Não. Você é apenas um assassino, Light Yagami. E este caderno é a arma de destruição em massa mais asquerosa da História. Você se entregou de corpo e alma ao poder do caderno e dos shinigamis pensando que se tornaria Deus, seu genocida maluco.
Apenas isso. Mais nada.
Nate “Near” River, episódio 37 de Death Note (tradução livre)
E o assunto USP continua rendendo. Ainda ontem, uma tal de Associação de Juízes para a Democracia — uma ONG, claro!, que você não conhece e deita e rola com o seu dinheiro — emitiu uma nota em apoio aos... digamos... inomináveis que fizeram o que fizeram na USP.
Mas não vim aqui pra falar da USP ou da PM. Todo mundo tá de saco cheio já. Eu também. Outras pessoas já escreveram sobre isso, hoje e outrora, à exaustão, e não irei repetir a mim ou a elas aqui. Ignoremos também o fato de juristas apoiarem toda a barbárie ocorrida no mês passado. Vamos tão somente nos ater ao penúltimo (e, mais tarde, ao último) parágrafo:
Não é verdade que ninguém está acima da lei, como afirmam os legalistas e pseudodemocratas: estão, sim, acima da lei, todas as pessoas que vivem no cimo preponderante das normas e princípios constitucionais e que, por isso, rompendo com o estereótipo da alienação, e alimentados de esperança, insistem em colocar o seu ousio e a sua juventude a serviço da alteridade, da democracia e do império dos direitos fundamentais.
Quico is not amused...
Vocês se lembram da Lei de Meziat? “À medida que uma discussão sobre política, um fato histórico, uma questão ética ou propostas de governo progride, as chances de aparecer alguém falando ‘em nome dos pobres, dos sem-isso, dos sem-aquilo, ou de uma causa qualquer’ — de forma que você seria ‘contra os pobres, os sem-isso, os sem-aquilo, ou uma causa qualquer’ por apenas discordar dos seus argumentos — se aproxima de 1”.
E quem seriam, afinal, essas pessoas que agem “em nome dos pobres, dos sem-isso, dos sem-aquilo, ou de uma causa qualquer” — ou, como o texto diz, que “vivem no cimo preponderante das normas e princípios constitucionais”? Não falo em nome de ninguém, é certo, mas, a rigor, eu vivo nesse cimo aí. Sou um teimoso defensor da nossa Constituição. E, apesar da firmeza das minhas opiniões, nunca me coloquei realmente acima do tipo de regime que, com todas as suas falhas, me garante — e também aos que escreveram esse acinte — o, por assim dizer, jus esperneandi. Tem muita coisa errada no mundo, é verdade. Há leis absurdas aqui e alhures que eu gostaria que fossem mudadas. Mesmo sobre a Constituição que tanto defendo tenho restrições sólidas — é como se a ditadura militar fosse ruim, mas tão ruim, que tudo o que tivesse origem nela seria necessariamente mal e perverso, logo façamos o exato contrário na Constituinte. Mas quase tergiverso. É o seguinte: não é por eu não gostar das leis que vou me colocar acima delas; enquanto forem leis, são leis. Infelizmente.
E é justamente por eu saber o que é o “cimo preponderante das normas e princípios constitucionais” que, segundo o texto, eu jamais poderia ser considerado alguém que vive nele. O motivo? Vamos ao segundo parágrafo:
Com efeito, quando movimentos sociais escolhem métodos de visibilização de sua luta reivindicatória, como a ocupação de espaços simbólicos de poder, visam estabelecer uma situação concreta que lhes permita participar do diálogo político, com o evidente objetivo de buscar o aprimoramento da ordem jurídica e não a sua negação, até porque, se assim fosse, não fariam reivindicações, mas, sim, revoluções.
Sabe o que é o pior? Eu concordo com quase tudo desse parágrafo, mas enrosco com seis míseras palavrinhas, e uma delas não é visibilização, esse tapa na cara da Inculta & Bela: ocupação de espaços simbólicos do poder (reitoria agora é “espaço simbólico do poder”... what has science done?). E não caiam nessa de que esse “não é o único método” só por causa do fato de a palavra ser métodos, no plural, e da conjunção como ali logo depois. Se não fosse mesmo a única opção, então os movimentos sociais certamente revisariam seus... urgh... “métodos de visibilização” (*vomita*) quando estes são criticados — MST que o diga. Na prática, não é o que ocorre; a primeira reação é justamente falar “da ditadura”. Sem falar, tá na cara, que estão acima das leis, néam?, no “cimo preponderante das normas e princípios constitucionais”... E ainda vêm falar em “diálogo”...
E, como prometido, o último parágrafo:
Decididamente, é preciso mesmo solidarizar-se com as ovelhas rebeldes, pois, como ensina o educador Paulo Freire, em sua pedagogia do oprimido, a educação não pode atuar como instrumento de opressão, o ensino e a aprendizagem são dialógicos por natureza e não há caminhos para a transformação: a transformação é o caminho.
“Ovelhas rebeldes” é uma referência ao mestre Fernando Pessoa. Pô, vão pegar justamente no braço do autor de “Lisbon Revisited”, uma verdadeira antítese a tudo o que escreveram? Deve estar se revirando no túmulo, for sure. E, no final, aquele velho papo de “pedagogia do oprimido”, “transformação” pra cá, “transformação” pra lá... Como pega mal, hoje em dia, falar em “revolução”, a esquerda, à época da queda do muro de Berlim, teve que adotar às pressas uma nova palavra-chave. Resta agora eu descobrir o que, segundo a esquerda, será “transformado”, e em quê.
Enfim, esse modus operandi tem história, meus caros. Esse vanguardismo xucro é simplesmente incompatível com um Estado de Direito. As ideologias de esquerda são ruins, mas tão ruins, que só podem ganhar tração na base da arrogância, da intimidação. Alguns dão até porrada, matam... Mas eles juram que é pro nosso próprio bem, tá? “Socialismo ou barbárie”, já diziam. Mas aí lá vou eu quebrar minha promessa e repetir a mim e a outras pessoas — no caso, sobre a esquerda até agora. Paremos por aqui!
Publicação original de 01/12/2011. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.