A Rockstar finalmente quebrou o silêncio. Depois de meses de gente vasculhando pixel de trailer atrás de pista, o estúdio anunciou o Grand Theft Auto VI: An Extended Look, uma apresentação estendida do jogo que estreia no dia 27 de agosto. E ela não estreia no YouTube, estreia na Netflix.
A exibição começa às 16h de Brasília, exclusiva pra quem tem assinatura. Seis horas depois, às 22h, o mesmo vídeo vai pro canal oficial da Rockstar no YouTube e pro site do GTA VI. Ou seja, ninguém fica de fora, mas quem paga Netflix vê antes.
A própria Netflix chamou a parceria de inédita, e é isso mesmo. Trailer de jogo grande sempre foi assunto de evento de games, de Game Awards, de canal do estúdio. Estrear como se fosse especial de streaming é coisa nova.
A Netflix quer entrar no mundo dos games faz tempo
E isso aqui não é um movimento solto. A Netflix tenta emplacar games desde 2021, quando lançou um catálogo de jogos mobile dentro do app. Não colou. As estimativas de mercado apontavam que menos de 1% dos assinantes chegaram a baixar alguma coisa.
De uns tempos pra cá a estratégia mudou. A aposta agora é em jogos na nuvem, rodando direto na TV, sem console, com o celular servindo de controle. Party game de sala, Boggle, Pictionary, LEGO Party, esse tipo de coisa. E deu certo. A empresa disse que cerca de um terço dos assinantes já tem acesso a jogos pela TV.
Tem também um detalhe que faz essa parceria fazer bem mais sentido do que parece à primeira vista: a Rockstar já é de casa. A trilogia clássica do GTA e o Red Dead Redemption estão no catálogo da Netflix Games faz um tempo, e a própria empresa admitiu em call de resultados que foram dois dos títulos que melhor performaram por lá. Não é uma sacada de marketing aleatória, é uma relação que já existia.
Agora a parte que ninguém está contando
Enquanto o mundo inteiro conta os dias pro dia 27, tem um país onde a espera é bem diferente. No Japão, a galera está tão hypada quanto aqui, mas com uma preocupação que não passa pela nossa cabeça: eles não sabem qual versão do jogo vão receber.
Isso não é figura de linguagem. É literal.
O GTA mudou a lei japonesa
Volta pra 2005. O GTA III já era sucesso mundial e vendia normalmente no Japão, publicado por lá pela Capcom. Aí, em 7 de junho daquele ano, a província de Kanagawa enquadrou o jogo como "publicação nociva", a mesma categoria legal usada pra material adulto. Foi o primeiro jogo de console da história do país a levar essa designação.
Na prática, virou proibido vender pra menor de 18, obrigatório manter em prateleira separada, e multa pra loja que descumprisse. A Capcom brigou publicamente, disse que o critério era vago e chegou a estudar ação judicial contra o estado. Não adiantou nada. Ishikawa, Saitama e Osaka vieram atrás, e em julho a medida já valia praticamente no país inteiro.
A resposta da indústria foi criar, no ano seguinte, a classificação Z do CERO, a faixa 18 anos com restrição legal de venda que existe até hoje no Japão.
Só que a classificação Z tem uma pegadinha, e é aqui que está a diferença real.
No Japão, o 18 anos não é o teto
Aqui no Brasil, quando um jogo recebe 18 anos, você joga ele inteiro. O selo diz quem pode comprar, não o que vai ter dentro.
No Japão funciona ao contrário. Acima do Z existe uma lista de expressões proibidas do CERO, e um jogo que contenha qualquer uma delas simplesmente não recebe classificação nenhuma. Sem classificação, não pode ser distribuído. Então a escolha da produtora não é "lança sem corte e põe 18". É cortar ou não vender.
Resultado: os japoneses nunca jogaram um GTA 100% original.
O que foi cortado do GTA V por lá
A versão japonesa do GTA V é um jogo diferente do que rodou aqui. Entre as mudanças relatadas por jogadores japoneses:
- A cena de sexo na apresentação do Trevor foi cortada.
- Nas cenas com prostitutas, a câmera fica travada e você não escolhe nada.
- A vila de moradores nus virou uma vila de gente de roupão e roupa de baixo.
- Na missão do paparazzo, o flagra de sexo virou um bate-papo.
- E o mais pesado: a cena de tortura da missão "By the Book" não existe. Aquela sequência que gerou debate no mundo inteiro sobre tortura interativa em videogame, o público japonês nunca jogou.
E o GTA 6?
Está em compasso de espera. A pré-venda no Japão já abriu, com preço, edições e bônus todos definidos, mas a ficha do CERO segue como análise prevista. Ainda não tem classificação.
Faz sentido, porque pra classificar eles precisam ter o jogo em mãos e avaliar tudo o que acontece nele. E o GTA 6 ainda não está pronto, sai só em 19 de novembro.
O problema é o que isso significa pra quem já pagou. O japonês fez a pré-venda de um jogo sem saber se vai receber a versão completa ou uma versão editada. E como o histórico da franquia por lá é o que é, a aposta da maioria é que vem corte.
Por isso tem gente cancelando pré-venda e partindo pra importação. Descobriram que a versão norte-americana traz interface e legendas em japonês, o que significa que dá pra fugir do corte e ainda jogar traduzido. Fóruns e blogs japoneses estão cheios de gente discutindo exatamente essa manobra.
O que isso diz pra gente
É engraçado pensar que aqui a gente reclama de preço, de exigir PS5 ou Series, de não ter versão de PC. São reclamações legítimas, mas nenhuma delas é sobre o conteúdo do jogo em si.
No Japão, o assunto é outro. Lá a pergunta é se o jogo que vai chegar é o mesmo que o resto do planeta vai jogar. E a resposta, muito provavelmente, é não.
E você, o que faria? Se o GTA 6 chegasse aqui com cenas cortadas, você jogaria a versão nacional mesmo assim ou importaria pra ter o jogo completo?