“Não se vingue, enlouqueça!”1

O Coringa tem um parafuso a menos, todos sabem disso. Seus planos loucos já foram de envenenar todos os peixes na Baía de Gotham, transformando o rosto deles em um sorriso permanente apenas para exigir direitos autorais sobre o feito, até tentar lançar alguns dos principais cidadãos de Gotham à estratosfera usando foguetes em forma de vela, presos a um bolo de aniversário gigante. Embora sua loucura não o diferencie de seus outros companheiros no Asilo Arkham, sua instabilidade lhe tornou tão popular que é considerado o principal inimigo do Cavaleiro das Trevas.

Porém, as maluquices do Coringa não se resumem só a peixes sorrindo ou megaexplosões de aniversário. Já matou diversas pessoas com seu gás do riso, surrou Jason Todd, o segundo Robin, até a morte com um pé-de-cabra em frente a sua mãe e depois explodiu seu corpo, atirou em Barbara Gordon, a Batgirl e filha do comissário Gordon, e depois a deixou nua e tirou fotos dela. Mais tarde capturou o próprio Comissário, também tirando todas as roupas dele, prendeu-o a um brinquedo de parque de diversões, forçando-o a ver sua filha nua, ferida e paralisada. E tudo isso, segundo o próprio Coringa, foi feito só para provar que é necessário apenas um sujeito ruim para atormentar as pessoas. Horrível, não?

Portanto, o Coringa não praticou apenas crimes: fez coisas horríveis, inimagináveis e repugnantes. Então, por que Batman simplesmente não mata o sujeito? Seria muito mais fácil! Daria até para curtir umas férias numa praia de nudismo nas Bahamas com o Robin. Você pode até atribuir a resposta dessa questão ao carinho que os fãs têm com o personagem, o quão tradicional ele se tornou ou até a interesses comerciais, mas aí era igualmente simples resolver o problema: ressuscitá-lo como tanto fazem. Tem que haver outra resposta... Aliás, há outra pergunta!

O Coringa é culpado?

Mas até que ponto ele pode ser culpado moralmente? Ele é um vilão, uma abominação, mas é insano. E pessoas insanas — num âmbito geral — não são vistas responsáveis, do ponto de vista moral, pelos atos que cometem. Então, o Coringa não é responsável por suas ações. Mas, por quê? Focaremos na relação entre uma pessoa que age com liberdade, por um lado, e alguém moralmente responsável pelo que faz, por outro.

Alguns filósofos como Michel Foucault expõem o modo como se marginalizam grupos de pessoas porque foram considerados loucos. Não vamos tão longe, reconheceremos que há vários tipos de problemas mentais e que o Coringa sofre de um ou mais deles, assim sendo um louco.

O Coringa faz coisas realmente malucas — como o sorriso de gato-da-Alice nos peixes —, tem atitudes genuinamente psicóticas — com o caso de Barbara Gordon — e também lhe falta um senso de autopreservação. Uma frase de Alfred em The Dark Knight (2008) o classifica bem: “Alguns homens não estão procurando uma coisa lógica. Eles não podem ser comprados, perturbados; não se pode conversar nem negociar com eles. Alguns homens só querem ver o mundo pegar fogo”.

Porém, alguns pontos devem ser vistos antes que cheguemos a alguma resposta. Primeiro, as diferenças entre a responsabilidade causal e moral. A responsabilidade causal está estritamente ligada ao acontecimento resultado da ação de uma pessoa. Já a responsabilidade moral se relaciona ao elogio e à culpa moral ligados a uma ação. Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se ela é o sujeito apropriado do elogio ou da culpa moral por essa ação. No entanto, o fato de uma pessoa ser responsável por alguma coisa não a torna automaticamente causador moral dela. E isso abre a porta para a possibilidade de que o Coringa, embora evidente responsável de seus atos vis, talvez não seja sempre causador moral deles.

Mais um ponto deve ser visitado: o livre-arbítrio. O livre arbítrio é a suposta capacidade dos agentes de fazer escolhas livres de restrições. Historicamente, a restrição de preocupação dominante foi a restrição metafísica do determinismo. As posições opostas dentro desse debate são o libertarianismo metafísico, a alegação de que o determinismo é falso e, portanto, que existe livre-arbítrio; e o determinismo rígido, a alegação de que o determinismo é verdadeiro, portanto, o livre-arbítrio não existe. Ambas as posições, que concordam que a determinação da causalidade é fator relevante na questão do livre-arbítrio, são classificadas como incompatibilistas. Aqueles que negam que o determinismo é relevante são classificados como compatibilistas, e oferecem várias explicações alternativas de que as restrições são relevantes, tais como restrições físicas (por exemplo, cadeias ou prisão), os constrangimentos sociais (ameaça de punição ou censura), ou constrangimentos psicológicos (compulsões ou fobias).

