O meu Dragon Ball é o da luta com o Freeza. A gente chegava da escola e ficava ali, assistindo episódio atrás de episódio. Depois veio o Cell, veio o Majin Buu, e eu acompanhei tudo. Mas a saga do Freeza foi a que ficou.

Naquela saga, o Goku e o Gohan passam episódios inteiros conversando. Pai e filho, no meio de Namekusei, discutindo o que fazer com o Freeza. E os dois são a mesma pessoa.

A dubladora japonesa Masako Nozawa faz o Goku desde a estreia do anime, em 26 de fevereiro de 1986. Faz também o Gohan, o Goten, o Bardock e, mais recentemente, o Goku Black. Quatro gerações da mesma família, uma garganta só, quarenta anos.

Isso, quem procura, acha. O que quase ninguém sabe é como ela grava.

O método

Nozawa evita descobrir, antes da gravação, contra quem o Goku vai lutar. Não é desorganização nem falta de tempo. É decisão de atuação, e ela explica o porquê:

Se eu já sei com que mal ele vai lutar hoje, a amplitude da voz enfraquece.

Masako Nozawa, em entrevista ao Guinness World Records Japão

A lógica é essa: ela quer entrar no estúdio no mesmo estado em que o personagem entra na luta. Quando o inimigo aparece na tela e ela reage com raiva de verdade, a raiva é dela, não é interpretação de uma raiva que ela já conhecia desde a semana passada.

Ela conta ainda que não muda a voz para fazer o Goku. É a voz dela, sem truque, sem efeito. Na audição, viu o desenho do menino de rabinho e o som saiu.

Ninguém avisou

O jeito como ela virou o Gohan também não teve nada de protocolar.

Quando a produção anunciou que o filho do Goku entraria na história, o elenco começou a brincar de fazer a voz do menino, uma espécie de audição informal entre amigos. Nozawa não entrou na brincadeira. Achou que pegaria mal, já que ela era a protagonista.

Aí o Gohan estreou. Ela abriu o roteiro para se preparar e reparou que a linha do personagem novo estava sem nome de dublador. Perguntou ao produtor quem faria o papel, e ouviu que estava escrito ali. Estava mesmo: o nome dela, que sempre aparecia logo abaixo de Son Goku, tinha sido deslocado um pouco para baixo, encostando em Son Gohan.

Ninguém avisou nada. Só moveram o nome no papel.

Os três de uma vez

Tem um terceiro detalhe de bastidor.

No começo, Nozawa gravava os três papéis na mesma sessão. Goku, Gohan e Goten, um atrás do outro, ao vivo, com o elenco todo na sala. Diálogo de família inteira feito por uma pessoa só, em tempo real.

Ela parou. E não foi por cansaço nem por ordem da direção. Foi porque um colega mais novo pediu:

Se a Mako-san faz isso, vão achar que qualquer um consegue. Por favor, para.

Colega de elenco, segundo relato da própria Nozawa à Toei Animation

Desde então o esquema mudou. O Goku ela grava junto com todo mundo, normalmente. Depois volta sozinha ao estúdio e grava o Gohan. Depois volta de novo e grava o Goten.

Vale reparar no tamanho do elogio embutido nesse pedido. O rapaz não estava reclamando dela. Estava dizendo que ela fazia parecer fácil uma coisa que não é, e que isso ia acabar virando régua para gente que não tem quarenta anos de estrada.

Para dimensionar

Nozawa nasceu em 25 de outubro de 1936 e começou a atuar aos três anos de idade.

🎌

Antes do Goku ela já era o Kitarō, de GeGeGe no Kitarō, desde 1968, e o Tetsurō de Galaxy Express 999. No Japão o apelido dela é o eterno menino, porque quase todos os papéis que a consagraram são garotos.

Em outubro de 2016 o Guinness certificou a marca dela em jogos, contada desde o Dragon Ball Z: Super Butōden de Super Famicom, de 1993. Na cerimônia, o próprio Akira Toriyama mandou uma mensagem dizendo que se sentia um pouco orgulhoso de ter alguma participação naquele recorde.

E ela não parece com pressa de sair. Ao receber uma homenagem em 2025, disse que a idade que escolheu para si mesma é 182 anos.

Spoiler da saga do Freeza

O próximo parágrafo conta o que acontece com um personagem. Se você nunca chegou nessa parte, pode parar por aqui.

Uma última, para quem viu a saga do Freeza na TV. Perguntada sobre a cena de gravação que mais ficou com ela em quatro décadas, Nozawa não escolheu uma transformação nem um golpe final. Escolheu a hora em que o Kuririn morre e o Goku grita. O motivo que ela deu é que ali dá para sentir o tamanho da amizade entre os dois.

Confesso que eu não sabia. Assisti tudo aquilo e nunca passou pela minha cabeça que Goku, Gohan e Goten eram a mesma pessoa falando. Descobri agora, escrevendo isso aqui.

E fiquei com uma vontade danada de saber quem mais não sabia, porque acho que não sou só eu. Se você também caiu do cavalo agora, aparece nos comentários.

Se quiser puxar o fio, a Blast já publicou sobre o dia em que o Dragon Ball Super saiu do ar no Japão para dar lugar ao Gegege no Kitarō. Uma piada interna que ninguém contou na época: os dois animes tinham a mesma voz principal.

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Comentários
1 comentários
Fhelipe4 semanas atrás
Ela é eterna ❤️