Aos 14 anos de idade, eu passava por uma fase que é comum a qualquer adolescente que se julga maduro o bastante para começar a tomar suas próprias decisões. Acreditava ser tão crescida e tão consciente de minhas ações que, pouco a pouco, fui perdendo parte da identidade que me acompanhara desde meus primeiros passos, tornando-me enfim uma mocinha. Obviamente, caro leitor, você haverá de suspeitar sobre que drásticas mudanças eu poderia ter enfrentado, mas não é difícil imaginar quando olhamos ao nosso redor e presenciamos todos nós as mesmas mudanças.

A primeira delas, com certeza, foi no que diz respeito ao comportamento social. Eu não era mais uma moleca, era uma moça plenamente razoável e vivida e, como tal, precisava me portar corretamente. E como todas as decisões feitas acabam afetando as demais que se venha a fazer, decidi que era hora de largar as criancices que todo o universo me ofertara até então, e com isso quero dizer desenhos animados, mesmo.

Claro, eu estava mudando e os meus gostos e hábitos precisavam mudar também. E não há jeito de crescer quando se assiste Dragon Ball, não? Ao menos, eu pensava assim. E num suspiro em última instância, eu resolvi atender ao meu último apelo infantil e me cadastrei num fórum de animes, apenas para satisfazer o último anseio por notícias da terra do sol nascente.

Eu estava tão atordoada com a minha missão de me tornar uma lady que acabei dando o meu cadastro no tal fórum (Kendan era o nome) por esquecido, então, é de se compreender a surpresa com que encarei a nobre visita de um distinto jovem chamado Henrique Duarte ou, simplesmente, Hick.

Este rapaz que me adicionara no MSN numa manhã chata de quinta-feira me falava de um certo sonho que ele tinha desde a mais tenra idade. Seu sonho, dizia ele, era fazer com que as pessoas buscassem dentro de si mesmas aquela única centelha que as fazem vibrar verdadeiramente por algo bom, genuíno e forte. Aquele sentimento que é comum a todos nós e que nos une na mais perfeita devoção e carisma. Segundo ele, esta união só seria possível se todos estivéssemos conectados pelo maior prazer ofertado pelo Criador: a música.

Eu não entendia nada. Não sabia nada de música, tampouco como ela poderia unir as massas em prol do bem-estar coletivo. Em resumo, eu o achei um completo maluco e, apesar de ainda achá-lo, havia algo em suas palavras que me fez sentir intensamente curiosa sobre esse tal projeto.

“Uma rádio”, ele começou. “Eu comecei a ler seus textos no fórum e achei que você daria uma boa DJ”. “Como é que é?”, eu perguntei, na mais absoluta incredulidade. Às vezes é preciso ter certo cuidado na Internet, quando mais quando supõem que a sua locução seja excelente pelo simples caso de você escrever bem, apesar de que no caso a recíproca era verdadeira. E continua sendo, tenho dito.

“Uma web rádio que toca músicas japonesas”, ele continuou e em menos de 5 minutos me apresentou o esqueleto do que viria a ser o império da Rádio Blast!. Eu ainda estava sob efeito da notícia, mas acabei aceitando para a minha própria surpresa. Por sorte, eu não fazia a menor idéia dos problemas que isso me traria.

Semanas após a conversa, discutimos sobre o meu programa, que viria a se chamar Leticidade. Eu tocaria músicas orientais, ocidentais e, na medida do possível, diria algo interessante. Meu piloto, bem me recordo, foi falando sobre o e-mail da rádio. “Mande um e-mail para radioblast arroba dí-meiu (gmail) para mais informações!”. Infelizmente, como o meu computador decadente não agüentava o stream do programa, que na época era o Jetcast, minha posição de DJ da Blast ficou estacionada por mais ou menos um ano, quando finalmente pude exercer a minha função, desta vez no comando do Programa Novo, que tinha por finalidade apresentar os singles japoneses que estreavam durante a semana.

A estréia foi, para mim, o cúmulo da crueldade, pois eu já havia esquecido como o público poderia ser maldoso com um DJ iniciante. Até então, minha experiência na Blast resumia-se a moderar o fórum (que, por sinal, acaba de voltar de um período de renovação) e a auxiliar DJs iniciantes (DJ Naomi, que hoje nem mais existe para a rádio, tornou-se uma grande amiga minha). A pressão foi tamanha que acabei largando o posto, voltando às atividades de sempre.

Porém, a experiência me proporcionou inúmeras felicidades e oportunidades inesquecíveis. Meu primeiro evento, eu me lembro, foi o Carioca Anime. Deu tudo errado, mas foi excelente. Os amigos que fiz, as coisas que aprendi, meus erros e acertos foram todos essenciais na minha vida. E hoje, aos 16 anos, vejo que amadureci muito mais me mantendo ligada a esse universo do que teria caso mantivesse-me afastada dele.

Então, meu querido leitor, meu relato de DJ é o seguinte: apesar de todas as dificuldades, vale a pena lutar pela confiança que depositam em você e independente dos problemas, boa vontade e inteligência contam muito na hora de tirar as pedras do caminho. E eu continuo viva, não?

E o Hick continua louco, pois meu novo programa está para estrear!
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