Se considerarmos que o Coringa não é capaz de exercer seu livre-arbítrio, pois não consegue formar desejos de segunda ordem em relação a seus desejos, ele não é responsável moral por suas ações. Ele não consegue suprimir suas tendências homicidas de primeira ordem. O coringa é louco. E sua loucura, porque inibe o livre-arbítrio, exime-o de qualquer responsabilidade moral por suas ações. Porém, isso não determina uma resposta moral fácil para a maneira como Batman, Gotham ou mesmo nós devemos nos sentir em relação ao Coringa, uma pessoa de fato insana, mas que pratica atos vis. O Coringa é a nêmese do Batman não apenas pelas coisas que ele faz, mas pelo o que ele é.

Mas, peraí! Por que Batman não mata o Coringa?

Acabamos ter uma pequena amostra dos atos macabros do Coringa — pequena mesmo, ele é expert em maldade! Sempre que o Coringa foge do Asilo Arkham, ele comete meia dúzia de crimes hediondos parecidos com esse. Batman o captura e bota o criminoso de volta através da “porta giratória”. Batman sabe que Coringa escapará e tem certeza de que voltará a matar. Então, por que Batman simplesmente não mata o Coringa?

Salvaria muitas vidas! E muitas vidas teriam sido salvas, se ele tivesse “resolvido o problema” anos atrás. O próprio comissário Gordon considerou matar o Coringa várias vezes e, quase sempre, é Batman quem o impede (quando não é o oposto que acontece). Portanto, por mais que Batman já tenha considerado matar o Coringa, ele jamais o fez. Afirma que, se o fizer, se tornará uma pessoa tão ruim quanto os criminosos que jurou combater.

Batman é um utilitarista ou deontologista? (ou nenhuma das alternativas anteriores?)

O argumento a favor da morte do Coringa é simples — se Batman o matar, evitará todos os assassinatos que o Coringa com certeza cometerá no futuro. Esse raciocínio é classicamente utilitarista, requer a maximização da felicidade de todos ou do bem-estar resultante das ações individuais. Salvar muitas vidas a custo de uma é lucrativo num ponto de vista utilitário, por mais que seja uma escolha drástica. No entanto, não só Batman, mas todos os super-heróis de modo geral não são utilitaristas. Obviamente eles gostam de felicidade e bem-estar, mas há certas coisas que não fariam em troca disso. Por exemplo, um super-herói tenta a todo custo não arriscar vidas inocentes para prender um criminoso. De modo mais geral ainda, super-heróis não matam.

Enquanto utilitaristas endossariam matar uma pessoa para um bem maior, os membros da escola deontológica não aceitariam isso. A deontologia julga a moralidade de um ato com base nas características intrínsecas ao próprio ato. Os meios devem ser justificáveis pelos próprios fins. Mas mesmo para alguns deontologistas mais rígidos aceitam algumas exceções. Um bom exemplo é matar em legítima defesa, um argumento que pode ser aceito por eles. Então, não haveria problema em matar, mas apenas pelas razões certas? Se sim, o Coringa pode ser uma dessas razões?

“Se o criminoso estivesse a ponto de assassinar alguém, então o policial estaria justificado — legalmente — em matá-lo (supondo ser impossível apenas detê-lo e que o uso da força mortal seja a única escolha). Por isso se Batman surpreendesse o Coringa prestes a matar um inocente, e o único modo de salvar essa pessoa fosse matar o criminoso, Batman estaria justificado em fazer isso. (Conhecendo Batman, no entanto, eu imagino que ele ainda encontraria outra forma).” [2]

Porém, se Batman resolver matar o Coringa somente para salvar inúmeras outras vidas que ele provavelmente matará ele quebrará com seu código moral. Não se sabe com certeza que ele tirará a vida de mais pessoas. Por mais que tenha um padrão bem estabelecido, não se pode dar um fim nele antes que volte a matar. Uma coisa é apontar o Coringa como responsável pelas pessoas que ele matou — e isso incluiria a pena de morte caso não houvesse a alegação de que ele é insano —, outra é matá-lo para evitar uma possibilidade. Possibilidades por possibilidades, o Coringa pode se reabilitar ou mesmo morrer de causas naturais no dia seguinte.

Tudo bem que o Coringa obviamente pretende matar de novo e não deixa dúvidas quanto a isso, então não há dificuldade moral nenhuma em puni-lo. No entanto, ele ainda tem a escolha de mudar de ideia, e é por respeito a essa capacidade de fazer escolhas éticas que não se pode pré-punir ninguém.

Para Batman é uma pena... Serão mais muitos anos de perseguições e batalhas. Mas, para o leitor, o Coringa é diversão certa.

Referências

  • 1 MOORE, A., BOLLARD, B. e HIGGINS, J. Batman: A Piada Mortal. São Paulo: Editora Abril, 1999.
  • 2 WHITE, D. M. e ARP. R. Batman e a Filosofia: O Cavaleiro das Trevas da Alma. São Paulo: Madras, 2008.

Publicação original de 07/07/2011. 3 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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