Hideo Kojima publicou na noite de quarta-feira (9) o texto que ninguém no fandom de Metal Gear queria ler: a PlayStation Studios cancelou o Physint. O jogo não morreu, mas mudou de casa. Quem vai publicar agora é a Xbox.
O aviso chegou à Kojima Productions em meados de junho, sem vazamento, sem recado prévio, sem nota conjunta. O estúdio passou os três meses seguintes procurando outro parceiro em silêncio, conversando com gente de várias áreas, até fechar com a Microsoft. Segundo Kojima, o desenvolvimento nunca chegou a parar.
"Determinados a manter o projeto vivo, passamos os últimos três meses procurando incansavelmente por um novo parceiro."
Hideo Kojima, em publicação no X, 9 de setembro de 2026
No mesmo bloco de posts, a PlayStation confirmou a saída com a frase mais fria possível.
An update from PlayStation Studios: After careful consideration, we have made the difficult decision to step away from collaborating with KOJIMA PRODUCTIONS on its project PHYSINT. We continue to have great admiration for Hideo Kojima's vision for the game.
— PlayStation (@PlayStation) Ver post
Afinal, o que é o Physint?
Se você entrou no universo Kojima pela porta do Death Stranding, o Physint é o projeto em que ele volta para o gênero que praticamente inventou. O anúncio foi em 31 de janeiro de 2024, feito pela Sony Interactive Entertainment e pela Kojima Productions, com a descrição de "jogo de ação e espionagem de próxima geração".
A origem do projeto é bem menos glamourosa do que o marketing sugeriu. Kojima ficou hospitalizado e, na cama, recebeu recados de fãs e de gente da indústria pedindo a mesma coisa: faz mais um jogo de espionagem. Ele resolveu fazer.
A ambição declarada é a de sempre, só que maior. Kojima quer um produto que seja jogo e filme ao mesmo tempo, do visual à trilha, passando por elenco, atuação e figurino, com a intenção explícita de "transcender as barreiras entre cinema e videogame". No anúncio ele lembrou que Sony e Kojima Productions tinham quase 30 anos de história construindo o gênero espionagem juntas. Envelheceu mal.
Em 23 de setembro de 2025, no evento Beyond the Strand, em Tóquio, o projeto ganhou pôster e elenco. A arte mostra o protagonista em silhueta, de sobretudo e submetralhadora, contra torres urbanas escuras, com a linha "Here Comes the Feeling". O elenco confirmado até agora tem três nomes:
- Charlee Fraser, australiana, de Furiosa: Uma Saga Mad Max
- Don Lee, sul-coreano, de Invasão Zumbi e Eternos
- Minami Hamabe, japonesa, de Godzilla Minus One
No mesmo evento, Kojima afirmou que a tecnologia usada no jogo vai superar a fidelidade visual da Decima Engine, o motor de Death Stranding 2. Para provar, exibiu um modelo fotorrealista da Minami Hamabe.
Sobre prazo, ele já tinha avisado em 2024 que faltavam de cinco a seis anos. Ou seja: o Physint nunca foi um jogo de 2026. É um jogo do começo da década de 2030, provavelmente de uma geração de consoles que ainda nem existe nas lojas.
A cronologia da queda
- 31 de janeiro de 2024: Sony e Kojima Productions anunciam o Physint juntas
- 26 de junho de 2025: Death Stranding 2: On the Beach chega ao PS5 e libera o estúdio para tocar o projeto
- 23 de setembro de 2025: pôster e elenco revelados no Beyond the Strand
- Meados de junho de 2026: a PlayStation Studios avisa a Kojima Productions que vai cancelar
- 9 de setembro de 2026: Xbox anuncia que assume a publicação, e Kojima conta publicamente o que aconteceu
A Sony não deu motivo. Falou em "decisão difícil" e em "grande admiração" pela visão do diretor, e parou por aí. A Xbox, do outro lado, fez questão de escolher palavras que soam como recado. "Criadores têm escolhas sobre onde e como dar vida às suas ideias", disse Asha Sharma, CEO da Xbox. "É uma honra que Kojima-san tenha escolhido a XBOX."
