Nesta segunda-feira (21), a Bungie publicou um texto e um vídeo anunciando que o conteúdo que foi para o cofre de Destiny 2 vai voltar e que Marathon vai virar uma experiência de sobrevivência mais profunda. A notícia em si a gente já contou. Aqui eu quero falar do que está por trás dela: quem assinou, de onde essas pessoas vieram e o que isso diz sobre quem decide as coisas na Bungie hoje.

Quem estava no comando antes

Pete Parsons foi CEO da Bungie de 2016 até agosto de 2025. Foi a gestão dele que criou o cofre de conteúdo, vendeu o estúdio para a Sony por US$ 3,6 bilhões em 2022 e levou a Bungie a tocar vários projetos ao mesmo tempo. Nos últimos anos, Destiny 2 perdeu fôlego, Marathon foi adiado, vieram demissões em 2023 e 2024 e, no meio disso, reportagens sobre os gastos dele com carros de coleção enquanto 220 pessoas eram cortadas. Quando ele saiu, o clima da comunidade estava no pior ponto da história do jogo.

Quem assumiu foi Justin Truman, com uns 15 anos de casa. Ele começou como engenheiro no primeiro Destiny, desenhou sistemas importantes de Destiny 2 e chegou a gerente geral do jogo e diretor de desenvolvimento. No papel, era a escolha óbvia: o cara do produto assumindo o estúdio.

Não deu certo. Em menos de um ano sob Truman, Marathon lançou abaixo do esperado, a Sony registrou uma baixa de US$ 765 milhões na Bungie, Destiny 2 teve o desenvolvimento encerrado e, em 25 de junho de 2026, 292 pessoas foram demitidas, cerca de metade do estúdio. Truman saiu na mesma semana.

A leitura que eu faço, com olho de produto: ele conhecia o jogo por dentro, mas herdou uma empresa com prioridades demais, dinheiro de menos e uma comunidade sem paciência nenhuma. Conhecer o produto não é o mesmo que conseguir tocar a operação de um estúdio em crise, e a Bungie daquele momento precisava da segunda coisa.

Quem assumiu agora

Poria Torkan não veio de fora. Ele está na Bungie desde 2015, sete anos antes da compra pela Sony, e fez carreira em operações: foi vice-presidente de Operações e chefe de gabinete do estúdio. Antes disso, segundo a imprensa especializada, foi produtor de Killzone na Guerrilla Games, estúdio da PlayStation.

Josh Deane, que divide o anúncio com ele, também é da casa. Foi diretor da franquia Destiny, depois chefe de publicação e de estratégia de franquia, e em junho virou Head of Product e gerente geral de Marathon. É um perfil de mercado e de produto, de quem olha para onde o jogo vai e para quem ele fala.

Em outras palavras, a Bungie agora tem uma dupla de execução no topo: um cara que sabe fazer a máquina andar e outro que sabe para onde apontar.

A Bungie não decide mais sozinha

Aqui está o ponto que mais me interessa. Quando a Sony comprou a Bungie, a promessa era que o estúdio seguiria independente, fora da estrutura da PlayStation Studios. Essa promessa acabou em 2025, quando a Sony anunciou que a Bungie passaria a ter um papel dentro da PlayStation Studios.

As demissões de junho deixaram isso claro. Quem assinou a carta foi Hermen Hulst, chefe dos estúdios da Sony, dizendo que tinha revisado a direção, as prioridades e o papel da Bungie no portfólio "junto com a liderança da Bungie". E tem um detalhe: Hulst é cofundador da Guerrilla, justamente o estúdio de onde Torkan veio. Não existe informação pública de que foi Hulst quem escolheu Torkan, mas a Sony colocou no comando alguém que conhece a casa por dentro e também fala a língua da PlayStation.

O anúncio desta segunda não cita a Sony uma única vez. Mesmo assim, reabrir o cofre significa refazer iluminação, encontros e sistemas de anos de conteúdo, e isso é investimento pesado num estúdio que acabou de ser desvalorizado em centenas de milhões. Eu não acredito que uma decisão desse tamanho saia hoje sem a Sony em volta da mesa.

E eu vejo isso com bons olhos. Os sinais do texto são de gestão de produto de verdade: menos iniciativas competindo entre si, prioridades mais simples, decisões mais perto de quem faz o jogo, métricas de sucesso revistas e o compromisso de avisar quando os planos mudarem. É o oposto da Bungie que tentava fazer tudo ao mesmo tempo. Com a Sony alinhada e uma liderança de execução, a chance de a gente ver coisa boa em Destiny e em Marathon daqui pra frente ficou bem maior.

O outro lado da moeda

Seria desonesto não falar do risco. Estar debaixo da Sony também significa responder a planilha. Em 2024, a mesma PlayStation fechou a Firewalk Studios semanas depois do fracasso de Concord. A integração que trouxe a Bungie para perto também foi a que cortou metade dela em junho.

Então o otimismo tem condição: o plano precisa entregar. A própria Bungie pediu isso ao dizer que não quer confiança pelo que falou, e sim pelo que fizer. Os próximos meses, com os detalhes do retorno do cofre, o Nightfall Refresh de Marathon em outubro e a atualização Symbiosis em dezembro, vão mostrar se essa nova Bungie é só um discurso melhor ou uma gestão melhor.

Como você leu esse anúncio: virada de gestão ou o mesmo papo furado de sempre?

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