Retornando:
E aí, pessoal da RB!, como vão todos? Como foi essa última semana sem o artigo periódico do Japanice? Muito difícil, não é? É, posso imaginar. Também fez muita falta pra mim, sem dúvida. Já que há pessoas que acompanham os artigos periodicamente, me vejo na obrigação de dar explicações sobre a ausência deles na última semana. Basicamente, o que ocorreu foi uma ligeira falta de tempo, mas eis que estou de volta e com um artigo no mínimo mais “leve” que os anteriores.
O ideal a ser seguido pelo Japanice, em linhas gerais, é escolher um tema relativo à cultura popular japonesa e debatê-lo ao longo da semana pelos programas e na forma de artigo. Vale lembrar que o horário foi alterado, e, a partir de agora, o Japanice vai ao ar todas às quartas das 17h às 18h, e aos sábados, das 10h às 11h.
Os temas mais sérios, como a máfia japonesa e suicídio fizeram parte dos assuntos abordados no último mês. Ambos são, sem sombra de dúvida, de enorme importância para a compreensão do Japão enquanto expressão cultural e social, e realmente ajudam muito se o objetivo é o aprofundamento nas características mais íntimas da cultura nipônica. Depois que passamos a compreender aspectos tão comuns ao Japão e seu povo, podemos ver reflexos disso nas mais variadas expressões, sejam elas populares ou não, como animes, mangás, games e tantas outras coisas. Dessa forma, deixarmos de lado aquele Japão engraçado e muitas vezes bizarro para nos concentrarmos em razões mais sérias de vez em quando é, sim, muito importante.
No entanto, voltarmos para um lado mais leve e engraçado do que a cultura japonesa pode nos oferecer uma vez ou outra também faz muito bem, não há como negar. Dessa forma, apresento-lhes o tema do programa e do artigo dessa semana: Comidas Estranhas do Japão!
Como sempre digo, o Japão é mestre quando o assunto é ser o mais estranho possível, ainda mais quando o quesito avaliado são os produtos lá produzidos. Um país onde máquinas de vender bananas não é lá uma coisa muito estranha, a quantidade de opções e sabores diferentes dos mais variados tipos de alimentos são, no mínimo, bem exóticos. Veja até onde a loucura japonesa pode ir e, se tiver a coragem e a oportunidade, experimente um dos petiscos e pratos apresentados.
A comida como ela é:
A culinária é e, inevitavelmente, sempre vai ser uma característica cultural determinante onde quer que seja. Afinal, os costumes mais primitivos e passados de geração em geração podem ser vistos, principalmente, na comida e na forma como ela é feita. No Japão, obviamente, essa relação funciona da mesma forma, e as refeições mais tradicionais, que de fato perduram até hoje, nos têm muito a dizer sobre seu povo.
Antes de qualquer coisa, devemos nos lembrar de que o Japão é um conjunto de ilhas, o chamado arquipélago. Pra quem não sabe, trata-se do maior e mais populoso de todo o planeta. No entanto, esse status não pertence àquela região à toa. O Japão se situa em uma área conhecida em português como “Círculo de Fogo”. Em linhas gerais, trata-se de uma área em que três placas tectônicas de proporções obviamente gigantescas se encontram, o que dá à região os mais variados tipo de relevo. Com exceção de algumas pequeníssimas áreas, absolutamente todo o território japonês é montanhoso. De Norte a Sul, em qualquer ilha, seja ela grande ou pequena, há montanhas — não gigantescamente altas, é verdade, mas, ainda assim, montanhas. Esse tipo de relevo se deve principalmente à ação das placas tectônicas, que teimam em roçar umas nas outras e produzir, dentre as enormes alterações no solo, os temíveis terremotos e tsunamis.
Decorar o bentō (marmita) é outro costume japonês
Dessa forma, o Japão não é o melhor lugar no mundo para se cultivar alguma coisa. Com um solo montanhoso, sujeito a todo tipo de desastres naturais, em uma região onde o clima não é totalmente ideal para a maioria das culturas agrárias, o que sobrou foi buscar alimento nas águas, afinal estamos falando de um território voltado para o mar. Assim, a composição básica da alimentação japonesa é constituída de alimentos provenientes do mar, além do arroz. É incrível como esse costume é extremamente benéfico, e, se hoje os japoneses têm a fama de serem todos magros, eles a devem a esse fato.
