O Bodycam voltou pro centro da conversa na quarta-feira, 2 de setembro, às 14h de Brasília. Foi a hora em que a Reissad Studio subiu o Locked & Loaded, a versão 0.8 do FPS francês que imita imagem de câmera corporal. Meia hora depois, segundo o próprio estúdio, o jogo cravava 32.343 jogadores simultâneos no Steam.

O número pede contexto, porque ele é bem maior que o pico de estreia. Em junho de 2024, quando o Bodycam entrou em acesso antecipado e vendeu 800 mil cópias no primeiro mês, o topo de simultâneos foi 13.429, de acordo com o histórico do Steam Charts. Dois anos depois, uma atualização gratuita entregou mais que o dobro disso.

O que entrou no Locked & Loaded

A 0.8 é a maior entrega da Reissad desde a estreia, e dá pra ver que o estúdio passou meses reconstruindo ferramenta interna em vez de soltar patch pequeno toda semana. A lista do que chegou:

  • Um mapa novo, Trenches, com rede de trincheiras, igreja em ruínas, túneis e abrigo subterrâneo
  • Cerca de 400 acessórios de arma, com efeito real em recuo e capacidade, mais seis armas e combate corpo a corpo
  • Drones FPV com pilotagem manual e carrinhos de controle remoto, pra reconhecimento ou pra levar explosivo
  • Recarga com animação que muda conforme o estresse: tiro por perto, explosão, postura e tempo desde o último contato mudam como o personagem recarrega
  • Áudio refeito com gravação acústica real, reverberação por ambiente, passo que muda de som conforme o material do chão
  • Modo competitivo Wingman 2v2 e migração de host

A parte chata é que boa parte do jogo saiu do ar pra isso acontecer.

O que ficou de fora da 0.8

Modo zumbi desativado até perto do Halloween, mapas Oil Rig e Tumblewood fora sem data de volta, sistema de party não entrou (pra jogar com amigo, só partida personalizada ou entrar no mesmo servidor), o chat de voz migrou para o Epic Online Services e ficou sem botão de silenciar, e o Wingman estreou sem matchmaking por habilidade. A loja de dinheiro real também está desligada durante a reconstrução da interface.

O jogo que quase ninguém jogava

Aqui mora a parte que os outros portais não estão contando. O Bodycam não estava bombando antes dessa atualização. Estava morrendo.

Depois do estouro de junho de 2024, a curva despencou. Julho já caiu pra 2.489 de pico. Em agosto de 2025 o jogo rodava com média de 270 jogadores simultâneos e pico de 468. Passou o primeiro semestre de 2026 inteiro na casa dos 400 de média, com picos abaixo de mil. Um jogo que faturou perto de 20 milhões de euros em trinta dias virou sala vazia em pouco mais de um ano.

A 0.8 é, então, uma ressurreição. E ressurreição de jogo em acesso antecipado é coisa rara o bastante pra merecer atenção de quem trabalha com produto.

A treta que foi parar no tribunal

Quem chegou agora provavelmente não sabe, mas o Bodycam nasceu carregando uma acusação pesada.

Em outubro de 2022, um vídeo de 45 segundos de Unrecord viralizou. Era um FPS em primeira pessoa gravado como se fosse câmera corporal de policial, rostos pixelados, arma flutuando no enquadramento, e a internet inteira parou pra discutir se aquilo era jogo ou filmagem real. O estúdio por trás é o DRAMA, de Rennes, fundado pelo músico Théo Hiribarne, do grupo de rap francês Columbine, junto com o desenvolvedor Alexandre Spindler. O anúncio oficial veio em abril de 2023.

Meses depois, dois irmãos de Nanterre, Luca e Léo Dassier, com 20 e 17 anos na época, registraram a Reissad Studio e anunciaram o Bodycam. Mesma estética, mesma câmera, mesmo borrão no rosto. A diferença era o modelo: Unrecord é single-player com história, o Bodycam é multiplayer competitivo. Em 7 de junho de 2024 o Bodycam entrou em acesso antecipado, ou seja, chegou ao mercado antes do jogo que inspirou a onda.

