Shōko Tendō conta uma parte de sua história no livro Yakuza Moon, à venda só em japonês e inglês. Em seu livro, Shōko comenta sobre seus maus tratos enfrentados na infância e adolescência. Seu pai, um mafioso ligado à facção Yamaguchi-gumi, uma das maiores em Ōsaka, não hesitava em castigar sua filha com bastante precisão.
Consequentemente, Shōko torna-se a primeira hostess de um clube muito bem visado. O maior objetivo dessa decisão era cobrir as despesas da família em um curto prazo, assim começa a volta por cima de Shoko, marcada pelas tatuagens expressivas no corpo, onde mais se destaca a cortesã de faca presa aos lábios, Jigoku Dayū, figura lendária da Era Muromachi. Como uma fênix, Shōko ressurge das cinzas e se torna uma escritora, já preparando seu segundo livro.
A revista Made In Japan publicou uma entrevista com Shōko Tendō, na qual a entrevistada comenta, com exclusividade, a sua experiência com a máfia e seu livro. Para maiores informações, acesse o site da revista.
Teve alguma dificuldade para publicar um livro com um tema tabu?
A editora estava bem receosa em relação às histórias mais pesadas. Para a edição japonesa, o livro saiu na categoria “ficção”. Justamente por isso, pude escrever sem nenhuma cerimônia, contando tudo nos mínimos detalhes. Fora do Japão, o livro é classificado como história real.Qual o diferencial do livro?
Uma coisa que acabou diferenciando meu livro de outras obras do gênero foi não ter que fazer dele um romance. Normalmente nos romances sempre tem pelo menos um yakuza bonzinho. Em Yakuza Moon, ninguém exerce esse papel.Qual a motivação para escrever o livro?
Um fator muito importante é que, até os meus 29 anos, eu só tinha trabalhado à noite como hostess de bar. O salário era bom, mas já estava ficando velha para atuar no ramo. Muitas vezes, a única opção que sobra para essas mulheres hostess mais velhas é se juntarem a homens ricos que as sustentem.Como meus pais já tinham falecido e eu era recém-divorciada, pela primeira vez me vi sozinha pensando sobre a vida. Decidi procurar meus interesses, e lembrei que gostava de ler livros, desenhar e escrever desde pequena.
Então, decidiu que se tornaria escritora?
Já sabia da minha falta aptidão para algo muito complexo, mas achava que tinha uma história interessante. Se conseguisse transmitir isso com uma leitura simples mas direta, poderia atrair o interesse de algumas pessoas.Foi difícil escrever o livro?
Primeiro, escrevi um rascunho à mão, por conta própria, que por sinal tinha mais que o dobro do livro em termos de volume. E, por acaso, vi um anúncio de uma editora procurando escritores iniciantes, e decidi levar meu trabalho.Na primeira leitura do editor, ele comentou que o livro era muito cansativo, e sugeriu que eu diminuísse as histórias e selecionasse melhor o conteúdo. Então, passei todo o conteúdo para o computador e comecei a editar.
Demorou muito tempo?
Foram dois anos consertando e reescrevendo o livro, foi um período bem desgastante mas que ao mesmo tempo me fez crescer muito. Eu pedia orientações para melhorar meu texto, mas não me davam muita atenção, então, acabava me dedicando ainda mais por conta própria e, por fim, me deram a opção de publicar a obra sob um contrato onde autor e editora compartilham os gastos.Como tem sido seu relacionamento com os leitores de seu livro?
Recebo muitas cartas, que são de todos os tipos. Já recebi correspondência de presidiários, ex-yakuzas e presidentes de grandes empresas. O que eles dizem em comum é que me acham uma mulher extremamente forte.Da parte das mulheres, as cartas são em geral de pessoas que sofreram ou sofrem com problemas semelhantes aos meus. Elas acabam se envolvendo com pessoas inapropriadas, sofrem com drogas, com a violência doméstica. Por alguma razão que desconheço, também recebo cartas de mulheres que têm dificuldade para engravidar. Os leitores de outros países são muito carinhosos.
Você reencontrou algumas pessoas que foram citadas no livro?
Sim, encontrei algumas, como meu mestre tatuador e amigos de outras épocas. Boa parte de meus conhecidos mais íntimos tentaram ler o livro, mas por ser uma realidade muito crua e próxima à vida deles, desistiram.Qual o significado de suas tatuagens?
