Estreia neste sábado, dia 8 de agosto, um filme de animação que a Netflix está soltando mundial e simultâneo, sem passagem por cinema e sem exibição na TV japonesa. Chama THE RIBBON HERO, tem 108 minutos e é inspirado em um mangá de 1953 que, sem exagero nenhum, é um dos alicerces de tudo que a gente assiste hoje.

Trailer final de "THE RIBBON HERO", divulgado pela Netflix

Do que se trata

Sapphire é princesa de um reino que não existe mais. Silverland, a terra dela, foi arrasada por uma calamidade chamada Nergal, e ela chega em Goldland sem nada, carregando o luto.

Aos poucos vai encontrando gente boa, um trabalho na mineração, alguma coisa parecida com paz. Aí Nergal aparece de novo. E é nesse ponto que ela decide que não vai perder nada nem deixar ninguém perder de novo. Amarra a fita e pega a espada.

A sinopse oficial resume com uma frase que dá bem o tom: é a história de uma heroína que decide enfrentar o próprio destino.

O detalhe que muda tudo: a obra original é o berço do shoujo

THE RIBBON HERO é inspirado em Ribon no Kishi, ou A Princesa e o Cavaleiro, que Osamu Tezuka publicou a partir de 1953.

Aquele mangá é considerado o trabalho que estabeleceu o formato do mangá narrativo voltado para meninas. Antes dele, o que existia para o público infantojuvenil feminino era muito mais ilustração e história curta do que narrativa longa com arco e protagonista. Tezuka pegou a linguagem que ele mesmo tinha criado para o shounen e apontou para outro lado.

E a história dele era ousada de um jeito que ainda hoje impressiona. Sapphire nasce por engano com dois corações, o azul de menino e o rosa de menina, e é criada como príncipe para segurar o trono. A ideia de uma protagonista que transita entre papéis masculinos e femininos, que empunha espada e usa vestido, veio dali. Tezuka cresceu na cidade de Takarazuka, sede da companhia de teatro em que mulheres interpretam todos os papéis, inclusive os masculinos, e essa influência está estampada na obra.

Puxe a linha e você chega em Rosa de Versalhes, em Sailor Moon, em Utena. Boa parte da genealogia das garotas mágicas começa naquela fita.

A obra já tinha virado anime uma vez, em 1967, uma série de 52 episódios produzida pela Mushi Production e exibida na Fuji TV. Faz quase sessenta anos.

Só que o filme não conta essa história

Aqui está o ponto que vai render discussão.

THE RIBBON HERO não é adaptação, é releitura. A palavra usada nos materiais oficiais é "inspirado". A troca de corações, o disfarce de príncipe, a corte, o Duque Duralumin, nada disso aparece no trailer. O que aparece é uma fantasia sombria, com uma protagonista órfã de reino, uma ameaça monstruosa e trabalho braçal numa mina.

Ou seja, pegaram a obra que inventou um jeito de contar história para meninas e transformaram numa história de heroína contra o apocalipse. Pode dar muito certo e pode irritar bastante gente. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo.

Quem está por trás

A direção é de Yuki Igarashi, e esse nome merece atenção mesmo que você nunca tenha ouvido falar.

Igarashi é animador antes de ser diretor, e ficou conhecido por um feito específico: ele desenhou sozinho a animação do encerramento da primeira temporada de Jujutsu Kaisen. Aquela sequência inteira, que virou referência de estilo, saiu da mão de uma pessoa só. Depois dirigiu o episódio "Lop e Ochō" de Star Wars: Visions. THE RIBBON HERO é o primeiro longa dele.

A animação é do estúdio OUTLINE, com produção da Twin Engine. O design original dos personagens é de Kei Mochizuki, com participação de Mai Yoneyama. E a trilha é de Satoru Kōsaki, da MONACA, que assinou as músicas de Haruhi Suzumiya, Lucky Star e da série Monogatari.

O filme já foi exibido em Annecy, o maior festival de animação do mundo, na seção Annecy Presents, com o diretor participando de painel.

E o elenco tem uma escolha bem inusitada

Sapphire é dublada pela Saaya, da dupla de comédia Laland. Não é dubladora de carreira, é comediante, e escalar alguém de fora para carregar um protagonista é sempre uma aposta.

Além dela, três integrantes do elenco são VTubers da Nijisanji: Mito Tsukino, Runrun e Debidebi Debiru, todos interpretando colegas de Sapphire na mineração. Para os três, é a primeira vez dublando em uma produção de anime.

No elenco também aparecem nomes conhecidos como Kouki Uchiyama e Yoshimasa Hosoya.

Quando a primeira arte do filme foi divulgada, o assunto foi parar em primeiro lugar nos trends do Yahoo Japão e em terceiro nos trends do X por lá. Interesse tem.

Vale o play?

Tem tudo para ser uma das animações mais bonitas do ano, com um diretor que é animador de mão cheia estreando em longa e um estúdio novo com liberdade criativa. A dúvida não é técnica, é de expectativa: quem for esperando A Princesa e o Cavaleiro vai encontrar outra coisa.

Está no ar a partir deste sábado, só na Netflix.

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Comentários
2 comentários
Fhelipe1 mês atrás
Eita preula! 1953? meus pais não eram nem nascido kkkk como não tenho Netflix não vou assistir porém deve ser um bom filme.
JokeAutor1 mês atrás
Pois é... foi de onde se originou Sakura Card Captors, deve ser bom, eu adorava assistir Sakura...