Houve um dia que entrou para a história, não pelo acontecido, mas pelo resultado. Eu não estava presente, mas ainda ouço grandes histórias do que foi conhecido como “o dia B!”. Disseram-me que adiantaram essa revolução, que saiu antes do previsto. Era uma questão de emergência e, até então, poucos sabiam de seu planejamento. Apenas os homens que guardavam todas as informações e alguns membros de confiança participavam dessa experiência; até hoje, porém, é desconhecida a pessoa que apresentou o projeto.

Todas os envolvidos, não importa a sua localidade, estavam unidos, contudo sem direção; era de conhecimento comum que o tudo passaria por modificações drásticas. Um grande lançamento, de algo ainda desconhecido, apavorava a todos. Este não era conhecido sequer pelos membros de confiança. A sua chegada era muito esperada pelos grandes Sábios, mas suas conseqüências ninguém poderia imaginar, seja para o bem de tudo ou não.

O dia do grande lançamento chegou, e para sorte de todos, o projeto deu certo. Aqueles que ali governavam ganharam a admiração de seus tão preciosos ouvintes e aqueles mais próximos passaram a respeitá-los ainda mais. Mas ainda não era suficiente. A ameaça de tudo se perder, ser invadido por uma força maior e incontrolável, vinda de cada um que ali habitava, ainda permanecia – e foi aí que um daqueles de confiança se destacou.

A idéia de um ataque único, surpreendente, começara a ser elaborada. Dias, semanas e meses se passaram sem que ninguém percebesse a sua criação. A ameaça de um sistema novamente perdido crescia a cada momento, até se tornar insuportável. Os grandes Sábios não tiveram outra escolha a não ser usar aquela medida irreversível.

Em uma união jamais vista pelas pessoas, todos aqueles que faziam parte colaboraram: partiram e atacaram, ao mesmo tempo, a fonte temida e a única e melhor forma de fazê-lo era ignorando-a. Por um dia inteiro, ninguém citou seu nome. Até a terra girar por completa, a criatura se calou e foi calada – isso bastou. A partir de então, o fantasma de um trabalho repetido mecanicamente dia após dia desapareceu. Cultura e informação planavam sobre todos. Cada qual responsável por sua função a realizava de modo único. Essas pessoas tinham, finalmente, sua identidade. Com o tempo, viajantes vindos de vários outros lugares se juntarem a este, pois era diference; diferente de qualquer outro, diferente até mesmo de si.

Assim, essa história é repetida até hoje. De uma guerra travada consigo mesmo, onde cada pessoa lutava por si. Uma guerra que não foi necessário o uso de armas ou mísseis. Uma guerra contra a mesmice, contra a perda de individualidade, contra a futilidade. E assim permaneceu, até o dia que um se esquecesse e quebrasse o sigilo.

Se algum dia esta carta chegar às mãos de outra pessoa, é porque a essência de cada indivíduo foi quebrada, escravizada por um senso comum. Peço ao portador desta que reconte a história, para que tudo volte a ser, mais uma vez, como já foi um dia: todos diferentes entre si, mas com a sua individualidade e valor. É com esse objetivo que relato o que um dia meus pais me contaram, o que passei ao meu filho e foi passado ao filho, até o dia que parte se perdeu.

PS: A criatura se chamava “Indiferença”. Dominou aos poucos e apenas uma arma foi usada, que lhe conto em segredo: Uma grande explosão no interior das pessoas. Uma explosão de variedade, cultura e humanismo que soou como Blast!, enfim, uma explosão de conteúdo.

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