Aqueles velhos problemas
Fala aí, pessoal da Rádio Blast!, como vão todos? Depois de mais um tempinho longe do Japanice, cá estou de volta pra ver se desta vez consigo fazer com que o programa siga em frente sem mais nenhuma interrupção indesejada, o que vem sendo complicado ultimamente. Peço desculpas aos que acompanham e esperam pelos programas e artigos semanais e peço pra terem paciência quando algum empecilho não deixa que o programa aconteça.
Enquanto isso, continuamos com nossas análises sobre um Japão que muitas vezes foge do que estamos acostumados a ver em produções japonesas que tanto apreciamos. A tarefa do Japanice de fazer com que o público enxergue esse país como ele realmente é se mostra mais do que útil, uma vez que é costume dos fãs de cultura oriental pensar em seus países asiáticos prediletos como paraísos. O que pouca gente sabe é que todos esses lugares possuem problemas sociais quiçá muito maiores e preocupantes do que um dia sonharemos em ver por aqui.
É com esse viés crítico e por muitas vezes curioso que apresento a vocês o tema dos programas desta semana. Conheçam o que uma sociedade pode fazer de pior para com seus indivíduos através dos hikikomoris.
Fenômenos sociais que se envolvem com problemas de relacionamento entre pessoas acontecem aos montes no Japão. Se há países para eles surgirem, são sem dúvida os orientais. A maioria deles tem uma mesma causa, a qual se desenvolve diferentemente em cada um dos indivíduos afetados e dá origem a grupos distintos, mas com o mesmo medo de se socializar em certos graus. Os otakus e os homens herbívoros são frutos dessa mesma origem, da qual os hikikomoris também não escapam: a pressão da sociedade. Os japoneses são famosos por sua força de vontade extrema e a aptidão para trabalho duro, e isso, sem dúvida, é admirável. No entanto, essa alcunha tem seu preço, o qual nem todos conseguem pagar e preferem simplesmente se isolar.
Hikikomoris, aqueles que não saem de casa
A palavra hikikomori dá literalmente a ideia de “estar de fora” ou “retirada social”. Ela designa tanto o fenômeno quanto as pessoas que fazem parte dele. São conhecidas como hikikomoris as pessoas que resolvem se retirar da sociedade em escalas drásticas. Elas não desejam nenhum tipo de interatividade com outras pessoas, algo que consideram exigir certo esforço o qual não estão dispostos a oferecer. Para alcançarem um nível de isolamento que os deixe completamente sós, os hikikomoris chegam a atitudes sem precedentes. O mais comum nesse fenômeno social é se trancar no quarto por dias, meses e até anos saindo pouquissímas vezes para outros cômodos ou quase nenhuma para fora de casa, em casos de enorme urgência.
Sim, há hikikomoris que passam anos e anos trancados em seus próprios quartos sem falar com absolutamente nenhuma outra pessoa. Esse termo se assemelha em algum grau com outro talvez mais comum aqui no ocidente: NEET. A palavra NEET significa, em inglês, not in education, employment or training, e serve para denominar pessoas entre 16 e 24 anos que não estão estudando, trabalhando ou recebendo algum tipo de preparação.
No ententanto, um NEET e um hikikomori são completamente diferentes em suas posturas e formas de pensar. Enquanto um NEET pode ser só um desempregado que não consegue arranjar um novo emprego, um hikikomori não quer ter um emprego, nem estudar, receber algum tipo de treinamento e, sobretudo, se socializar com alguém. Pode-se descrever um hikikomori como possuidor de uma filosofia de vida toda voltada para a exclusão, enquanto um NEET pode ser apenas uma pessoa comum que no momento está desocupada.
Quarto de um hikikomori
Dessa forma, os hikikomoris permanecem totalmente à parte da sociedade por não desejarem sair de sua “zona de conforto”, na qual não precisam se esforçar em absolutamente nenhuma tarefa para continuar vivendo, e também por, muitas vezes, já não conseguirem mais sair de sua situação. Pra muitos deles, a tarefa de conversar com uma pessoa e até fazer uma nova amizade é algo quase impossível e que, acima de tudo, exige certo comportamento que não se sentem à vontade ao praticar.
A origem de um hikikomori
O Japão é uma sociedade invejável quando o assunto é organização e comprometimento com certas causas, tais como emprego, família e escola. O povo japonês se sente obrigado, sobretudo, a dar continuidade à realidade atual de sua sociedade por meio da realização dos seus deveres sociais a qualquer custo. Assim, muitas vezes as vontades e aspirações pessoais do indivíduo são esmagadas por conta do que é esperado que ele seja e faça dentro da sociedade.
