Os nomes dos diretores sul-coreanos podem não ser aqueles que estão na ponta da língua, mesmo dos mais cinéfilos. Porém, hoje, a Coreia do Sul tem um dos mais vibrantes sistemas vibrantes de criação, produção, distribuição e recepção tanto no seu público quanto nos mercados que consegue penetrar. Aliás, é o país com o índice mais alto de cinemas por cidadão do mundo. Uma batalha de anos contra as fórmulas narrativas hollywoodianas que pouco dizem a um país que viveu percalços mais caóticos que boa parte dos filmes catastróficos americanos. Preferem voltar ao passado em busca de inspirações artísticas

A história do cinema sul-coreano está intimamente ligada à história da própria nação. As películas já responderam a guerra, ocupação militar, assassinatos famosos e, acima de tudo, a difícil relação com seus irmãos do norte. Provavelmente só outros países asiáticos têm um cinema tão conectado às suas prioridades, problemas e preocupações. Seja nos thrillers puramente voltados à ação ou nos filmes de arte cheios de alegorias filosóficas, o cinema da Coreia do Sul reflete a história nacional do século anterior, suas celeumas, consequências e o desejo de reconciliação com a Coreia do Norte.

O poder byeonsa

Durante a explosão criativa dos anos 20, a Coreia possuía uma produção robusta de filmes silenciosos. No entanto, os estúdios eram dominados por companhias japonesas, como a Chonson Kinema Productions do mercador Yodo Orajo, produtora do primeiro grande filme coreano Na Woon-gyu (Arirang, 1926), baseado numa canção tradicional.

Como Arirang não era lá um filme muito político, mensagens eram transmitidas durante sua exibição por um narrador chamado byeonsa. Os byeonsa adicionavam dimensões políticas ao filme que não seriam aceitas pelas censuras governamentais. Essa estratégia foi particularmente importante durante o início da ocupação japonesa no início dos anos 30. A sátira e crítica dos byeonsa eram a única oportunidade de liberdade de expressão do povo coreano. Os censores japoneses não poderiam policiar todos os cinemas locais, então o cinema tornou-se a arma do pensamento livre.

Byeonsa moderno encenando em festival de cinema como a atividade acontecia

Ao longo dos anos 30, a força da ocupação diminuiu a produção de filmes a cerca de dois ou três por ano. Considerando que durante a década de 20 cerca de setenta filmes eram lançados nesse mesmo tempo. O declínio do cinema era parte do desejo japonês de limitar a massificação da propaganda via mídia.

Como na Alemanha de Hitler, onde os trabalhadores do cinema fugiram para outros países, quase todos os diretores fugiram ou tiveram suas saídas do país forçadas pelas autoridades, procurando trabalho na indústria cinematográfica de Xangai. Outro empecilho foi a chegada do cinema sonoro em 1935, que a princípio causou comoção nas plateias coreanas, porém dificultava a inclusa de qualquer mensagem política antiautoritária. Os censores tinham mais facilidade agora, já que não precisavam julgar só às imagens, mas também os diálogos. Logo os byeonsa foram aposentados, eliminando seu poder de inflamar como coquetéis molotov filmes que pareciam inofensivos. De fato, por volta de 1942, o governo japonês já tinha bloqueado a produção de qualquer filme em coreano.

Após o fim da guerra, diretores abraçaram a oportunidade da liberdade de expressão com filmes celebrando a resistência e líderes que lutaram contra o fascismo. A liberdade dos primeiros dias pós-guerra gerou filmes como Viva Liberty! (1945) de Choi In-kyu, com visões tanto nacionalistas quanto socialistas (mas diferente do que Rossellini fez em Roma, Cidade Aberta, também em 1945). Apesar do fervor, bancar esses filmes ainda era um problema, já que a força monetária focava-se em questões essenciais como a agricultura, triagem e saneamento.

Propaganda e opressão

A situação foi agravada com a separação do país entre norte e sul, divididos entre alianças com americanos ou soviéticos, cada um leal ao lado que o ajudou. A guerra civil entre a Coreia do Norte e Sul começou em 1950 e perdurou por três anos, destruindo quase todos os registros de filmes coreanos pré-guerra, reduzindo o fazer cinematográfico a cinco ou seis filmes por ano no sul.

Com o fim da guerra civil, o presidente sul-coreano Syngman Rhee tentou rejuvenescer a combalida indústria cinematográfica tornando-a livre de taxas e impostas. Alguns filmes atraíram público considerável até que o remake de Chunhyang-jon (1955) de Lee Kyu-hwan ficou tão popular que cerca de 200 mil pessoas foram assistir, mais de 10% da população de Seul. Esse filme, sozinho, revitalizou a indústria, que pelo resto dos anos 50 melhoraria tanto em qualidade e quantidade. A comédia The Wedding Day (Shijibganeun nal) de Lee Byeong-il em 1956 venceu prêmios internacionais. Em 1959, cento e onze filmes foram produzidos, uma marca impressionante se comparada aos meros cinco filmes de uma década atrás.

Cena de The Wedding Day (Shijibganeun nal, 1956)

Em 1963, Park Chung-hee ascendeu à presidência com uma plataforma anticomunista intensa, então as censuras foram reavivadas por leis que impediam qualquer pitada de socialismo e obscenidades nas películas. Essas leis consolidaram a junção de setenta e uma companhias diferentes numa indústria de 16 estúdios fortemente unida. Para promover a excelência cinematográfica, líderes envolvidos nos negócios do cinema criaram o Grand Bell Awards, equivalente sul-coreano do Oscar, em 1962.