O acordo vai além do jogo. Xbox e Kojima Productions também vão trabalhar juntas em cinema e televisão, e o Physint se junta a OD, o projeto de terror que o estúdio já desenvolve com a Microsoft desde 2023.
O detalhe que quase ninguém está comentando
Aqui vale parar um segundo, porque tem uma camada nessa história que passa batido em quem lê só a manchete de console war.
A Sony é japonesa. A Kojima Productions é um estúdio independente japonês, sediado em Tóquio. O Physint tem atriz japonesa no elenco, motor gráfico apresentado em evento japonês e é a obra que Kojima chama de coroamento de 40 anos de carreira dentro da indústria japonesa de games. E foi uma empresa japonesa que puxou o tapete.
É a segunda vez. Em 2015 quem cortou o cordão foi a Konami, também japonesa, no episódio mais feio da carreira dele, com nome apagado da capa de Metal Gear Solid V e tudo. Kojima montou o próprio estúdio e o primeiro a estender a mão foi justamente a PlayStation, que bancou Death Stranding quando ninguém mais bancaria. Onze anos depois, o roteiro se repete com outro logotipo.
E não é coincidência solta. A PlayStation de hoje não é a de 1998. A sede da Sony Interactive Entertainment fica em San Mateo, na Califórnia, desde 2016. O Japan Studio, casa de ICO, Shadow of the Colossus, Gravity Rush e Patapon, foi esvaziado em 2021 e sobrou dele o Team Asobi. A marca continua japonesa no sobrenome e cada vez menos no dia a dia. O Physint virou mais uma linha nessa conta.
Uma decisão duvidosa atrás da outra
O cancelamento do Physint não é um evento isolado. É o capítulo mais recente de uma sequência que já dura dois anos.
Em agosto de 2024, a Sony lançou Concord, o hero shooter da Firewalk Studios. O jogo ficou catorze dias no ar. Os servidores foram desligados em 6 de setembro daquele ano, com reembolso para todo mundo, e a Firewalk foi fechada em outubro. Foi o fracasso mais rápido e mais caro da história recente do PlayStation.
De lá pra cá, o corte virou rotina. A Bend Studio, de Days Gone, teve o jogo live service cancelado e perdeu 30% da equipe. A Bluepoint Games, responsável pelos remakes de Demon's Souls e Shadow of the Colossus, teve o spin-off de God of War cancelado em janeiro de 2025 e foi fechada em 19 de fevereiro de 2026, com cerca de 70 pessoas na rua. O motivo oficial foi "uma revisão de negócios recente".
E aí tem a Bungie, que é o caso mais caro de todos. A Sony comprou o estúdio em 2022 por US$ 3,6 bilhões apostando em live service. Em 9 de maio de 2026, ao divulgar o resultado fiscal, reconheceu uma baixa contábil de US$ 765 milhões ligada à Bungie, empurrada pelos problemas de Marathon e pela queda de retenção e monetização de Destiny 2.
Um mês depois veio o enterro. Em 9 de junho de 2026, o Destiny 2 recebeu Monument of Triumph, o último update de conteúdo ao vivo depois de nove anos. A Bungie garantiu que o jogo segue jogável, do mesmo jeito que o Destiny original segue jogável hoje. Traduzindo: o mundo congelou. Não vem mais história, não vem mais loot, não vem mais segredo pra comunidade caçar.
Repare no calendário. O write-down de US$ 765 milhões saiu em 9 de maio. O Destiny 2 foi encerrado em 9 de junho. O aviso de cancelamento do Physint chegou à Kojima Productions em meados de junho. É a mesma janela de decisão, e ela tem cara de planilha, não de curadoria.
Dá pra defender a Sony em parte. Cortar live service e voltar a apostar em single-player é literalmente o que o público pediu depois do Concord. O problema é que o Physint era exatamente isso. Um single-player autoral, com um dos poucos nomes do mundo que ainda vende jogo por assinatura de diretor. Se nem esse projeto passa no filtro, fica difícil entender qual é o filtro.
E agora?
Não há data, não há plataformas confirmadas e não há detalhe de exclusividade. A Xbox de 2026 publica em vários lugares, então nada garante que o Physint seja um exclusivo fechado. O que existe é um estúdio japonês independente que perdeu o financiador no meio do caminho, achou outro em três meses e voltou a andar.
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