Yoshiyuki Tomino, criador de Mobile Suit Gundam, aproveitou uma entrevista recente para fazer duras críticas ao estado atual do anime e do cinema. Para o diretor, a indústria perdeu parte do que chama de "senso de encantamento" ao priorizar imagens tecnicamente impressionantes em detrimento da narrativa e da linguagem cinematográfica.
As declarações foram dadas ao veículo japonês Kyodo News durante uma entrevista realizada para celebrar uma conquista importante na carreira de Tomino. Em abril deste ano, o diretor recebeu a Ordem do Sol Nascente com Faixa e Medalha de Ouro, uma das mais prestigiosas condecorações concedidas pelo governo japonês. A ocasião também serviu para que ele refletisse sobre seus mais de 50 anos de carreira e os rumos da animação nas últimas gerações.
Tomino foi direto ao falar sobre o papel de um diretor em uma produção. Segundo ele, a facilidade proporcionada pelas ferramentas digitais não substitui os fundamentos da direção. "Na era digital, há pessoas que simplesmente filmam imagens panorâmicas sem uma história real e chamam isso de 'filmes'. O que quero dizer é, isso não é direção."
O diretor explicou o que entende por "senso de encantamento" usando a própria linguagem cinematográfica como exemplo. Segundo Tomino, depois de cinco ou seis planos convencionais, uma produção poderia apresentar um enquadramento que levasse o espectador a acompanhar os personagens com os próprios olhos. Em seguida, um cenário amplo e grandioso faria o público procurar os personagens dentro daquele espaço.
"Esse processo de busca é de onde vem o 'senso de encantamento'", explicou.
Para Tomino, produções contemporâneas muitas vezes priorizam imagens bonitas, CGI e cenários panorâmicos simplesmente porque essas ferramentas estão disponíveis, sem necessariamente utilizá-las para contribuir com a narrativa. Na visão do diretor, a tecnologia evoluiu mais rapidamente do que a própria linguagem de direção.
A computação gráfica foi um dos principais alvos de suas críticas. Tomino reconhece que a CG é uma ferramenta extremamente conveniente, capaz de copiar, movimentar e reproduzir objetos com grande liberdade. O problema, segundo ele, aparece quando uma produção sente a necessidade de exibir esses recursos apenas porque eles foram trabalhosos ou caros de produzir.
"A CG é uma ferramenta bastante conveniente que permite copiar ou mover objetos livremente. No entanto, há tantos animes e filmes que tentam desesperadamente exibir a CG simplesmente porque se deram ao trabalho de produzi-la. Esquecemos os princípios de direção e narrativa que dão aos filmes o seu senso de encantamento", afirmou.
A obsessão por imagens extremamente detalhadas também incomoda o criador de Gundam. Tomino citou como exemplo os close-ups de alta resolução capazes de revelar detalhes mínimos do rosto dos atores.
"Há algo que me incomoda ultimamente. As imagens ficaram com resolução alta demais, então quando há um close-up tão detalhado que você consegue ver os poros da pele, fico pensando: será que realmente está tudo bem eles aparecerem? Há personagens cujos poros não queremos ver."
Na opinião do diretor, a tecnologia também acabou criando uma espécie de dependência. Com câmeras e ferramentas capazes de produzir imagens cada vez mais impressionantes, alguns profissionais podem acabar escolhendo o caminho mais fácil em vez de pensar em como cada enquadramento contribui para a encenação.
Quando questionado sobre a inteligência artificial generativa, Tomino reconheceu que a tecnologia está se tornando cada vez mais conveniente, mas apontou outro problema: a capacidade de avaliar se determinado recurso realmente funciona dentro de um drama.
"Sinto que o 'olho do diretor' realmente não está sendo exercitado nos dias de hoje. No caso dos close-ups, você consegue obter tomadas tão convenientes e boas que o ator só precisa ser um pouco bom para sustentar a cena."
A preocupação, portanto, não parece estar apenas na tecnologia em si, mas na maneira como ela é utilizada. Para Tomino, ferramentas cada vez mais poderosas precisam ser acompanhadas de profissionais capazes de decidir quando determinada imagem, efeito ou recurso realmente serve à história.
Sua conclusão foi um chamado para que a indústria volte a prestar atenção à própria encenação dramática. "Há filmes que até se esquecem de seguir a narrativa. O que estou tentando dizer é que precisamos fazer um esforço para retratar o processo da própria encenação dramática."
Apesar das críticas, Tomino deixou claro que continua trabalhando. O diretor confirmou que está atualmente envolvido em um projeto inédito, embora tenha preferido não revelar detalhes sobre sua próxima produção.