Não importa qual seja o seu gosto musical, dificilmente você não ouviu falar dos Racionais MC's. E eu começo o post de hoje lembrando de uma conversa que aconteceu no podcast Mano a Mano, apresentado por Mano Brown.
Em um dos episódios, Brown recebeu o ator e comediante Paulo Vieira para uma conversa que passou por diversos assuntos, entre eles saúde mental, vulnerabilidade e a dificuldade de falar sobre aquilo que sentimos.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi justamente a necessidade de ter alguém preparado para ouvir e conversar sobre determinados assuntos.
Porque, mesmo vivendo em uma geração que conquistou mais liberdade para falar sobre sentimentos, ainda existem homens que cresceram aprendendo exatamente o contrário: que precisam ser fortes o tempo inteiro, que demonstrar determinadas emoções é sinal de fraqueza e que determinados problemas devem ser resolvidos sozinhos.
E essa discussão ganha uma dimensão ainda mais específica quando pensamos nas experiências sociais de homens negros e periféricos, como as vivenciadas por Mano Brown e Paulo Vieira. Existem expectativas de masculinidade que podem tornar ainda mais difícil admitir sofrimento, vulnerabilidade ou simplesmente dizer: "eu não estou bem".
E quando eles começaram a conversar sobre isso, uma coisa também me chamou atenção: a juventude e a infância.
Quando falamos sobre saúde mental e prevenção do suicídio, existem pessoas que carregam desde a infância experiências como bullying, violência, abuso, negligência, rejeição ou outras formas de sofrimento, e essas experiências podem afetar profundamente a maneira como elas lidam com suas emoções ao longo da vida.
Quantas vezes nós realmente aprendemos a lidar com sentimentos negativos?
Às vezes eles vêm de outras pessoas. Às vezes vêm de situações que aconteceram dentro de casa. E, em outras ocasiões, precisamos lidar com aquilo que acontece dentro da nossa própria cabeça.
Você pode até conseguir se afastar de alguém que te fez mal, mas continua convivendo com as marcas deixadas por aquela experiência.
E existe ainda uma outra questão: a nossa própria consciência.
Os pensamentos que temos, a maneira como interpretamos determinadas situações e os sentimentos que elas despertam podem se transformar em um peso enorme quando não sabemos como lidar com tudo isso.
Por isso, buscar ajuda não significa necessariamente que uma pessoa chegou ao seu limite.
Pode significar justamente o contrário.
Pode ser uma tentativa de não chegar até ele.
Eu tive a oportunidade de aprender desde criança sobre algumas dessas questões e também de vivenciar situações envolvendo colegas, familiares e pessoas próximas. E, em determinados momentos, me peguei pensando sobre o tamanho da pressão que algumas pessoas carregam.
Principalmente porque existe algo que precisamos entender: nem sempre uma pessoa demonstra aquilo que está passando.
Algumas pessoas continuam trabalhando, estudando, conversando, fazendo piadas, jogando, produzindo conteúdo, encontrando amigos e vivendo normalmente enquanto enfrentam uma batalha que ninguém ao redor consegue enxergar.
E talvez por isso seja tão importante perguntar:
Se você precisa desabafar, você tem com quem conversar?
E mais do que isso:
Você tem alguém que possa te orientar da maneira adequada?
Porque pior do que não procurar ajuda pode ser receber informações equivocadas de alguém que não está preparado para lidar com aquela situação.
E é justamente por isso que existem profissionais e serviços especializados.
O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias, com atendimento realizado por voluntários treinados para conversar e acolher quem precisa.
Mas essa conversa não está restrita ao Brasil.
O Japão, por exemplo, possui uma particularidade histórica e cultural que fez com que temas como suicídio, pressão social, isolamento, trabalho, bullying e saúde mental aparecessem frequentemente em discussões sobre a sociedade japonesa.
E esses temas também chegaram à cultura que nós, geeks, consumimos.
Eles aparecem em animes, mangás, games, filmes e séries.
Isso não significa que uma obra de ficção seja responsável por solucionar um problema de saúde mental. Mas significa que a cultura pode ajudar a criar uma linguagem para falar sobre aquilo que muitas pessoas têm dificuldade de expressar.
E isso também pode acontecer nos games.
Uma reportagem da Forbes destacou pesquisas que apontam como comunidades de games podem favorecer conexão social e bem-estar emocional, mostrando que, para algumas pessoas, aquilo que começa como uma partida online pode se transformar em amizade e uma importante rede de apoio.
É curioso pensar nisso porque, durante muito tempo, videogame foi tratado apenas como uma atividade individual.
Mas quantas amizades começaram dentro de uma partida?
Quantas pessoas encontraram companhia em uma comunidade online?
Quantas vezes alguém entrou em um servidor procurando apenas diversão e acabou encontrando pessoas com quem conseguiu conversar sobre coisas que não conseguia dizer para outras pessoas?
A cultura geek também possui seus próprios exemplos de pessoas que passaram por situações extremamente difíceis.
E quando falamos sobre pessoas que começaram muito cedo na indústria do entretenimento, encontramos histórias que nos fazem pensar sobre o preço que determinadas experiências podem cobrar ao longo dos anos.