Seja peixe, fruto do mar, crustáceo, alga, ou qualquer outro ser que venha do mar, a culinária japonesa, de uma forma ou de outra, deu um jeito de incorporá-lo à sua concepção na grande parte das vezes. É claro que, aqui no Brasil, possuímos forte influência dos alimentos vindos do ambiente aquático; no entanto, ainda assim, nossos solos nos dão tudo o que precisamos para o cultivo, o que nos faz mais tradicionais nessa área, diferente dos japoneses. Assim, o povo japonês sempre foi muito acostumado a comer coisas diferentes do restante do mundo, até por conta de técnicas de preparo e espécies encontradas somente ali. O resultado é incrível. Basta dar uma olhada em um cardápio de um restaurante japonês: Polvos e lulas são o de menos, acreditem.
Mochi, as populares bolinhas de arroz
Assim, o paladar japonês já era acostumado com alimentos no mínimo exóticos para nós desde a antiguidade. Chegou a modernidade e o país se industrializou. Como já tive a oportunidade de dizer diversas outras vezes, devido ao fato do Japão ter se aberto ao mundo ocidental de forma bastante tardia, a invasão de produtos, costumes, tradições, culturas foi devastadora. Absolutamente tudo era novo para um povo ainda desacostumado com a possibilidade de interagir com outros povos. Juntamente com a incorporação e modificação de diversas culturas, o que considero mais importante, chegou ao Japão o conceito de industrialização, o que se aplicava de forma totalmente nova também à comida.
O país assimilou todo esse novo contexto e o resultado do paladar já tipicamente diferenciado e a industrialização é assustador. O país extrapolou em seus diversos produtos, causando uma verdadeira subcultura de alimentos totalmente bizarra e engraçada. Avalie as maiores provas a seguir:
Sorvetes e seus sabores:
Sim, isso é sorvete “sabor polvo”
É característica das fábricas alimentícias no Japão produzirem mil e um sabores diferentes destinados a seus produtos. Ao contrário do que geralmente ocorre aqui no Brasil, onde a variação radical de sabores costuma ser associada à riscos empresarias, no Japão eles apostam tudo o que têm para oferecer ao consumidor o que ele deseja e, mais ainda, o que ele não deseja.
No entanto, estamos falando não de sabores aceitáveis e até dignos de prova, e sim de variações extremamente bizarras até para eles. As regras mais básicas no que dizem respeito ao mínimo de bom-senso são totalmente quebradas pela criatividade e, de certa forma, loucura japonesa. Já experimentou sorvete sabor “asinha de frango”? E que tal abrir uma exceção para provar o sabor “carne de baleia”? Ah, sim, tem também o sabor “polvo”, algo que os japoneses ao menos são mais acostumados. A lista é grande, e há vários outros estilos: “língua de boi”; “carne de cobra”; e o estranhíssimo “curry indiano”. Acredite, isso realmente existe, é vendido no Japão.
Salgadinhos no mínimo curiosos:
Lula:
Não é tão convidativo ao meu ver.
Para fazer com que os alimentos durem mais e não percam seus nutrientes, uma forma bem básica e eficiente é desidratá-los por completo. É o que acontece com o miojo, produto de extremo sucesso internacional e idealizado no Japão. Dessa forma, toda a água que puder ser retirada de fato será, e o alimento manterá a maioria de seus componentes. No entanto, nem todos os eles são passíveis de sofrerem a ação da técnica de desidratação, afinal, além de não serem biologicamente preparados para isso, o resultado final pode ser bem estranho.
Peixinhos secos:
É só abrir e comer
Funciona basicamente como uma Ruffles. Só que, no lugar das batatinhas, estão pedaços inteiros de peixes, que obviamente passam por um processo para torná-los consumíveis a longo prazo. É só abrir em qualquer lugar que você esteja e comer quantos peixinhos desejar.
