Vou começar confessando uma coisa: eu prefiro assistir legendado.
Não é implicância com dublagem, e não é aquele papo de purista. É que em alguns filmes eu sinto que a voz não está totalmente colada na cena. Como se estivesse ali do lado, mas não dentro. Nunca soube explicar de onde vinha essa sensação.
Aí eu descobri que, em alguns casos, ela tem uma explicação bem concreta.
O dublador nem sempre vê o filme
Em lançamento mundial de filme grande, o estúdio manda o material para a dublagem com a tela inteira apagada. Preto. A única coisa visível é um círculo aberto em volta da boca do ator que precisa ser dublado.
Se o personagem está de costas, não aparece nada. Se ele está no quarto plano da cena, o círculo abre lá longe do mesmo jeito. E é com isso que o profissional trabalha.
O medo é vazamento. Lançamento simultâneo no mundo inteiro significa que o filme circula por dezenas de estúdios semanas antes de estrear.
E é aqui que a coisa fica impressionante
Porque dublar não é encaixar palavra em boca. Quem faz isso explica assim: você não dubla a boca, você dubla a cena inteira. A expressão do rosto, o corpo, o que está acontecendo em volta, o tom do momento. A boca é só o encaixe final.
Então o que se pede a esses profissionais, na prática, é que construam uma interpretação a partir de quase nada. Eles chamam isso de dublagem espírita: vai pelo som e reza.
E olha, na maior parte das vezes funciona. Você assiste sem desconfiar de nada. Isso é habilidade pura.
O que uma boa dublagem realmente faz
Para entender o tamanho do trabalho, vale um exemplo concreto que apareceu na conversa.
Uma personagem dizia em inglês que precisava apagar um incêndio, no sentido figurado de resolver um problema, mas com uma camada de duplo sentido que só existia entre ela e o outro personagem. A entonação em inglês não entregava isso. O gesto que ela fazia no fim da frase, sim.
A solução foi inverter a ordem da frase em português, para que a palavra "apagar" caísse exatamente em cima do gesto dela.
Repara no tamanho disso. Não é traduzir. É reconstruir a cena inteira para que ela funcione em outro idioma, com outra sonoridade e outro ritmo. É por isso que a dublagem brasileira é reconhecida lá fora.
Agora imagina fazer esse tipo de decisão sem poder ver o gesto.
Quando não dá certo
Às vezes a limitação vence, e aí o furo aparece na tela.
Num dos filmes de Crepúsculo, um personagem pega um jornal, e a manchete é informação importante para entender a cena seguinte. Quem dublou nunca viu o jornal, porque estava tudo preto. A manchete não foi traduzida nem legendada.
Quem assistiu dublado seguiu o filme com um buraco na história sem nem perceber que existia.
Não é prática nova nem universal. Segundo eles, os dois primeiros Transformers e os dois primeiros Homem de Ferro chegaram assim, e faz tempo que não pegavam um filme nessas condições. Também tem gente questionando se ainda faz sentido: hoje o material já chega com marca d'água e nome da empresa atravessado na tela, então quando vaza dá pra saber de onde saiu.
Eu continuo preferindo legendado, e acho que vou continuar. Mas mudou uma coisa.
Aquela sensação de que a voz às vezes não está colada na cena deixou de ser implicância minha e passou a ter uma explicação possível. Em alguns casos, o profissional realmente não teve como ver a cena que estava interpretando.
O que me impressiona não é o problema. É que, mesmo assim, na esmagadora maioria das vezes, a gente assiste e não desconfia de nada.
De onde veio esse papo
Este post foi construído a partir de um trecho da conversa do Flow Podcast, em que Igor 3K recebeu Wendel Bezerra e Mauro Ramos. Vale muito assistir na íntegra, tem bem mais coisa boa lá.