Eu nunca tinha reparado que a inteligência artificial era algo que talvez estivesse mais perto do que nós imaginávamos, e na franquia Gundam é onde eu me lembro um pouco mais sobre a fala relacionada à inteligência artificial. Porém, depois que eu comecei a pensar um pouco mais sobre isso, entendi que em muitas outras animações, filmes e séries isso já tinha sido apresentado para mim, como por exemplo Perdidos no Espaço, Pole Position, Os 6 Biônicos e muito mais. A lista realmente é muito grande, então talvez seja por isso que eu não estranhe a inteligência artificial e, às vezes, até fique incomodado quando ela não me fornece um resultado esperado.

Mas, para mim, dentro da franquia Gundam particularmente na versão Wing, eu comecei a entender o significado e os potenciais, sejam eles bons ou ruins. Naquela situação em que os pilotos se encontravam, a discussão que eu entendi foi sobre o quão ético é ou não mandar equipamentos não tripulados para lutar em guerras, as implicações disso e principalmente qual a extensão desse uso para o chamado efeito colateral.

Nas produções mais recentes, parece que a coisa tem ficado um pouco diferente. As lutas continuam incríveis, os robôs têm ficado cada vez melhores, mas a história em si não parece mais a mesma. Wing já mostrava uma mudança perceptível em relação ao tom mais cru e político das obras iniciais idealizadas por Yoshiyuki Tomino. Ainda havia guerra, sofrimento e dilemas morais relativamente complexos, coisas que parecem ter mudado para a complexidade dos relacionamentos entre as pessoas. Sabe aquele ditado: “é igual, mas não é diferente”?

Em Gundam Wing foi justamente a introdução mais direta da ideia de tecnologia como substituta do humano na guerra, especialmente com os Mobile Dolls, sistemas automatizados de combate que levantam uma discussão muito atual sobre inteligência artificial, drones e guerra à distância. A obra sugere uma pergunta incômoda: se a guerra for totalmente automatizada, ela se torna mais “limpa” ou apenas mais desumana? Personagens como Heero Yuy, Zechs Merquise e Treize Khushrenada representam diferentes visões sobre honra, responsabilidade e o peso de tirar vidas em um conflito que tenta se afastar cada vez mais da humanidade.

A partir daí, a franquia Gundam começa a se expandir de forma ainda mais diversa. O que antes era um universo mais coeso passa a coexistir com diferentes linhas narrativas, cada uma reinterpretando o conceito de guerra sob novas lentes. Obras como Zeta Gundam e War in the Pocket são lembradas pelo peso emocional e pela crítica direta ao impacto da guerra em civis e soldados, enquanto outras séries exploram estilos mais variados, indo desde dramas militares intensos até formatos mais leves ou até focados em competições e cultura de modelos.

E para mim só ficou tão evidente a mudança na perspectiva da história da franquia quando eu assisti Gundam Mercury, que era praticamente um drama adolescente com robô gigante. Então até que ponto Gundam ainda é visto como uma crítica anti-guerra profunda, mostrando que não existem vencedores reais e que a tecnologia, por mais avançada que seja, não elimina o sofrimento humano? Conceitos como os Newtypes reforçam essa ambiguidade: seriam eles um passo evolutivo da humanidade ou apenas uma nova forma de justificar conflitos cada vez mais sofisticados?

Ao mesmo tempo, o crescimento da franquia e sua transformação em um fenômeno global sob a gestão trouxe uma ampliação de estilos e tons. Algumas obras modernas continuam explorando temas pesados como desigualdade, exploração e crianças em guerra, enquanto outras priorizam acessibilidade, estética e novos públicos. Isso gera uma tensão constante dentro da comunidade: até que ponto Gundam mantém sua essência original?

No centro de tudo isso permanecem os mesmos temas recorrentes, a guerra como tragédia humana, o avanço tecnológico e seus riscos, a manipulação política e o uso de jovens como peças de um tabuleiro que eles não queriam jogar. Mesmo quando o tom muda, esses elementos continuam aparecendo, às vezes mais explícitos, às vezes muito diluídos.

Mas, independente de qualquer coisa, eu continuo sendo um grande fã de Gundam porque, de algum jeito, ele sempre consegue evoluir, introduzir elementos atuais e com isso, superar as minhas expectativas. E é exatamente aí que surge a pergunta que acompanha a franquia até hoje, na sua opinião Gundam continuará como crítica sobre o horror da guerra… ou já se perdeu de forma a usar guerra apenas como cenário?

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