Retomando:

Muito prazer! Pra quem não me conhece, sou o Pictor, e estou na rádio há pouco menos de um mês. Nos sábados às 10h e agora também nas quintas às 16h apresento o Japanice, programa em que, a cada semana, escolho um tema bizarro da cultura japonesa para me aprofundar. Depois de falar sobre “otakus” e “herbívoros”, decidi dedicar o programa desta semana aos Festivais Japoneses, ou Matsuri, como são chamados no Japão, um tema não tão diferenciado assim.

Acima de tudo, o simples fato de esses festivais existirem nos provam duas coisas. Primeiro, podemos ver o quanto as tradições ainda fazem parte do dia-a-dia japonês. E segundo, o quão unido e animado o povo japonês é quando se trata de suas tradições, diferentes de alguns países que perderam um pouco de seus costumes com o tempo. É claro, quando falamos de Japão, sempre podemos esperar alguma característica ou aspecto extremamente diferente do mundo inteiro, e, no caso do festivais, não é diferente. Há, além das celebrações mais conhecidas e simbólicas, algumas completamente estranhas pelo menos aos olhos de quem é de fora. Mas antes de entrar realmente no assunto, que tal entendermos um pouco da base cultural desse país tão diferente?

O tradicional kimono. Lindo.

A cultura diferenciada:

O Japão, como eu sempre digo, é um país excepcional que possui em seu povo formas de pensar e agir no mínimo inusitadas se comparadas a outros países. O que aconteceu por lá foi que as tradições que o povo cultivou durante os séculos passados ainda fazem parte integrante do cotidiano do japonês. É, sem dúvida, um desafio e tanto conseguir preservar aspectos do passado, afinal, a homogeneização dos costumes vem crescendo junto com a interação que os meios de comunicação proporcionam. Nesse caso, o Japão teve um advento: o arquipélago permaneceu isolado do século XVII ao século XIX, ou seja, não manteve contato com o ocidente de nenhuma forma.

Esse isolamento acabou influenciando a mente e o comportamento japonês, que teve mais tempo para praticar e manter à risca as tradições. No entanto, isso tem seus defeitos, e é algo que podemos ver até hoje no jeito de ser da sociedade japonesa, que não se importa muito com os aspectos do mundo ocidental. Não é culpa deles ser assim, é só uma consequência dos anos de isolamento que o país viveu.

Ninguém vê as tradições e características do passado como algo velho e sem sentido, o que acontece com muitos outros países que perderam um pouco de suas tradições. Junto a essa valorização da antiguidade, é somada a característica japonesa de reciclar as culturas que recebe de outros países e transformá-las ao estilo japonês. Pra quem não sabe, o Japão só foi se abrir ao mundo ocidental em 1853, uma data considerada, em comparação com outros países, muito tardia. Com a inevitável pressão das demais culturas, principalmente a norte-americana, o Japão passou por um período de absorção desses costumes estrangeiros.

Mas foi mesmo após a Segunda Guerra Mundial que o país realmente se transformou no que conhecemos hoje. No pós-guerra, o Japão sofreu um enorme crescimento econômico e, junto a isso, a influência das outras culturas se tornou ainda maior. Com os avanços tecnológicos e a modernidade chegando ao país, os costumes e tradições antigas se misturaram com as novidades ocidentais, formando o que a gente conhece hoje como cultura japonesa. Dessa forma, só temos mangá, anime, games, moda de rua japonesa, doramas, novels e tantas outras coisas pois essa foi a maneira do Japão transformar a cultura de outros países em algo com a sua cara. Portanto, trata-se de um país em que os contrastes entre passado e futuro estão por toda parte. Seja numa megalópole como Tóquio ou em lugares mais bucólicos como a linda Ilha de Yakushima, a diferença é gritante.

Com tamanha tecnologia e modernidade, o esperado por parte dos japoneses era que eles apenas absorvessem o que fosse novidade e que, aos poucos, suas tradições fossem se tornando apenas lembranças para ficarem expostas em algum museu ou até se perder com o tempo. No entanto, as tradições estão ainda presentes em todos os lugares da sociedade japonesa, que as mantém e, acima de tudo, as respeita.

Tradição e Modernidade

O que são os Matsuri?

Os Matsuris, como são chamados os festivais por lá, são basicamente uma festa que celebra alguma data antiga muito importante. Os festivais acontecem ao longo de todo ano e mobilizam um número muito grande de pessoas. Como se tratam de tradições certas vezes até milenares, as pessoas as consideram como celebrações sagradas que realmente possuem um propósito, e não estão ali apenas para oferecer diversão. Como o Japão tem características muito peculiares de cada região, os festivais muitas vezes só acontecem em um determinado lugar do país. É claro, há os feriados nacionais, em que o país inteiro celebra um festival em comum, o que os deixa mais conhecidos.

Dessa forma, querendo ou não, a cultura antiga faz parte da vida japonesa se oferecendo de uma maneira divertida e, acima de tudo prazerosa. As celebrações sempre apresentam características típicas do festival em questão no que diz respeito às atrações, portanto, um festival nunca é igual ao outro, ainda que possam celebrar as mesmas coisas. É comum em cada um deles as pessoas se vestirem de maneira diferente, seja de forma tradicional, com kimonos e yukatas, ou de outra forma qualquer. A comida também é especial em cada um, sendo um dos aspectos que mais atrai o público. Então vamos ao que interessa:

Tanabata:

Pedidos pendurados. É a celebração do Tanabata.