Infelizmente, com o programa de revitalização do governo de Park, em 1974 diretores foram obrigados a incluir propaganda e ideologia governamental nos seus filmes. Como a produção de filmes dos últimos quinze anos se preocupara com motivos da vida social existentes no país, essas informações pró-governo pareciam desconectadas da vida sul-coreana, fazendo o público não ir às salas e permanecer em casa assistindo a TV. A cota de frequentadores chegou a cair em 65% pela década de 70. Após as turbulências políticas do assassinato de Park Chung-hee em 1970, uma nova tendência de liberação e democratização surgiu na Coreia do Sul, encorajando a eliminação de leis de censura.

Em contraste, a Coreia do Norte, e sua indústria cinematográfica controlada pelo Estado insistiu, por quinze anos, em criar filmes de ideologia pró-revolução comunista. As narrativas eram povoadas por histórias de mártires nacionais e declarações de como o povo era feliz sob o regime comunista dos líderes Kim Il-sung e Kim-Jong-il. Filmes norte-coreanos focavam-se também na guerra entre o norte e sul, retratos da propaganda como Boys Partisans (1950) e Righteous War (1950).

Kim Il-sung declarou, em 1966, que “nossa arte deve evoluir de um jeito revolucionário, refletindo conteúdo socialista com a forma nacional”. Ele posteriormente diria que os filmes são ingredientes essenciais para transformar os cidadãos em “comunistas de verdade”. Pensamento claro em filmes de culto ao líder como The People Sing of the Fatherly Leader e The Rings of Juche Spread All Over the World. O filho de Kim e atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, era o responsável pela produção de filmes propaganda ao longo da década de 60, culminando no seu mais bem feito projeto: o épico de três horas cheias de martírios Sea of Blood (1960), filme sobre a luta de uma fazendeira contra a ocupação nipônica na Segunda Guerra Mundial.

Só quarenta e um filmes foram feitos na Coreia do Norte, todos afiliados a algum tipo de propaganda governamental. No entanto, estúdios de outros países contam com o departamento de animação sofisticado do Korean Science and Educational Film Studio’s (SEK). No currículo do SEK estão trabalhos com a Walt Disney em O Rei Leão e Pocahontas.

Enquanto os irmãos do norte preocupavam-se em encorajar o ultranacionalismo, a Coreia do Sul abriu sua indústria para o mercado internacional. Mandala (1988), de Im Kwon-taek, ganhou o Hawaii Film Festival, dando a oportunidade a Im de ser o primeiro diretor em décadas a exibir seu trabalho por festivais de cinema europeus. Através do prestígio de diretores como Im e a eliminação gradual das leis de censura pelo presidente Roh Tae-woo. Inovações estéticas e estilísticas acompanharam a abertura ao mercado estrangeiro.

Renascimento

No entanto, esse contato foi prejudicial dentro de casa. Filmes importados dos Estados Unidos e Hong Kong afastaram as audiências dos filmes nacionais ao ponto de, em 1993, só 16% dos ingressos de cinema vendidos corresponderem ao material feito na Coreia do Sul. Os filmes de mais sucessos dessa fase eram os thrillers de ação sobre as intrigas e conflitos entre norte e sul. Shiri, filme do diretor de ação Kang Je-gyu, conta a história de um espião norte-coreano tentando infiltrar-se em Seul.

Shiri conseguiu vender dois milhões de ingressos só em Seul, ultrapassando recordes de audiência de medalhões como Titanic, Star Wars e Matrix. Prova clara de que, no fim dos anos noventa, o cinema sul-coreano voltou a namorar seu povo, sendo um dos poucos cinemas não hollywoodianos capazes de competir com Hollywood no seu próprio mercado.

Filmes nacionais arrecadam hoje cerca de 50% das vendas de ingressos na Coreia do Sul, uma das mais altas recepções locais do mundo. Joint Security Area (2000), de Park Chan-wook, conseguiu até ultrapassar Shiri em número de bilheteria. Silmido (2003), de Kang Woo-suk, sobre um levante militar abortado contra o governo sul-coreano, tornou-se o filme mais assistido de todos os tempos pelo público coreano, com mais de 10 milhões de espectadores. Taegukgi (A Irmandade da Guerra, 2004), de Kang Je-gyu, um épico sobre a guerra coreana, quase atingiu a mesma marca de Silmido.

O sucesso de filmes como esses mostram como existe um desejo de explorar a relação com o norte e talvez um dia caminhar rumo à reconciliação, mesmo que sugerindo que exista um medo do governo de Kim Jong-il, o que tornaria essa reunificação tão difícil.

Uma nascente tendência avant-garde tem se preocupado em identificar e criticar contradições históricas do país e se as lições do passado são apropriadas para lidar com o presente. Por exemplo, Oasis (2002), de Lee Chang-dong, aborda um romance entre um homem em liberdade condicional e uma mulher com paralisia cerebral. O filme aponta se a moralidade coreana é adaptável as complexidades da globalização e pós-modernidade, além de olhar para o papel marginalizado dos deficientes na sociedade. Oldboy (2003), de Park Chan-wook, flerta com Kafka num conto de um homem encarcerado sem motivo nenhum e que assim que libertado tenta descobrir o porquê dele sequer ter sido preso.

A Coreia do Sul parece ser um dos poucos lugares do mundo onde Hollywood não consegue destruir os negócios da produção local. Onde metade da venda de dos ingressos corresponde ao cinema nacional. Histórias tão poderosas e independentes de Hollywood que a própria as compra e transforma em pastiche americano.

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Publicação original de 07/07/2011. 3 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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