Em 1989, num jardim de infância da cidade de Ube, na província de Yamaguchi, as crianças chegavam cedo e ficavam olhando para cima. Não era brincadeira combinada. Elas estavam esperando alguém que vinha voando.
Quando aparecia no céu, o pátio inteiro gritava. Descia um pelicano de quase dois metros de envergadura, andava até o portão e entrava na escola como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Ele se chamava Katta-kun.
Ninguém levou o pelicano até lá
Essa é a parte que muda tudo. Katta-kun não era bicho de programa educativo, não era atração contratada e não tinha tratador do lado. Ele morava no Parque Tokiwa, decidia sozinho que queria ir, levantava voo e cruzava os 800 metros que separavam o lago do jardim de infância Meikō. Quase toda manhã.
Em dia de muita animação, chegava às seis da manhã. Ficava esperando as crianças aparecerem.
A escola podia ter espantado ou evitado, mas fez o contrário
Pense na cena com olhos de cá. Uma ave selvagem de dez quilos pousa no meio de trinta crianças de quatro anos. A reação previsível de quase qualquer escola do mundo seria fechar o portão, chamar alguém e acabar com aquilo antes que virasse problema.
O Meikō foi por outro caminho. Deixou entrar. E, mais do que deixar entrar, tratou o pelicano como aluno.
Katta-kun cantava junto nas rodas, deitava na hora da soneca, jogava bola com o professor e levava bronca quando aprontava. Nas imagens da época, uma professora encontra ele bicando a merenda das crianças e dá o sermão que daria a qualquer moleque, sem dó e sem tratamento especial. Ele saiu de fininho.
Até da formatura ele participou. Ficou lá, no meio da cerimônia, vendo os amigos irem embora.
Por que ele era assim
Katta-kun nasceu em 8 de julho de 1985 e foi o primeiro pelicano-rosado do Japão a nascer por incubação artificial. O nome vem de Calcutá, na Índia, terra dos pelicanos que chegaram ao Parque Tokiwa em 1967.
Ter sido chocado por gente explica muita coisa. Filhote de pelicano criado pela mãe costuma disputar espaço com os irmãos de um jeito que raramente sobra mais de um. Katta-kun pulou essa fase inteira. Cresceu achando que o bando dele era formado por seres humanos, e agiu de acordo pelo resto da vida.
É aí que a história para de ser fofa e fica interessante de verdade. A gente costuma dividir o reino animal entre bicho de estimação e bicho selvagem, como se existisse uma linha fixa. Katta-kun passou 23 anos mostrando que a linha é bem mais borrada do que parece, e que boa parte do que a gente chama de instinto é, na verdade, história de vida.
Uma cidade inteira embarcou
A história virou febre nacional. Em 1995, Ube produziu um longa de animação sobre ele, o Katta-kun Monogatari. O orçamento de 100 milhões de ienes saiu inteiro de doação dos próprios moradores, e o filme levou 120 mil pessoas ao cinema.
Ah, e o filme é doido. Começa como historinha de menino e pelicano e termina com os bichos se fundindo numa criatura gigante que solta raio para proteger refugiados numa guerra. Ninguém em Ube parece ter achado aquilo estranho.
Katta-kun morreu em 16 de julho de 2008, boiando no lago do parque onde nasceu. Tinha 23 anos, o equivalente a uns 40 humanos. Deixou um filho, seis filhas e dois netos.
O que ficou
Ube ainda é cheia de desenhos dele. Tem gente na cidade que foi batizada em homenagem ao bicho, incluindo um servidor público que hoje trabalha em Nishinomiya e diz ter orgulho de carregar o nome do pelicano mais famoso da região. No Parque Tokiwa, uma neta de Katta-kun vinda de Shizuoka já formou casal e está chocando ovos.
Nos comentários da reportagem, quem viveu aquilo apareceu:
Convivi com o Katta-kun no jardim Meikō e hoje estou na faixa dos 30. Até hoje não esqueço ele chegando pelo céu e depois voltando para o parque.
@おりょぴぐま, comentário no vídeo da TNC
Fiquei emocionado de ver a professora não dando tratamento especial e repreendendo o Katta-kun direitinho, como se ele fosse mais um aluno.
@takataka8769, comentário no vídeo da TNC
Aparece também, muitas vezes, a mesma frase resignada: hoje isso não rolaria. Questão sanitária, seguro, reclamação de responsável. Provavelmente é verdade, e provavelmente não é só no Japão.
Se você curte esse lado do Japão em que bicho ocupa um lugar que aqui a gente não daria, comente aí que trago mais curiosidades.
E fica a pergunta que o Meikō respondeu do jeito difícil: se um bicho desses pousasse no pátio da sua escola, alguém teria deixado ele ficar?