Nas costas, tenho o desenho de Jigoku Daiyu, uma cortesã da Era Muromachi. Ela era filha de uma família endinheirada, mas, durante uma viagem pelas montanhas, foi raptada por um grupo de criminosos e vendida a uma casa de prostituição.No começo, ela tinha raiva e descontava nos homens que a visitavam, até que teve um encontro com o monge Ikkyu (figura lendária da cultura japonesa), que fez com que ela percebesse que deveria exercer a função de consolar e alegrar a vida de camponeses e trabalhadores.
Quanto tempo demorou para fazê-las?
Tanto o desenho nas costas, como o dragão na parte da frente, levaram em média uma semana. Hoje, tenho tatuagens no corpo inteiro. Entre meus irmãos, sou a única que tem tatuagem. Eles não gostam muito dos desenhos.No dia a dia, procuro não mostrá-las, para não gerar desconforto nas pessoas. Ainda existe um medo muito grande das pessoas em relação aos yakuzas. Minha filha ainda não entende direito, mas, às vezes, ela reage aos desenhos com certa curiosidade. Ao crescer, ela compreenderá o fato de a mãe dela ser diferente das outras mães. Eu tive um processo parecido com meu pai, sabia que ele não era um pai como os outros.
Sofreu preconceito por ser da máfia?
Normalmente os filhos de uma família envolvida com a máfia japonesa sofrem preconceito. Nós morávamos em uma área de classe média, e nossa casa era maior e tínhamos carros de luxo. Isso acabou influenciando na relação com a vizinhança. No meu caso, eu era uma menina muito tímida, era gordinha, não tirava notas boas na escola…era um alvo perfeito para sofrer maus-tratos.Seu pai era violento com você?
Acho que ele exagerava sim, ainda mais por eu ser menina. As surras dele resultavam em pontos na minha cabeça. Mas sei que eu era uma filha extremamente problemática. Era do tipo que apanhava e partia para cima. Sinceramente, aquela era a maneira mais correta de me botar nos eixos.Qual a opinião de sua mãe diante da violência de seu pai?
Minha mãe é o retrato da antiga mulher japonesa, do tipo que sempre anda três passos atrás do marido. Para ela, as palavras do meu pai eram lei. Nunca opiniava, mesmo quando ele perdia a razão.Você quase morreu várias vezes, nas brigas, com as drogas…
Sinceramente, acho que se alguém tentar me matar, ele não vai conseguir (risos). Não sei quantas vezes fui ao médico em estado grave, seja por doença ou outra coisa. Já estive em coma, meu coração já parou duas vezes.Você pensa em ajudar as vítimas de violência?
Faço o que está dentro do meu alcance, como doar parte da renda do livro para instituições de apoio a portadores de HIV. Essa é a minha maneira de retribuir à sociedade e de me manter com os pés no chão.Seu segundo livro vai abordar sua vida como hostess?
Meu próximo livro começa justamente quando conheci o pai da minha filha, que coincide com o período de lançamento do meu livro Yakuza Moon. Eu cito as diferenças que tive com ele, de como eram engraçadas as situações que vivíamos por termos recebido uma criação tão distinta.Tem alguns exemplos?
Vivíamos em realidades muito diferentes. Para uma pessoa que vem de uma família yakuza, é impensável oferecer rosas vermelhas, mas ele não via problema. Em outra situação, estávamos dentro de um carro e alguns jovens mal-educados estavam na nossa frente e não nos davam passagem. Sem pensar duas vezes, fui gritar com eles, mas ele dizia que uma garota não devia se portar daquela maneira.Outro exemplo de como éramos completamente diferentes era na hora de comer. Em um ambiente yakuza, você se acostuma a comer muito rápido, já que não podemos deixar o chefe esperando. Ele comia em uma velocidade normal, mas eu ficava irritada. A história tomou um formato de um mangá romântico.
Como era a vida como hostess?
Levei três meses para virar a primeira da casa onde trabalhava. Tirava até 4,2 milhões de ienes. Mas há meninas que ganham muito mais em clubes mais badalados.Após viver entre a máfia, você hoje tem uma vida normal?
A minha vida social é de uma mãe japonesa comum. Claro que minhas tatuagens geram curiosidade, mas nunca senti qualquer preconceito da parte das mães das crianças que convivem com a minha filha.Vejo que muitas mães mais novas, que foram revoltadas no passado, aproximam-se de mim com muito respeito, talvez por sentirem que posso compreendê-las melhor.
Publicação original de 15/01/2011. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.