No dia sete do sétimo mês é comemorado um dos mais conhecidos festivais, o Tanabata ou Hoshi Matsuri, que significa literalmente “Festival das Estrelas”. Ele acontece em todo o Japão e é uma das mais antigas celebrações de lá, com uma história de aproximadamente 1150 anos. Como qualquer outro “Matsuri” ele possui uma origem mítica e, muitas vezes, romanceada.

Reza a lenda do Tanabata que vivia na Via Láctea a princesa Orhime e seu pai. Certo dia, o pai da moça resolveu apresentá-la ao jovem rapaz Kengyū. Os dois acabaram se apaixonando perdidamente de uma forma que os deixava incapazes de fazer qualquer outra coisa relacionada a suas obrigações. Transtornado, o pai de Orihime resolveu separá-los, e, dessa forma, os colocou para viver um em cada lado da Via Láctea. A jovem Orihime se entristeceu a ponto de deixar seu pai sentindo-se culpado, e, por conta disso, ele permitiu que os dois se vissem apenas um dia do ano com a condição de que atendesse todos os pedidos da terra neste dia. Eles aceitaram, e, no dia 7 de julho, duas estrelas que se encontram opostas o ano todo realmente podem ser vistas juntas. As pessoas escrevem seus pedidos em pequenos papéis coloridos e os penduram em árvores. No fim da celebração, os papéis são queimados para os pedidos conseguirem alcançar Orihime e Kengyū.

É sem dúvida uma bela história de amor pra um lindo Matsuri. Vale dizer que o festival é celebrado no Brasil todos os anos desde 1979 na Praça da Liberdade, no famoso bairro de mesmo nome em São Paulo.

Tōrō Nagashi:

Com certeza um dos mais belos festivais e com um dos propósitos mais nobres. Comemorado há cerca de 550 anos, o Tōrō Nagashi é um celebração final que acontece dentro de outro festival, o Obon. Todas as celebrações têm como tema central os espíritos das pessoas que já partiram, os quais pretendem homenagear. Como em várias outras ocasiões, essa festa acontece em diferentes datas em todo o território Japonês, sendo mais comum em datas trágicas, como o dia em que a bomba atômica foi detonada em Hiroshima.

São feitas oferendas e homenagens nos mais diferentes estilos, como dança, comida, apresentações ou simplesmente visitas aos túmulos. O Tōrō Nagashi, em que tōrō significa lanterna e nagashi quer dizer fluxo, consiste em colocar uma lanterna de papel em um pequeno barco e lança-lo ao rio. Diz a lenda que este ato guia os espíritos de volta ao seu mundo, o que se parece com um último auxílio que os familiares prestam aos seus ancestrais. Dessa forma, milhares de lanternas flutuam rio abaixo numa cena que mistura espiritualidade budista com arte e emoção. É uma imagem e tanto.

Hadaka:

No Hadaka, a galera fica bem à vontade

O Hadaka Matsuri, ou “Naked Man Festival”, como ficou conhecido no ocidente, acontece em março e tem uma história de mais de 500 anos de tradição. Na época de surgimento da maioria de seus “Matsuris”, o Japão ainda estava muito ligado à agricultura, e a tratava como algo divino e representativo da vontade dos deuses e divindades sobrenaturais. Baseado principalmente no plantio de arroz, o país desenvolveu, além de várias técnicas de cultivo, muitas lendas cujo foco está na colheita das lavouras.

Assim, o Hadaka surgiu como uma espécie de celebração que tinha como foco principal afastar as pragas que ameaçavam a plantação. Hoje em dia, ele serve para afastar qualquer categoria de má sorte na vida das pessoas que o fazem acontecer. Como os povo orientais, principalmente japoneses e coreanos, acreditam muito no que diz respeito à sorte, o festival conta com vários participantes.

Basicamente, as pessoas que participam têm que usar o mínimo de roupa possível, geralmente uma tanga como a dos lutadores de sumo, ou roupas que deixem seu corpo muito à mostra. Uma entre essas pessoas é escolhida para se tornar uma espécie de “ímã da má sorte”, no qual todos têm que encostar para terem seus defeitos transferidos. Assim, o escolhido tem que andar pelas ruas da cidade e chegar ao seu destino enquanto todos tentam tocá-lo. No fim, ele é purificado de todo o mal, e o propósito do festival se cumpre.

Kanamara:

Esta celebração ganha de qualquer outra se o assunto for nível de bizarrice. O Kanamara tem como tema o órgão genital masculino. Isso mesmo, por toda a cidade de Kawasaki se veem estátuas enormes, doces, vegetais e outros mais no formato de um pênis.

O festival é um dos mais engraçados do Japão, e não há como olhá-lo de uma forma natural. É engraçado pensar que as pessoas que participam e o organizam o veem como algo extremamente natural. Obviamente, as homenagens são à fertilidade que acomete os homens japoneses. Em um país onde um dos seus maiores problemas é a taxa de natalidade, até incentivos como esse são válidos.

Conclusão:

Há milhares de outros festivais interessantes no Japão. Alguns são bem parecidos no que diz respeito as cerimônias e a forma como as homenagens são feitas, no entanto, a motivação para a existência, bem como suas origens e lendas são diferentes. Como sempre digo, o Japão tem muito mais a oferecer do que animes e mangás. Muito mesmo

No próximo programa falarei sobre moda de rua japonesa e como o estilo fashion das meninas tem um significado muito mais profundo do que realmente achamos. Até lá!


Publicação original de 06/08/2011. 5 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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