Depois de quase sete meses na China, finalmente voltei pro Brasil! Encerro aqui mais uma temporada de novidades no Trip Note, mas não sem deixar um post de despedida, claro.
Pra começar, que tal falar das coisas que mais me marcaram por lá? Posso citar, em primeiro lugar, a segurança: poder sair com uma câmera pendurada no pescoço à noite pelas ruas, tirar um iPad da bolsa no metrô (como já vi MUITAS pessoas fazendo por lá!) e andar pelas ruas com um mp3 no ouvido sem se preocupar se alguém vai te abordar são coisas que não têm preço. Lá na China você pode sair do jeito que quiser, ninguém vai chegar com uma arma mandando tu entregar o celular ou algo do tipo. Claro que existe a famosa “mão leve” em lugares com muita gente, mas isso aí é fácil de tomar conta. Agora você veja: são quase 1,5 bilhão de habitantes na China e o governo consegue controlar a criminalidade. E o Brasil, com cerca de 200 milhões, deixa essa bagunça acontecer... Outra coisa interessante relacionada a isso era que, quando alguma coisa sua caía no chão, NINGUÉM pegava! O máximo que faziam era te chamar e apontar pra coisa que tinha caído. Se você caísse no meio da rua, ninguém vinha te ajudar também, com medo de te machucar e ser processado. Falando em processo, os chineses são muito obcecados com essa coisa de ganhar dinheiro. Não é à toa que sábado e domingo lá parece um dia de semana qualquer. Eles não costumam tirar férias, porque não ganham salário de férias como no Brasil. Os únicos dias do ano em que você vai ver a cidade abandonada é no feriado do ano-novo chinês, pois todo mundo viaja pro interior pra visitar as famílias e levar dinheiro pros pais (não existe dinheiro de aposentadoria lá e todo o sistema de saúde é pago, daí os pais geralmente sobrevivem da ajuda financeira dos filhos e da poupança que juntaram).
A segunda coisa que mais me marcou lá foi a comida. A comida chinesa do Brasil, como já disse em outros posts, não tem NADA a ver com a comida chinesa de verdade. A comida lá é absurdamente MUITO apimentada, e quando você pede “sem pimenta, por favor”, ainda assim vem com pimenta! Acho que isso é tipo o sal da gente, eles não conseguem fazer comida sem a bendita. Pra aliviar, Pequim tem zilhões de restaurantes ocidentais, de tudo que é cozinha, desde marroquina até italiana. Cheguei a ir em três restaurantes de comida brasileira, que até matavam um pouco a saudade, mas não chegavam a ser aqueeela coisa.
Agora, se tem uma coisa que me estressava de verdade, era o modo de pensar do chinês. Às vezes eles pareciam robôs treinados pra responder a um só tipo de comando. Por exemplo, numa loja de roupas eles eram “treinados” pra responder perguntas como “Tem tamanho L? Quanto custa?”. Aí se você perguntava alguma coisa diferente, como “Você pode trazer um tamanho L na cor preta de outra loja pra mim?”, eles simplesmente travavam! Parecia que eles não tinham ainda muita técnica ou muita experiência na hora de lidar com clientes. Provavelmente isso se deve à abertura recente da China ao mercado ocidental. Mas, mesmo assim, já faz mais de dez anos! Já deveriam ter se acostumado com isso, não?
De qualquer forma, conheci muitas bandas chinesas e coreanas enquanto estive por lá. Também percebi que essa história de chinês versus japonês é meio relativa. Quase não se toca música japonesa por lá, e não exibem doramas japoneses nas televisões. Mas existem zilhões de lojas só com produtos importados do Japão, e algumas revistas também falavam sobre cultura pop japonesa, fora os eventos undergrounds relacionados ao Japão que aconteciam em Pequim (como o Comic Present 2 e o hide Memorial, que foram documentados aqui no blog). Em oposição, música coreana era praticamente um “must” nas rádios e nos canais de videoclipes. E os doramas coreanos, então? Sempre tinha algum passando na televisão, dublados, claro. Mas os chineses também tinham uma grande produção cultural. Artistas como Jay Chou, Han Geng e até mesmo o bendito do Jackie Chan estavam sempre em alguma propaganda nas ruas da cidade. Nos filmes, então, os chineses eram mestres! Cada efeito especial que vou te contar, viu? As temáticas mais presentes nas produções cinematográficas estavam relacionadas ao início do século XX ou com aquela época feudal (dá pra chamar assim?) com imperadores, guerreiros e tudo o mais. Em relação às novelas, que também apareciam aos montes, as temáticas podiam ser tanto essas que eu acabei de falar, ou então dramas, romances, enfim, essas coisas que as mulheres adoram.
E pra quem acha que na China só tem pobreza e sujeira, está muito enganado! As ruas eram muito limpas e lá tinha cada carrão que dona Dilma provavelmente nunca trará. Shoppings tinham aos montes, especialmente os de luxo, reservados apenas para lojas de grife como D&G, Louis Vuitton, Rolex, e por aí vai. E nesses shoppings era possível ver chineses com um alto poder aquisitivo, andando com roupas super chiques e os novos cortes da moda. O gringo lá era visto como uma classe à parte. Tinha chinês que acreditava que os estrangeiros ocidentais não andavam de transporte público por lá porque tinham motoristas particulares. Acho que é por isso que às vezes me olhavam estranho no metrô quando ia pra casa... (morava em um bairro bem afastado. Pra você ter uma ideia, era tão afastado que ninguém falava inglês por lá). Aliás, taí outra mania deles: ficar te encarando sem a mínima vergonha. Às vezes eu não sabia se eles tavam me achando bonita, feia, se eu tava com remela no olho ou se tinha borrado o batom hahaha. Fora as vezes em que eu abria um livro ou um mapa no metrô e vinha um chinês por trás pra ler também! Sem a menor discrição, claro.
Foram ótimos sete meses, a China é um lugar incrível, mas nada se compara ao nosso país de origem, né? Não tem nada melhor que você chegar no aeroporto e pedir “um guaraná e uma coxinha de frango, por favor!” (minha primeira refeição quando cheguei no Brasil). Ou então chegar no mercado e falar pro vendedor “você cortou o presunto agora há pouco? Ah, então tá beleza, vou levar!”. São coisas simples, que você provavelmente faz todo dia, mas que só dá valor quando fica muito tempo num país onde você não entende bulhufas do que tão falando. E do arroz Tio João, então? Que saudades! Muito melhor que aquele arroz “unidos venceremos” chinês.
Obrigada pela companhia de todos vocês durante essa experiência, espero que vocês tenham gostado dos posts. Pra quem quiser ver as fotos que eu tirei por lá, é só ir no meu Flickr. E continuem acompanhando as novidades do Mykulak que tá lá em Los Angeles trazendo as melhores novidades da terra do Tio Sam :D! Beijos e fui!
Publicação original de 14/08/2011. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.