é acordo de divulgação: é equipe local, credenciada, com estúdio montado, cobrindo evento com a marca da casa numa região que não tinha contato com esse circuito.
Em 2023, no Alternative Geek Festival, em Pojuca, aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido:
"este também foi um marco muito grande, além de ser o primeiro evento da Bahia a transmitir a programação dentro do evento"
A programação da Blast! tocando nas filas do free play, com a equipe credenciada pela Sirius Produtora Cultural, e uma ponte ao vivo com Brasília, onde o TiuJuca conversava com quem estava no evento.
Quem toca isso do outro lado é o Brucky — o mesmo Momonari que a casa entrevistou em 2014, com outro apelido e dez anos a mais de estrada. É dele o programa Aerotakus na grade, e são dele as coberturas de Alagoinhas, Pojuca, Catu e da região metropolitana de Salvador.
Somadas, são sete coberturas. A Bahia é a região que a Blast! mais cobriu na 2ª geração — mais que São Paulo, mais que o Rio. E aconteceu justamente nos anos em que o site publicava menos.
13 publicações no ano. É o menor número da história do site.
2024Uma pergunta muda tudo
22 de janeiro — o Las Noches faz uma pergunta prática ao Joke:
"a Blast tem CNPJ? ou qualquer registro que comprove que a empresa existe? A Camila tá precisando de certificado de voluntariado. Você pode fazer esse tipo de certificado?"
30 de janeiro — a resposta:
"A Blast não tem CNPJ. Preciso ver certinho como fazer isso funcionar, mas é possível sim."
A resposta é a fotografia da situação da casa naquele momento: dezoito anos no ar, equipe espalhada pelo país, cobertura de evento em três estados — e nenhum registro jurídico. O que mantinha a Blast! de pé era uma pessoa física pagando as contas e dezenas de pessoas doando tempo.
Naquele mesmo mês entra na casa o Stuckenhoff, de Salvador, que apresentaria três programas nos dois anos seguintes. E o Nobu, que tinha parado de escrever em 2019, volta a aparecer.
2025O silêncio, e o que estava acontecendo apesar dele
27 publicações. 3.139 mensagens no Discord — uma queda de 95% em relação a 2021.
Em outubro, o servidor inteiro registra 56 mensagens no mês.
E o site passa 383 dias sem publicar uma única linha sobre a própria casa — de junho de 2024 a junho de 2025, o maior silêncio institucional da 2ª geração.
Mas a Blast! estava em campo
Enquanto o site emudecia, a equipe da Bahia entregava o ano mais ambicioso da parceria.
O Arena Games, maior evento de cultura geek de Alagoinhas, completou dez anos — e a Rede Aerotakus, que representa a Blast! na região, completou dez também. Foi a quarta cobertura consecutiva da casa naquele evento, e a equipe não foi só registrar:
"estamos levando a programação da Rede Blast para dentro do Arena Games"
Rádio tocando dentro do evento, estúdio montado no local, e o público de uma cidade do interior baiano ouvindo a Blast! ao vivo enquanto circulava pelos estandes.
É o retrato mais exato do que a Blast! virou: o site calado, o Discord vazio, a redação parada — e a marca da casa entrando em cidades que nunca tinham tido contato com esse circuito, levada por gente que nem mora perto de onde ela nasceu.
A rádio continuou no ar o tempo todo. Mas a casa tinha parado de falar de si mesma, e quase parado de falar.
Faltavam nove meses para os vinte anos.
2026Vinte anos
Janeiro: 49 mensagens no Discord e uma publicação no site. Fevereiro: 45 e uma.
É o momento mais silencioso de toda a história da Blast!.
27 de março: a decisão
Havia um site novo na cabeça do Joke fazia anos. Não saía por dois motivos: falta de tempo e o tamanho da tarefa — programar sozinho um portal inteiro, com chat, contas, aplicativo e acervo, enquanto se toca uma rádio e se ganha a vida em outro lugar.
Em 27 de março de 2026 ele escreve para a coordenação que aquele ano não podia passar em branco:
"completaremos 20 anos nesse ano [...] e quero criar uma área de história, onde iremos reunir a história do projeto — desde a fundação até hoje e o que virá pro futuro."
Vinte anos não é marca que se comemore com uma publicação na redação. A decisão foi fazer o que estava engavetado: site novo, comunidade, acervo, aplicativo — tudo de uma vez.
O que destravou foi a chegada das ferramentas de inteligência artificial, que permitiram terceirizar a parte braçal da programação e acelerar meses de trabalho. A arquitetura, a estratégia e o design continuaram sendo dele. O que mudou foi a velocidade de sair do papel.