Michael Jackson, por exemplo, começou a carreira ainda criança e falou publicamente sobre as dificuldades que enfrentou durante a infância, enquanto ao longo da vida também enfrentou problemas relacionados ao uso de medicamentos.
Heath Ledger, que ganhou um Oscar póstumo por sua atuação como Coringa, morreu em 2008 em decorrência de uma intoxicação acidental causada pela combinação de medicamentos.
São histórias diferentes, com causas e circunstâncias diferentes, e justamente por isso não devem ser tratadas como se fossem a mesma coisa.
Mas todas nos lembram de algo importante: aquilo que acontece com uma pessoa ao longo da vida não desaparece simplesmente porque ela se tornou famosa, bem-sucedida ou admirada.
Um dos casos que mais marcaram os fãs de Power Rangers foi o de Jason David Frank, conhecido mundialmente por interpretar Tommy Oliver, o Ranger Verde.
Além de sua importância para a história da franquia e da relação muito próxima que construiu com seus fãs ao longo dos anos, sua morte em 2022, posteriormente confirmada por sua esposa como suicídio, também reacendeu conversas sobre saúde mental dentro da comunidade.
E isso nos leva novamente para uma questão que considero fundamental, nem sempre conseguimos enxergar o que existe por trás de uma pessoa. Talvez você olhe para alguém e pense que aquela pessoa tem uma vida perfeita. Talvez você veja um artista sorrindo, um influenciador produzindo conteúdo, um ator fazendo sucesso ou aquele amigo que sempre consegue fazer todo mundo rir.
Mas você não sabe necessariamente o que acontece quando essa pessoa fica sozinha.
Existem artistas que começaram suas carreiras ainda muito jovens e que passaram por situações extremamente complexas durante a infância e adolescência. E isso também nos faz pensar sobre a responsabilidade dos adultos em acolher crianças e adolescentes, prestar atenção aos sinais de sofrimento e oferecer o suporte necessário.
Não se trata de transformar uma pessoa famosa em exemplo de uma doença ou de tentar diagnosticar alguém olhando de fora.
Trata-se de entender que fama, talento, dinheiro ou sucesso não tornam ninguém imune ao sofrimento.
E talvez seja justamente por isso que algumas histórias da cultura geek tenham tanto impacto sobre nós.
Eu cresci assistindo a animes nos quais os personagens precisavam cair e levantar inúmeras vezes.
Seiya de Pégaso, por exemplo, virou até meme por apanhar durante praticamente todas as batalhas.
Mas existe algo muito sério por trás dessa brincadeira.
Ele é um personagem que frequentemente continua lutando porque existe alguém que acredita nele. Alguém que lembra que ele ainda pode levantar. Alguém que enxerga uma força que, naquele momento, ele mesmo talvez não consiga enxergar.
Talvez essa seja uma das maiores mensagens que podemos encontrar nos animes sobre superação, ter alguém que acredita na força que você tem pode fazer você levantar e continuar tentando, tantas vezes quantas forem necessárias.
Isso também existe fora da ficção.
Nos esportes, nas amizades, nas famílias, nas comunidades e em tantos outros lugares.
Eu mesmo tive alguém assim na minha vida, meu pai. E talvez por isso eu acredite que exemplos de superação não precisam estar apenas dentro da ficção, eles podem estar sentados ao nosso lado.
Podem ser nossos amigos.
Podem ser nossos familiares.
Podem ser aquela pessoa que manda uma mensagem perguntando se está tudo bem.
Podem até ser alguém que você conheceu jogando online.
Você é a única pessoa que sabe exatamente o que se passa dentro da sua cabeça.
Mas isso não significa que precisa lidar sozinho com tudo isso.
Se você precisa conversar, procure alguém de confiança, um profissional de saúde ou um serviço especializado. E se conhece alguém que talvez esteja passando por isso, não precisa ter a resposta perfeita: estar presente, ouvir sem julgamento e ajudar essa pessoa a encontrar apoio já pode fazer diferença.
Inclusive, quando você pesquisa um pouco sobre o assunto, encontra diversos relatos de pessoas que passaram por momentos extremamente difíceis e conseguiram seguir em frente.
E talvez uma das coisas mais importantes seja lembrar que pedir ajuda não apaga aquilo que você sente.
Pedir ajuda significa reconhecer que você não precisa carregar tudo sozinho.
Eu poderia contar aqui algumas experiências pessoais que gostaria muito de compartilhar com vocês.
Talvez algum dia eu faça isso.
Mas, por enquanto, quero deixar uma pergunta, o que faz alguém conseguir pedir ajuda antes de chegar ao limite?
Talvez seja uma conversa.
Talvez seja um amigo.
Talvez seja um familiar.
Talvez seja um profissional.
Talvez seja uma mensagem recebida no momento certo.
Ou talvez seja simplesmente alguém dizendo:
"Eu estou aqui. Pode falar."
Se você conhece alguém que precisa de ajuda e não sabe como falar ou orientar, compartilhe este post.
Por experiência própria, sei que são pequenos gestos que podem contar muito quando alguém está procurando um motivo...
para permanecer.