Nós não vamos ficar pra trás!
Na primeira parte deste artigo, discutimos alguns pontos que colaboram para a atual expansão que o k-pop está vivenciando, especialmente entre os fãs ocidentais de música. Nesta segunda parte, minha proposta é fazer um contrabalanço do que foi explicado anteriormente, apresentando argumentos que colaboram para a força do j-pop atual.
Muitos dos argumentos aqui apresentados já tinham sido escritos antes da publicação da primeira parte desse artigo, mas alguns novos foram levados em consideração graças à participação positiva de alguns fãs de j-pop anteriormente. Vejamos então, quais os pontos fortes do j-pop em comparação ao k-pop, em se tratando de sua expansão no exterior.
O j-pop possui maior veiculação internacional em animes.
Se há um produto asiático que vende bem em muitos lugares do ocidente, certamente este são as animações japonesas. Durante muito tempo, as músicas de anime, em sua maioria, eram produzidas por um nicho específico do mercado musical japonês, isto é, os cantores de anisongs ou dubladores. Entretanto, de alguns anos para cá, as grandes produtoras japonesas parecem estar utilizando mais músicas de artistas de apelo pop em suas criações, o que colabora para a expansão do j-pop no ocidente. É difícil imaginar a popularidade de uma artista como YUI no ocidente, por exemplo, se não fosse a constante exposição de suas músicas em animes. Isso colabora amplamente para a expansão do j-pop, já que dificilmente animes deixarão de ser consumidos no ocidente.
É difícil conhecer k-pop sem ter ouvido antes j-pop, mas o inverso nem sempre é verdadeiro.
Este é um ponto complementar ao anterior. Salvo exceções, a grande maioria das pessoas que se interessam por cultura asiática acaba começando justamente no fandom de animações japonesas. Isso significa que dificilmente alguém que conhece k-pop jamais tenha ouvido, ou tido interesse, em j-pop em um determinado ponto de sua vida. Logo, há maiores chances de alguém começar a ouvir música asiática através das músicas japonesas e não das coreanas.
Por outro lado, também sabemos que muitas pessoas cujo interesse inicial se resumia a animações japonesas acabam abandonando esse fandom em busca de novos interesses, como novelas asiáticas, jogos ou simplesmente a música por si só. Isso significa que, apesar de a grande maioria das pessoas começar ouvindo j-pop, elas podem, em determinado momento de suas vidas, migrar para outros interesses que as afastem desse estilo musical ou as levem a favorecer outros estilos, como o visual kei (que começa a ter uma participação singela em animes também) ou o próprio k-pop.
O mercado musical japonês é o segundo maior do mundo.
Os japoneses consomem muita, mas muita música. Basta observar as vendagens dos artistas japoneses para se surpreender com os números. Isso também é multiplicado pelo marketing extremamente eficaz que os próprios fazem de seus artistas, com várias versões de um mesmo disco sendo lançadas simultaneamente, discos com cupons especiais, promoções e outras táticas para aumentar as vendagens. Mas o que isso implica para os fãs ocidentais de música?
Em primeiro lugar, o lado positivo disso é que simplesmente jamais haverá um momento em que o j-pop se enfraquecerá por completo, simplesmente porque os japoneses gostam de consumir música produzida por japoneses. Logo, os fãs ocidentais terão sempre novos artistas e músicas japonesas para apreciar. Por outro lado, isso significa que não há necessidade para o mercado japonês se expandir drasticamente, simplesmente porque eles já são autossuficientes e ganham bastante com isso. Basta ver como alguns artistas parecem não ter interesse em exposição internacional, o fato de vários fã-clubes japoneses serem limitados a pessoas que moram no próprio país, o pouco uso que os artistas japoneses fazem de ferramentas como YouTube, entre outros. Comparado com os artistas coreanos, que buscam cada dia mais importar seus trabalhos para fora, essa é uma diferença considerável. É também a principal razão porque os artistas coreanos tentam alcançar mercado no Japão e não o contrário.
Os maiores eventos sobre cultura asiática são, em geral, focado na japonesa.
Os grandes eventos que celebram a cultura asiática são geralmente focados na cultura japonesa e, por conseguinte, na música japonesa. Apesar de a colônia coreana ter feito um excelente trabalho de divulgação de seus artistas, bem como os fãs de k-pop estarem bastante envolvidos com seus artistas favoritos, sempre disponibilizando material até mesmo para aqueles que não entendem coreano, os maiores eventos que temos no ocidente, organizados por “não colônias”, são ainda para celebrar a cultura japonesa. Apesar de esses eventos nem sempre darem a devida importância à música japonesa que deveriam, já que ela ainda não é o produto mais popular do Japão no ocidente, muitos promovem shows de artistas japoneses e outras iniciativas a fim de divulgar música japonesa.
Conclusão
A proposta desse artigo num todo, como já foi explicado anteriormente, é analisar que motivos colaboram para a expansão do k-pop no ocidente, e não discutir qual gênero é melhor. Tanto o k-pop quanto o j-pop apresentam diferenças sucintas na musicalidade, forma de compor letras, divulgação dos artistas e outros fatores que não foram abordados aqui. Entretanto, o k-pop parece ter elementos que se assemelham muito mais aos padrões do gênero ocidental pop do que o j-pop. Junte isso aos investimentos que os próprios coreanos tem realizado para divulgar seus artistas fora de suas fronteiras, além de fatores já citados anteriormente, e teremos uma música cada vez mais acessível para um público estrangeiro.
Isso significa que o j-pop um dia deixará de ser popular e conquistar mais fãs? Não. Entretanto o j-pop parece ser mais divulgado e principalmente, apreciado num nicho específico de pessoas, enquanto o k-pop está, aos poucos, tentando quebrar essa barreira. Se o atual expansionismo do pop coreano é apenas algo passageiro, ainda é cedo pra afirmar. Mas é difícil ignorar a crescente popularidade desse gênero, tanto no ocidente como no oriente. De certa maneira, o expansionismo coreano não representa uma ameaça aos fãs de música japonesa, simplesmente porque a música japonesa continuará a ser celebrada e divulgada nos lugares onde ela sempre foi. Para aqueles que não gostam do gênero, no entanto, ter a chance de conhecer um tipo de sonoridade diferente da japonesa, talvez os faça renovar seu interesse pelo vasto mundo dos artistas asiáticos.
Para concluir, gostaria de lembrar que a avaliação de k-pop e j-pop neste artigo levou em consideração especialmente os artistas que trabalham com música pop efetivamente, sendo desconsiderados artistas cujos gêneros se assemelham ao hip-hop, urban e outros que, apesar de trabalharem com gêneros diferentes, acabam sendo colocados na mesma categoria pop. Tanto o k-pop quanto o j-pop possuem uma grande variedade de artistas e gêneros, e seria impossível fazer uma análise justa considerando todos eles.
No demais, este é um artigo de opinião e há provavelmente pontos que precisam ser discutidos e reescritos, tanto na primeira parte como nesta. Agradeço as pessoas que colaboraram com comentários e críticas construtivas na primeira parte e espero a participação dos leitores também nessa segunda parte. Voltaremos agora com a programação normal no Pop Drops.
- suu
Publicação original de 06/06/2010. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.