A redação acorda
| 2026 | jan | fev | mar | abr | mai | jun | jul |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| publicações | 1 | 1 | 9 | 50 | 71 | 35 | 29 |
| mensagens no Discord | 49 | 45 | 1.363 | 4.859 | 1.463 | 373 | 932 |
As duas curvas viram no mesmo mês. Em março, a casa sai de uma publicação por mês para nove, e o Discord multiplica por trinta. Em maio, a redação publica setenta e uma vezes — o melhor mês desde julho de 2011.
Poucos dias depois da decisão, uma conversa entre o Joke e o Las Noches mostra por que a reconstrução da memória fazia parte do projeto:
"to tentando resgatar alguns contatos. depois de anos abri novamente o Facebook"
"cara, não conheço ninguém dessa época de ouro"
8 de abril — a casa escreve sua própria definição:
"A Blast! é uma comunidade brasileira de cultura oriental e geek, fundada em 2006. Um portal editorial, comunidade interna, chat ao vivo, webrádio e programação 24 horas. Completando 20 anos em agosto de 2026, é uma das comunidades de cultura oriental mais antigas do Brasil."
O apoio, enfim estruturado
Por vinte anos a Blast! foi paga por uma pessoa. Havia uma página de doações desde dezembro de 2006 e, no site dos anos recentes, até uma chave Pix. Nunca entrou uma doação.
Em 2026 a casa monta uma estrutura de verdade: três planos de apoio recorrente — Nakama, Hero e Lenda. Quem apoia ganha selo no perfil e na comunidade, cor exclusiva no chat, site sem anúncios e acesso antecipado às novas áreas e funcionalidades antes de irem ao ar.
E ganha lugar num canal privado de apoiadores, onde a próxima área do site e a próxima funcionalidade são discutidas com quem sustenta o projeto — além de acesso exclusivo aos brindes produzidos pela Blast!.
O benefício central não é vantagem de consumo. É voz sobre o que a casa vai construir em seguida.
E é isso que traz o CNPJ. Assinatura recorrente cobrada em cartão significa prestação de serviço, e prestação de serviço exige nota fiscal. O Joke passa a operar a Blast! pela própria empresa, que assume formalmente a responsabilidade pelo projeto.
Até ali, o responsável pela Blast! era uma pessoa física — pagando as contas do próprio bolso e doando o próprio tempo, como todo mundo. A diferença de 2026 não é ter dinheiro. É ter uma estrutura capaz de recebê-lo.
1º de agosto de 2026: o site dos vinte anos
Não foi um site novo. Foi tudo de uma vez.
A comunidade voltou. Fórum próprio, tópicos, enquetes.
A Blast! nasceu dentro de um fórum, em 2005. Quando a 1ª geração acabou, o fórum foi junto — e a 2ª geração nunca teve um. Por treze anos a casa foi rádio e redação, e a conversa do público aconteceu onde desse: no chat, nas caixas de comentário, em plataforma de terceiro.
Em 2026 a Blast! volta a ter fórum próprio, vinte e um anos depois de ter começado como um.
O Acervo. A área de história, com a cronologia do projeto e o espaço onde o público conta a própria versão — o material que vinha sendo reunido desde 2023.
O chat, dentro do site, do jeito que estava desenhado desde 2016 — e não mais no Discord, que era a última coisa da Blast! rodando em casa alheia.
O aplicativo, refeito, com a mesma conta e as mesmas preferências do site.
E a transmissão subiu para 192 kbps — a melhor qualidade de áudio que a Blast! já entregou.
A rádio começou em 2006 transmitindo a 24 kbps, para caber na banda que existia. Vinte anos depois, transmite a oito vezes isso.
E o que amarra tudo: um sistema unificado de conta de usuário. Uma conta só para ouvir, comentar, participar da comunidade, pedir música e usar o aplicativo — com um painel de preferências onde cada pessoa escolhe o que quer receber: aviso quando seu programa favorito entra no ar, resposta a um tópico seu, comentário numa publicação sua, enquete nova, cobertura de evento, menção no chat.
Quem entra pelo aplicativo encontra as próprias configurações já lá.
Em 2007, a Blast! era uma grade de programação e um fórum em endereços diferentes. Em 2026, é uma conta só que atravessa rádio, redação, comunidade, acervo e aplicativo — e que lembra do que cada pessoa gosta.
O chat que demorou dez anos
Em abril de 2016, o Joke tinha escrito exatamente como queria que o chat da Blast! funcionasse: aparecendo pela direita ao clicar no menu, com a página se ajustando em volta, para a pessoa conversar e navegar sem parar de ouvir a rádio. Aquela versão não ficou de pé, e a comunidade foi para o Discord.
Dez anos depois, o chat do site dos vinte anos é exatamente aquilo — e a descrição que está no ar hoje é, palavra por palavra, a que ele escreveu para a equipe em 1º de abril de 2016.