Caranguejos salgadinhos:
Também é comercializado da mesma forma que os salgadinhos que conhecemos. Os pequenos caranguejos são desidratados e postos dentro de uma embalagem de alumínio, semelhante a um exemplar de Doritos, por exemplo.
Restaurantes temáticos:
Comidas tão estranhas como essas não podiam simplesmente ser apreciadas sem nenhum tipo de interação entre as pessoas. Mais do que os alimentos famosos o suficiente para serem produzidos em larga escala e vendidos em produção de massa, os pratos mais bizarros são de fato encontrados em restaurantes de natureza ainda mais duvidosa.
São de extrema apreciação japonesa os restaurantes temáticos e suas formas de atendimento. Cada um deles possui um ideal que deve seguir para fazer com que seu cliente se sinta o mais próximo possível do tema em questão. Absolutamente tudo nesses tipos de restaurantes é feito pensando em como seus clientes podem se sentir o mais à vontade possível para que o efeito desejado possa ser de fato simulado com sucesso. Seja na forma como os garçons se vestem e falam, na mesa onde os clientes comem, na luz, na decoração e, principalmente, na comida, todo o esquema é planejado seguindo sempre o princípio da fidelidade absoluta.
Bar inspirado em Super Mario Bros.
Dessa forma, existem no Japão diversos tipos de restaurantes temáticos, como os que tentam emular o estilo de vida ninja, os que são planejados para que você se sinta em uma prisão, até aqueles em que o cenário medieval europeu é o foco, com toda a fantasia com que ele tem direito.
Ligeiras representações:
Decerto que relacionar comida e comportamento faz, sim, todo o sentido, afinal trata-se de uma manifestação cultural de extrema importância, como qualquer outra. Desde a forma como os japoneses comem até suas espécies de rituais para fazê-lo, como agradecer antes e depois, são aspectos que nos remetem ao lado mais disciplinado e honrado do Japão. A palavra itadakimasu, por exemplo, é um agradecimento a todas as pessoas que fizeram com que o arroz a ser degustado pudesse chegar aonde ele está no momento, desde quem o plantou até quem o pôs na mesa. A culinária tradicional japonesa, em si, é uma manifestação, acima de tudo, bem complexa e rica no que diz respeito a todo o Japão.
A maior abstração que podemos retirar da existência de alimentos tão estranhos presentes hoje no Japão é a de que a industrialização e a modernização japonesa aconteceram de forma tão rápida e, ao mesmo tempo, tão eficiente, que acabou por originar alguns excedentes diferenciados. A forma extremamente forte com que diversos ideais estrangeiros adentraram o território japonês fez com que o a cultura japonesa não conseguisse de fato absorver todo o enorme contingente de mudanças que vinham acontecendo de forma desenfreada. Tal mudança tão radical na vida e nas concepções japonesas acabou por extrapolar certos limites, sem sombra de dúvida.
Por fim:
Há realmente muito mais exemplos de natureza tão esquisita quanto os citados aqui. O Japão é um país plural, e é em manifestações como essa que podemos ver toda sua pluralidade, mesmo que ela seja, de alguma forma, não tão útil quanto às outras manifestações culturais são.
É certo que esse tipo de conhecimento que nos leva a um lado mais profundo no que diz respeito à cultura popular não é, de certa forma, tão informativo e útil quanto aquele que diz sobre características sociais mais específicas e dignas de serem conhecidas. No entanto, de vez em quando, alguns exemplos concretos do que podemos perceber no aspecto mais geral da sociedade são bem-vindos, sem dúvida. É a partir de manifestações tão simples e estranhas como essas, que conhecemos um povo em sua completa extensão cultural e intelectual.
Bem, com um tema sem dúvidas mais leve que os anteriores, espero que o resultado seja, mais uma vez, positivo e que agora mais um aspecto do Japão tenha sido adicionado às pessoas que realmente o admiram. Espero que tenham gostado, afinal, de vez em quando, todos nós precisamos rir um pouco.
Vejo vocês nos programas ao longo da semana ou no artigo da próxima, até lá e obrigado!
Publicação original de 17/09/2011. 8 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.