O movimento Stop Killing Games pode estar diante de uma batalha muito mais difícil do que seus apoiadores imaginam. Para a Dra. Ceila Pontin, especialista em políticas de jogos digitais da Flux Digital Policy, a legislação atual cria tantos obstáculos para as demandas da campanha que uma mudança estrutural pode ser extremamente difícil de alcançar.

Em entrevista ao podcast The Game Business, Pontin argumentou que os direitos do consumidor e os termos de serviço já estabelecem boa parte das regras que determinam o que acontece quando uma empresa decide encerrar um jogo live-service. Na avaliação da especialista, conseguir ir além dessas proteções existentes exigiria superar uma série de barreiras jurídicas, tecnológicas e regulatórias.

“Os direitos do consumidor estão sendo violados? Bem, eles já existem para serem violados”, afirmou Pontin. Segundo ela, os termos de serviço fornecem “uma base” para definir como publishers e consumidores devem se comportar diante do encerramento repentino de um jogo online.

O Stop Killing Games surgiu em 2024, principalmente como reação ao encerramento de The Crew, jogo de corrida lançado pela Ubisoft em 2014. Após os servidores serem desligados, o título se tornou completamente inacessível, inclusive para pessoas que haviam comprado o jogo.

O episódio acabou se tornando um símbolo para os apoiadores da campanha, que defendem que consumidores deveriam continuar tendo alguma forma de acesso aos jogos que compraram mesmo depois que as empresas deixarem de oferecer suporte oficial.

Desde então, porém, o movimento encontrou uma série de obstáculos. Publishers europeias argumentaram que obrigar empresas a manter jogos online funcionando ou entregar seus servidores e ferramentas à comunidade poderia tornar a manutenção desses títulos “proibitivamente cara”. Mais recentemente, a União Europeia também rejeitou um apelo do movimento por medidas adicionais de proteção aos consumidores nesse tipo de situação.

Um dos maiores problemas apontados por Pontin está relacionado ao copyright. Segundo a especialista, um jogo não é uma propriedade única e simples, mas uma combinação de inúmeros elementos protegidos por direitos autorais, incluindo código, personagens, arte, música, dublagem e outros componentes.

Pontin compara essa estrutura a uma “névoa de nuvem de todos esses diferentes e minúsculos pedaços de copyright interconectados”. Por isso, simplesmente entregar um jogo encerrado para que os próprios jogadores mantenham seus servidores funcionando seria juridicamente muito mais complicado do que pode parecer.

“Se você está falando em entregar um jogo aos fãs, essa não é uma forma muito simples de pensar sob certos aspectos da lei, certo?”, explicou.

O próprio Stop Killing Games utiliza uma ideia simples para defender sua posição: “se você compra um bem, ele não deveria se autodestruir”. Para Pontin, entretanto, essa lógica não se encaixa necessariamente na forma como a legislação trata produtos digitais e serviços online.

“Não é assim que funciona em outras áreas da regulação. E acho que é difícil para pessoas que nunca se depararam com essa ideia antes entenderem isso imediatamente.”

Apesar de sua avaliação pessimista sobre as possibilidades jurídicas da campanha, Pontin reconhece que existe uma motivação legítima por trás do movimento. Ela afirma compreender a frustração de jogadores que investiram dinheiro e tempo em um título e depois perderam completamente a possibilidade de continuar utilizando aquele produto.

A especialista também admite que as discussões em torno do Stop Killing Games estão sendo conduzidas “de forma séria e, creio, bastante intensa”. O problema, segundo ela, está na diferença entre aquilo que os consumidores gostariam que acontecesse e aquilo que pode efetivamente ser implementado dentro da legislação atual.

No fim, a avaliação de Pontin é pouco animadora para os apoiadores da campanha: pode existir uma solução considerada ideal por parte dos jogadores, mas isso não significa necessariamente que ela seja juridicamente viável ou que consiga ser implementada na prática.

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Comentários
1 comentários
Fhelipe4 semanas atrás
A solução é a pirataria não tem como .