Tem coisa mais perigosa para o coração de um fã de anime do que ouvir, por acaso, aquela abertura que você não escutava há anos? Bastam alguns segundos para a memória fazer o trabalho dela. De repente, você está de volta ao sofá de casa, à escola, às tardes depois da aula ou àquela época em que esperar o próximo episódio parecia uma eternidade.
É aí que a nostalgia mostra sua força. Ela tem esse poder curioso de nos transportar para momentos que ficaram para trás, trazendo conforto, alegria e, dependendo do caso, uma pontinha de melancolia.
O que é nostalgia?
A palavra vem do grego nóstos, relacionado ao retorno ao lar, e álgos, que significa dor. O termo foi cunhado em 1688 para descrever a saudade que soldados sentiam por estarem longe de casa. Com o passar dos séculos, porém, a ideia ganhou um significado muito mais amplo.
Hoje, quando falamos em nostalgia, geralmente pensamos naquela sensação agridoce provocada por uma música, uma fotografia, um lugar, uma pessoa ou, claro, por uma obra que marcou determinada fase da nossa vida.
E os animes são praticamente especialistas nisso.
Uma abertura pode funcionar como uma espécie de máquina do tempo emocional. Não precisamos rever uma temporada inteira para lembrar de personagens, conversas, amigos e até do lugar onde estávamos quando assistimos àquela história pela primeira vez.
A nostalgia não é sobre o objeto
Existe uma diferença importante entre sentir falta de alguma coisa e sentir falta de quem éramos quando aquela coisa fazia parte da nossa rotina.
Um DVD antigo, um mangá amarelado ou um videogame guardado no armário podem despertar nostalgia, mas o objeto em si nem sempre é o verdadeiro motivo da emoção. O que volta é a experiência associada a ele.
Por isso, você pode encontrar uma antiga abertura de anime anos depois e sentir aquele conhecido “quentinho” no coração. Talvez não seja exatamente saudade daquele anime. Pode ser saudade das pessoas com quem você o assistia, das preocupações que ainda não existiam ou simplesmente da versão de você que estava vivendo aquela fase.
Você não precisa comprar uma edição comemorativa ou um produto de coleção para sentir nostalgia. Às vezes, uma foto esquecida numa caixa ou uma música tocando por acaso já basta para abrir essa porta.
Nossa memória não é uma gravação do passado
Existe outro detalhe fascinante nessa história: a memória humana não funciona como um vídeo arquivado em nossa cabeça. Nós reconstruímos nossas lembranças, e isso significa que a forma como enxergamos o passado pode mudar com o tempo.
Uma infância, por exemplo, pode ter sido cheia de problemas, brigas e frustrações. Anos depois, entretanto, talvez as lembranças que mais apareçam sejam as férias, os desenhos na televisão, os amigos, os jogos e aquela sensação de ter o dia inteiro pela frente.
Isso ajuda a explicar por que a nostalgia pode parecer tão poderosa. Ela não necessariamente nos leva de volta ao passado como ele realmente aconteceu. Muitas vezes, nos leva à versão do passado que nossa memória construiu.
A nostalgia pode ser menos uma saudade do que vivemos e mais uma saudade de quem éramos quando vivíamos aquilo.
quem nunca não é?
E talvez seja justamente aí que mora boa parte da sua força.
Quando a nostalgia faz bem?
A nostalgia pode despertar melancolia e até solidão, principalmente quando aquilo que lembramos está ligado a alguém ou a uma fase que não pode ser recuperada. Mas ela também pode trazer conforto, pertencimento e bem-estar.
Estudos contemporâneos sobre o tema apontam que a nostalgia pode ter efeitos positivos sobre o humor e ajudar a fortalecer a sensação de continuidade da própria história. Em outras palavras, lembrar de quem fomos também pode ajudar a entender quem somos agora.
É por isso que rever aquele anime antigo pode significar mais do que simplesmente matar a saudade de assistir...
Quando a nostalgia vira produto
O mercado percebeu há muito tempo o potencial desse sentimento. Remakes, relançamentos, coleções, edições comemorativas e produtos inspirados em franquias antigas conseguem chamar nossa atenção justamente porque existe uma história emocional por trás daqueles nomes.
O problema começa quando confundimos a nostalgia com a necessidade de consumir alguma coisa para recuperá-la.
Você pode sentir tudo isso sem abrir a carteira. Uma música que toca na Blast!, uma conversa com um velho amigo, uma fotografia ou até aquela velha abertura de anime encontrada por acaso já podem fazer o serviço.
O produto pode ser uma ponte para a memória, mas não é dono dela.
O passado é para visitar, não para morar
No fim das contas, a nostalgia tem esse gosto agridoce porque mistura duas coisas aparentemente contraditórias: a felicidade de lembrar e a consciência de que aquele momento não volta.
Talvez seja justamente por isso que ela seja tão humana. Quando uma abertura de anime toca depois de muitos anos, não estamos apenas ouvindo uma música. Estamos encontrando uma pequena parte da nossa própria história.
Não precisamos abandonar a nostalgia, muito pelo contrário. Ela pode ser uma maneira bonita de reconhecer as pessoas, histórias e experiências que ajudaram a construir quem somos. Só não dá para transformar esse sentimento em moradia.
O passado pode ser um lugar para visitar, mas não para morar. E você, qual anime, abertura ou música consegue apertar o botão da nostalgia instantaneamente?