Para deixar o K-pop subir no Palco Mundo, o Rock in Rio precisou primeiro mexer no próprio regulamento. Bastão de luz nunca tinha sido liberado na Cidade do Rock em 41 anos de festival. Na sexta-feira, 11 de setembro, passou a ser, com regra e tudo: até 24 centímetros de altura e 400 gramas. O resultado foi um mar de luz colorida na frente do palco principal que nenhuma edição anterior tinha visto.
Esse detalhe burocrático explica melhor o que aconteceu naquele dia do que qualquer adjetivo. Não foi só um gênero musical entrando na programação. Foi uma cultura de plateia inteira, com suas regras próprias, entrando junto e obrigando a casa a se adaptar.
Quem tocou no dia 11
O primeiro show do dia não foi de K-pop. Quem abriu a Cidade do Rock foi Muse Maya, às 14h30, no Palco Supernova. No Palco Mundo, a ordem foi NEXZ às 16h40, Hwasa às 19h, Alok às 21h20 e Stray Kids à 0h05.
O restante da grade seguiu a lógica normal do festival, sem tema oriental: Jota.Pê com Luedji Luna e Zaynara, Os Garotin com Duquesa, PJ Morton e Jamiroquai no Sunset, MC Cabelinho e MC Carol no Espaço Favela, Anna e Departamento no New Dance Order. O dia do K-pop, na prática, foi o Palco Mundo inteiro.
NEXZ: a abertura do dia e um bis repetido três vezes
O septeto formado pela JYP em parceria com a Sony Music Japan abriu tudo dando mortais e pulando por cima uns dos outros, de camiseta de banda de rock. Tocaram Beat-Boxer, LOCO, I'm Him, Want More? One More!, Mmchk e SAUCIN'.
A música que ficou foi SAUCIN', e não por pouco: eles repetiram a faixa três vezes, incluindo um bis que o público pediu. Falaram português o show inteiro, com direito a "nossa, quanta gente!" na cara de um Palco Mundo já cheio às cinco da tarde.
É o grupo mais novo da noite, com estreia em maio de 2024, e o único formado no Japão. Essa dupla identidade rendeu uma história paralela ao show, que a gente contou nesta outra matéria.
Hwasa: a primeira solista de K-pop no Palco Mundo
Hwasa entrou às 19h e virou a primeira artista solo de K-pop a ocupar o palco principal do Rock in Rio. Puxou Maria, TWIT e I Love My Body, brincou com a plateia entre uma música e outra e voltou ao Brasil pela primeira vez desde 2018.
O momento de maior reação, porém, não foi de carreira solo. Foi o medley do MAMAMOO, com Décalcomanie e Egotistic, que fez o público que cresceu com o grupo na década passada perder a linha. Foi também o trecho que o Multishow escolheu recortar com o título "entregou tudo".
Alok: 1.500 drones e uma faixa que ninguém identificou
O brasileiro da noite entrou às 21h20 com o projeto Keep Art Human, que é a resposta dele ao debate sobre inteligência artificial na música. Foram 45 bailarinos, uma escultura gigante de mão em volta da cabine e 1.500 drones desenhando cenário no céu do Parque Olímpico.
No meio do set, ele soltou uma faixa inédita feita com um grupo feminino de K-pop e não disse quem era. A parceria deve aparecer num show dele na Coreia do Sul em outubro. Alok também rodou material de BLACKPINK e KATSEYE, costurando o set ao tema da noite em vez de fingir que estava em qualquer outro dia do festival.
Stray Kids: 1h35 de headliner e Michel Teló em pleno Palco Mundo
O show começou por volta de 0h10 e durou 1h35. Entraram com TOPLINE depois de uma caminhada de bastidor projetada no telão, emendaram S-Class, MANIAC, DOMINO e Thunderous, e soltaram fogos no meio do set, durante LALALALA, em vez de guardar tudo para o final.
O bis é onde mora a história. Depois de This & That, o grupo puxou um trecho de Ai Se Eu Te Pego, de Michel Teló. Não era improviso total: Bang Chan já tinha cantado a música no Engenhão em 2025, no show que reuniu 55 mil pessoas e travou o trânsito do Méier ao Riachuelo. Fecharam com Chk Chk Boom e com Hall of Fame, pedida pela plateia.
O que o Rock in Rio já fez antes
Vale lembrar que o festival não estava estreando na arte de irritar o público do rock. Em 2001, Britney Spears e 'N Sync entraram num Palco Mundo que ainda era tratado como território sagrado de guitarra, e a discussão foi a mesma que rolou agora nas redes: isso é Rock in Rio?
A diferença é que, em 2026, a aposta veio com planilha embaixo do braço. Zé Ricardo, vice-presidente de direção artística da Rock World, disse que a estreia do K-pop "mostra toda a potência de um movimento cultural que ultrapassou fronteiras". Por trás da frase estão os 25 a 30 milhões de fãs do gênero na América Latina e o crescimento de streaming desde 2018 que a organização usou para justificar o dia.
E tem o dado que a gente acha mais revelador. Segundo levantamento feito na Cidade do Rock, fã de K-pop gastou até R$ 600 em item de fandom naquele dia. Lightstick chegando a R$ 560, Skzoo de R$ 100 a R$ 310, photocard rolando em troca no chão do festival como figurinha de álbum. Isso é comportamento de plateia oriental importado inteiro, sem adaptação, para dentro de um festival brasileiro de rock. Funcionou.
Vai ter de novo?
Fica registrado que foi um dia só. O Rock in Rio 2026 teve sete datas, de 4 a 13 de setembro, e o K-pop ocupou apenas a sexta-feira 11. Nenhum outro artista asiático apareceu na grade das outras seis. Somadas, as sete datas levaram 700 mil pessoas ao Parque Olímpico.
A próxima edição já está confirmada para setembro de 2028, e a pergunta sobre a volta do gênero foi feita direto para Roberta Medina, vice-presidente executiva da Rock World. A resposta:
Eu espero que sim. A gente está trabalhando nisso.
Roberta Medina, vice-presidente executiva da Rock World, sobre um novo dia de K-pop em 2028
Ela citou a dificuldade de agenda desse tipo de artista como o obstáculo real, não a vontade do festival. E fez questão de registrar que o público do dia, o mais jovem da edição, com criança e adolescente acompanhados dos pais, se comportou de um jeito "extremamente leve, extremamente harmônico". Traduzindo do idioma de organizador de evento: deu zero trabalho e encheu a Cidade do Rock.
O que fica
O dia 11 de setembro de 2026 entra na conta da Blast como o dia em que a cultura oriental deixou de ser atração exótica no Brasil e virou item de line-up de festival grande, com regra própria no regulamento e faixa de horário nobre. Levou vinte anos desde que a gente começou a escrever sobre isso num fórum de Uberlândia.
Agora a gente quer saber de você: qual foi o melhor momento do dia? O bis triplo de SAUCIN', o medley do MAMAMOO, os drones do Alok ou o Michel Teló em versão coreana? Vota na enquete e conta nos comentários quem você quer ver no Palco Mundo em 2028.