A DRAMA processou. Em ação por concorrência desleal e parasitismo no Tribunal das Atividades Econômicas de Paris, pediu a proibição da venda do Bodycam e mais de 21,5 milhões de euros de indenização. Perdeu tudo.

Rosto pixelado, perspectiva de câmera corporal e efeito de lente já existiam em obras anteriores e pertencem a um fundo comum. Além disso, o Bodycam é multiplayer, enquanto o Unrecord seria um jogo solo, com cenários distintos.

Resumo dos fundamentos da sentença de 22 de janeiro de 2025, processo RG 2024026322, Tribunal das Atividades Econômicas de Paris
⚖️

Não foi só derrota simbólica. A DRAMA ainda saiu condenada a pagar 40 mil euros de honorários à Reissad, pelo artigo 700 do código de processo civil francês. O tribunal também registrou que os dois jogos usam pacotes de assets de marketplace da Unreal Engine 5, exatamente o ponto que a comunidade apontava como prova de cópia, e concluiu que usar asset comprado não é monopólio de ninguém.

E não, os dois estúdios não têm nada a ver um com o outro além do processo. Registros societários franceses mostram empresas com sedes, sócios e origens completamente separadas: DRAMA aberta em março de 2020 em Rennes, Reissad em setembro de 2023 em Nanterre. Nenhum sócio em comum, nenhum investidor em comum. A DRAMA levantou 2,5 milhões de dólares com o fundo The Games Fund em 2024 e recebeu aporte minoritário da Tencent em dezembro de 2025. A Reissad se bancou sozinha com a receita do acesso antecipado e cresceu de duas pessoas para cerca de trinta, recusando ofertas de publisher para manter o controle.

O problema de produto do Unrecord

É aqui que a situação fica desconfortável pro lado que criou a onda.

O Unrecord tem tudo que um projeto sonha ter. Chegou a 600 mil pedidos na lista de desejos da Steam antes de existir, tem dinheiro de fundo especializado, tem aporte da maior empresa de games do mundo e anunciou em dezembro que finalmente entrou em produção plena, com time saindo de dois para dez pessoas e vagas abertas. O post oficial da DRAMA diz, com todas as letras, que agora eles têm orçamento pra fazer o jogo.

Só que quatro anos se passaram desde o vídeo viral. E o nicho que eles inventaram já tem um dono no mercado.

O risco pro Unrecord não é ser chamado de cópia da cópia, isso passa. O risco é chegar num público que já viu aquele visual em 32 mil telas ao mesmo tempo e não vai mais se impressionar só com o realismo da imagem. O truque virou padrão do gênero. Vender realismo de câmera vai ser vender o que o concorrente já dá de graça.

Existe uma saída, e ela passa por não brigar no mesmo terreno. O Bodycam ocupou o competitivo, o rápido, o descartável, a partida de dez minutos com drone e 400 acessórios. Sobra pro Unrecord exatamente o que a Reissad não pode fazer com o modelo dela: narrativa, investigação, consequência, tensão de decisão. Manter o olho realista e afrouxar a mão no tiroteio, aceitando ser menos simulador e mais experiência dirigida, deixaria os dois vendendo coisas diferentes com a mesma cara.

Se a DRAMA insistir em ser o Bodycam feito direito, vai lançar em 2027 ou 2028 contra um jogo com dois anos de conteúdo acumulado, base instalada e trinta pessoas iterando toda semana. Essa conta não fecha.

Fica a pergunta pra quem comprou o Bodycam em 2024 e abandonou no meio do caminho, que pelos números do Steam é praticamente todo mundo: essa 0.8 te trouxe de volta, ou você ainda está guardando a expectativa pro Unrecord aparecer?

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