No Japão, isso até tem nome: honne e tatemae. Honne diz respeito aos desejos reais da pessoa, os quais poucas vezes são realmente expressos e se manifestam minimamente em sua vida. Já tatemae diz respeito às ações e sentimentos que o indivíduo executa e expressa em público para que todos tenham uma boa impressão dele e o considerem digno de respeito. Os dois são totalmente opostos e ilustram bem o modo como os japoneses compreendem os sentimentos por lá.
No caso dos hikikomoris, algo bem triste e não tão complicado de entender aconteceu. Eles simplesmente desistiram da parte de se esforçar para conseguir um lugar de respeito na sociedade. Eles não querem ter o trabalho de passar por obrigações sociais que todos estão envolvidos, como ter amigos, estudar, manter uma boa relação com a família etc. Para eles, tudo isso não possui nenhum prazer em ser feito, e, por isso, se poupam do trabalho de ter que fazer. A tarefa de ter uma vida social se mostrou complicada de mais para um hikikomori.
A sociedade japonesa desde sempre exige de seus indivíduos uma série de provações para ele ser aceito com dignidade em seu meio. O grande problema do Japão é, sobretudo, aceitar o erro e garantir uma nova chance. Aqui no Brasil, por exemplo, é comum a tensão e ansiedade no momento da vida em que deve-se entrar em uma faculdade por meio de testes. Essa entrada se mostra como um rito de passagem de suma importância pra que a vida antiga seja abandonada e a vida adulta comece. Se você não passar e resolver fazer outra coisa com a sua vida, a responsabilidade é inteiramente sua e as pessoas não se tornarão suas inimigas por conta disso. No Japão, muitas vezes uma única opção é a correta, e os que não conseguem fazer dela sua realidade nunca mais são vistos da mesma forma. Os hikikomoris são pessoas que não conseguiram atender as exigências da sociedade ou simplesmente se cansaram delas e resolveram viver em seu mundo particular.
Problemas futuros
Segundo dados de 2010 vindos do governo japonês, cerca de 700 mil hikikomoris existem hoje no Japão. Outros 1,55 milhão estão em vias de se tornar parte deste fenômeno social. A idade média dos integrantes do fenômeno é de 31 anos, o que não impede que o começo do isolamento tenha ocorrido há algum tempo atrás. Geralmente as tendências à completa exclusão social começam a se manifestar já na adolescência e se consolidam quando o indivíduo não consegue entrar em uma boa faculdade ou arranjar emprego, por volta dos 20 e poucos anos. A maioria dos hikikomoris são homens em idade útil para trabalhar.
Esses números são uma tragédia para qualquer nação, ainda mais para uma que já passa por tantos desafios sociais como o Japão. São quase um milhão de pessoas, sem contar aqueles que têm tendências, em condições e idade favoráveis ao trabalho e aprendizado sem fazer absolutamente nada de suas vidas. O tempo que gastam vivendo trancados em seus quartos representam bilhões de ienes que não são gerados por não estarem trabalhando. Como se não bastasse, os hikikomoris ajudam a população geral a envelhecer, uma vez que não se casam e não têm filhos para renovar a sociedade e iniciar uma nova geração que dará continuidade à época desenvolvida do país.
Obviamente, um problema tão profundo como esse não deve ser combatido apenas por conta do prejuízo econômico que provoca. Estamos falando de um comportamento único e sentimental de seres humanos, algo com que sem dúvida não é nada fácil de lidar. Para que esse fenômeno acabe, uma mudança na expectativa que a sociedade japonesa tem sobre seus indivíduos deve ser feita. No entanto, mudar algo nesse aspecto demanda mudar toda a forma como o povo japonês vê o mundo e no que eles vêm acreditando estar certo por séculos. É uma mudança cultural, acima de tudo, e que, a meu ver, parece impossível no momento.
Por Fim
Um problema como esse merece ser discutido e analisado uma vez que não se espera que algo assim aconteça em um país desenvolvido como o Japão. Espero que alguma atitude seja tomada em favor das pessoas que apresentam problemas desse tipo.
O Japanice vai ao ar às Quartas e, se tudo der certo, agora também às sextas, às 19h. Espero por todos.
Publicação original de 10/01/2012. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.