Lembram das chuvas de convecção estudadas em Geografia lá nos idos do Ensino Fundamental? Aquelas “chuvas de hora certa” da Região Norte do Brasil que caíam no final da tarde ou em intervalos de tempos quase precisos. O último caso era o que parecia estar ocorrendo naquele domingo em São Bernardo do Campo.
Um sol escaldante fritava os presentes nas imediações do Espaço Lux. O asfalto parecia brilhar. Meia hora depois, chuva e vento frio surgiam para encolher todos embaixo das marquises e fazer a alegria dos vendedores de capas de chuva. Cenário que se alternava a cada hora. E assim, somados às discussões e brigas da fila, pareciam ter cansados os fãs do DIR EN GREY que se estiravam pelo chão do Espaço Lux quando entraram na casa de show, por volta das 19h e 50min.
Menos de vinte minutos depois, o Ten Years apareceu em cena. Enquanto alguns descansavam nos cantos do grande espaço da casa, massageando os próprios pés ou juntando forças para os shows dos japoneses, o público em frente ao palco levantou para saudar o grupo. A performance dos integrantes é tipicamente americana: no melhor estilo jump da fuck up.
Sob o comando do vocalista Jesse Hasek, o público pulou ao som de “Now Is the Time (Ravenous)”, “At a Loss” e “Chasing the Rapture”. O Ten Years parecia ter conquistado os fãs do DIR EN GREY, mesmo com o som totalmente embolado que saía dos P.A.s. Provavelmente graças à cozinha da banda, formada pelo baterista Matt Brown, capaz de levadas intricadas enquanto girava as baquetas com total tranquilidade, e o baixista Lewis Cosby, carismático, sempre se destacando.
“Wasteland”, a penúltima do set list de nove músicas e um hit moderado lá para idos de 2004, emocionou alguns dos poucos que foram para assistir especificamente o show da banda. O Ten Years pratica um metal alternativo simplório, quase radio friendly (característica realçada pela voz limpíssima de Hasek). Mesmo assim, foram quarenta minutos de um bom show de abertura.
Cerca de meia hora depois, “KYŌKOTSU NO NARI”, a introdução do álbum DUM SPIRO SPERO, anunciava a entrada do DIR EN GREY. Com todo o público concentrado à frente do palco, fica claro perceber que a inundação de shows japoneses no segundo semestre — X JAPAN, MIYAVI, Versailles e DIR EN GREY dividiram o fim do ano — prejudicou significativamente a quantidade de presentes. Provavelmente só a metade da lotação máxima de 4000 pessoas do Espaço Lux estava presente. Shinya, Toshiya, Kaoru, Die e Kyo, mascarado como em alguns registros da turnê de divulgação do álbum UROBOROS (2008), entram no palco ao som de urros e gritos do público.
A belíssima “RUTEN NO TŌ”, pinçada do fim de DUM SPIRO SPERO (2011), parecia escolhida para esconder o ouro. Retardando cuidadosamente a catarse, eles tocam sem muito alarde de movimentação. Mesmo assim, o público acompanha verso por verso hipnotizado. O som já muito mais claro que antes.
“HAGESHISA TO, KONO MUNE NO NAKA DE KARAMITSUITA SHAKUNETSU NO YAMI” joga o nível de adrenalina para o alto. A clássica “OBSCURE”, os grooves da resgatada “ROOTING ROOT” e “SHITATARU MŌRŌ” são combustível para rodas de pogo e até alguns crowd surfings. Toshiya sorria e incentivava a comoção cada vez que podia tirar as mãos do baixo. “LOTUS” e uma súbita falha no som do lado esquerdo deram um descanso aos seguranças que pareciam não saber como lidar com toda a agitação, provavelmente pela quantidade de meninas envolvidas.
Na banda, dois detalhes chamam a atenção. O primeiro é a precisão cirúrgica dos músicos: Kaoru e Die não parecem tocar uma nota fora, Toshiya faz absurdos no baixo enquanto agita e Shinya reproduz fielmente as viradas e andamentos cavalares dos CDs. Segundo, Kyo quase não se dirige ao público, mas sua interpretação teatral das músicas traz o público para dentro do universo do DIR EN GREY. A regra parece bem absorvida por toda a banda, que espera de costas enquanto Kyo entoa seus mantras macabros intitulados “INWARD SCREAM”.
Em “THE BLOSSOMING BELZEBUB”, ele prende o microfone no suporte de ferro no meio do palco e, literalmente, parece florescer. Estica os dedos, mãos e braços calmamente, como se estivesse nascendo, enquanto canta.
A lógica que impera no grupo é a do próprio Kyo: ganhar o jogo sem truques e no carisma real. No clima e não só na violência e peso abissal das músicas. Para isso, “mazohyst of decadence” e “TSUMI TO KISEI” (na verdade, a versão regravada recentemente), resgatadas do longínquo GAUZE (1999), funcionam com maestria.
“‘YOKUSŌ NI DREAMBOX’ ARUIWA SEIJUKU NO RINEN TO TSUMETAI AME” prepara terreno para a trinca infernal formada por “DIFFERENT SENSE”, “JŪYOKU” e “DECAYED CROW”. O público, que não estava se acabando, urrava guturais e tentava imitar as linhas de voz exóticas de Kyo. Há essa altura, até Kaoru, sempre soturno e calmo, não resistiu. A temperatura se manteve altíssima até que a banda saiu do palco.
Vale lembrar que o público do DIR EN GREY é extremamente curioso. Cada um parece ter uma fase preferida ou visão diferente da banda. Enquanto uns acompanham fielmente as mudanças de direcionamento, outros, mesmo que estivessem gostando do show, pareciam esperançosos que “THE FINAL”, “Akuro no Oka” ou “THE IIIRD EMPIRE” fossem sacadas em algum momento. E não, elas não foram. A escolha foi menos óbvia.
A banda volta ao palco sem muita demora. Rapidamente vestem os instrumentos e engatilham “KODŌ” de Withering to death. (2005). Quase emendada, “REIKETSU NARISEBA”, a única de UROBOROS, mergulha todos no caos novamente sem que as pessoas tivessem tempo de esfriar. Aos gritos de “last song, last song!” de Kyo, “RASETSUKOKU”, originalmente de MACABRE (2000) e também regravada nos últimos tempos, fecha a apresentação. Palhetas, baquetas e uma garrafa de cerveja de Toshiya são disputadas violentamente. Após os últimos cumprimentos, o DIR EN GREY se despede com um sorriso de satisfação que se parecia com o da própria plateia. A tranquilidade de quem foi bem entendido.
Publicação original de 01/12/2011. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.