A ideia não mudou em uma década. Só levou esse tempo para ser possível.
A grade de 2026
A grade tem cinquenta faixas semanais. Quarenta e uma delas rodam sozinhas — blocos temáticos automáticos: Hora do City Pop, Hora da Geração Titã, Hora da Temporada, Hora da Nostalgia, Hora do K-Drama, Hora do K-Pop, Hora do Tokusatsu, Hora do Rap Geek Jam.
Em setembro de 2007, um DJ escreveu:
"não tem uma horinha que a gente pode pegar a rádio vazia, ela funciona 24h por dia, nós precisamos estar sempre 100% [...] nós temos uma vida, estamos cansados, mas não interessa."
Nos primeiros anos, a rádio simplesmente saía do ar quando não havia ninguém locutando.
E em janeiro de 2012, quando a playlist automática tomou quarenta faixas da grade, ela era o sintoma de uma casa que estava perdendo gente.
Catorze anos depois, a mesma automação faz o contrário. Em 2012 ela cobria buraco; em 2026 ela é a estrutura que garante que a rádio nunca mais dependa de alguém estar disponível. Oitenta e dois por cento da programação toca sozinha — e é exatamente por isso que ela continua no ar.
As nove faixas ao vivo restantes ficam com cinco pessoas: Las Noches no Crazy Arcade+, Kirito na Hora do Filler e no MEGAVERSO, Ayumi no Hisashiburi, Felipe Pina no Somos Tokufans Rádio Show e no Parade, e Stuckenhoff no Nipponimix e no Amazing K-Pop.
O Crazy Arcade+ é o programa mais longevo e mais citado pelo público da 2ª geração — no ar, sem falhar um ano, desde 2017.
Na redação de 2026 estão Las Noches, Snow, Makoto Bakura, Pedrinho Péricles, Hana, Booma, Brucky, Mr.Alucard e o Joke.
O que o público está dizendo
Por onze anos, as palavras que o público mais escreveu para a Blast! foram sempre as mesmas: toca, música, programa, manda, abraço.
Em 2026, pela primeira vez, os verbos estão no passado. "Era", "lembro", "tinha" entram na lista das quinze palavras mais usadas. E "toca" sai.
O público da Blast! parou de pedir música e começou a contar histórias.
O que a Blast! é, vinte anos depois
Em 2007, uma DJ recém-recrutada escreveu que o fundador falava de um sonho: fazer com que as pessoas encontrassem, dentro de si, aquela centelha que as faz vibrar por algo genuíno — e que essa união só seria possível pela música. Ela achou que ele era maluco, e entrou assim mesmo.
Dezenove anos depois, a palavra que o público mais escreve para a rádio é lembro.
Entre uma coisa e outra houve vinte e um anos, nove sites, quatro plataformas de chat, dois bancos de dados, seis mil e quatrocentas publicações, duzentas e seis mil mensagens de comunidade, e centenas de pessoas que fizeram tudo isso de graça, por gostar.
Mas nada disso explica por que a Blast! ainda está aqui.
Um lugar para onde voltar
Uma rádio não sobrevive vinte anos por causa de tecnologia. Sobrevive porque virou um lugar — daqueles que não são a casa nem o trabalho, e que a gente escolhe porque ali dá para ser quem se é.
É isso que aparece quando o público fala. Gente que chegou adolescente sem conhecer ninguém que gostasse das mesmas coisas e encontrou uma sala cheia. Gente que passou por depressão e tinha a programação ligada do outro lado. Gente que estava de luto e achou companhia num chat. Gente que entrou tímida, pegou um microfone por brincadeira, e descobriu que sabia falar — e levou isso para a vida, para a faculdade, para o trabalho.
A Blast! foi degrau de carreira para muita gente. Foi refúgio para outra tanta. E foi, para quase todo mundo que passou por ela, o lugar onde não era preciso explicar por que se gosta do que se gosta.
É por isso que, em 2026, a palavra que mais aparece nas mensagens do público é "lembro". Ninguém guarda memória de um site. Guarda memória de um lugar onde foi bem tratado.
O que vem depois
A Blast! seguirá como sempre foi: uma comunidade construída com dedicação e afeto de muita gente, ao longo de muito tempo, sem que ninguém jamais tenha recebido por isso.
E há uma promessa por trás disso, feita por quem carrega o projeto desde 2013: enquanto o Joke estiver à frente e tiver condições, a Blast! vai continuar no ar. Com apoio ou sem apoio, com ajuda ou sem ajuda. A essência fica viva, e a história fica junto.
E a Booma, o bot de moderação que nasceu num canal de IRC em 2006 ou 2007, continua lá — avisando, no chat, toda vez que aparece um tópico novo na comunidade, um post novo na redação, ou um programa entrando no ar.