O que acontece quando você mistura um mundo pós-apocalíptico, criaturas que lembram Resident Evil e uma pegada de sobrevivência ao estilo Guerra Mundial Z? Será que isso funciona?
Hoje a gente vai analisar The Last of Us Part I, o remake do clássico da Naughty Dog lançado originalmente para o PS3. Mas com o preço atual dos jogos, será que ele justifica o seu investimento hoje em dia ou é melhor esperar uma promoção? Isso é o que a gente vai descobrir nessa análise desse que é um jogo de ação e aventura com foco em furtividade, sobrevivência e que traz uma ambientação visceral.
Ficha Técnica
- Jogo: The Last of Us Part I
- Gênero(s): ação, aventura, shooter
- Lançamento: Setembro/2022
- Estúdio: Naughty Dog
- Plataforma(s): PC, PS5
Narrativa
Em The Last of Us Part I a gente assume o papel do Joel. Depois de perder a filha durante um surto biológico que levou a sociedade ao colapso, Joel passa a viver em um mundo completamente diferente, onde sobreviver significa enfrentar condições extremamente difíceis e, muitas vezes, desumanas.
Vinte anos depois do incidente, nós conhecemos Ellie, uma garota que pode ser imune à doença que se espalhou pelo mundo e infectou boa parte da humanidade, transformando as pessoas em criaturas irracionais e extremamente perigosas.
E é aí que Joel acaba aceitando a missão de levar Ellie até um local seguro, só que, obviamente, as coisas não são tão simples assim, porque os infectados estão longe de ser a única ameaça que você vai encontrar em The Last of Us.
Durante a campanha encontramos vários personagens, alguns aliados e vários inimigos, e nós vamos mergulhando cada vez mais nesse mundo pós-apocalíptico enfrentando diversos perigos para conseguirmos sobreviver.
A história é contada por meio de cinemáticas que nos permitem conhecer melhor o passado e a personalidade de Ellie e Joel enquanto eles viajam juntos passando por vários lugares, além de bilhetes e cartas que encontramos pelo cenário.
Gameplay
E é justamente aqui que The Last of Us começa a mostrar uma das suas principais características. Diferente de muitos jogos de ação, ele é um jogo mais lento e contemplativo em boa parte da experiência. Você passa bastante tempo explorando os cenários, observando o ambiente e entendendo aos poucos como as mecânicas funcionam.
E o combate segue essa mesma proposta. Aqui, o foco está muito mais em furtividade e estratégia do que em simplesmente sair correndo e atirando em todo mundo. E na real, a furtividade aqui é usada como mecânica básica e não como algo que acontece de vez em quando. Então para quem não está acostumado com esse estilo de jogo, pode ser um pouco frustrante em algumas partes em que é esperado que você vasculhe uma área com cuidado e se aproxime dos inimigos de forma silenciosa antes de partir para uma finalização.
Mas se você gosta de jogos que misturam história, exploração e combates em que você precisa pensar antes de agir, e que envolvem esse tipo de mecânica, The Last of Us tem bastante coisa para te oferecer.
E em alguns momentos ele chega a ser bem punitivo. Você pode precisar de várias tentativas para conseguir passar por um determinado nível. Às vezes, o melhor caminho não é enfrentar todos os inimigos, é descobrir como passar sem ser percebido. E, quando o combate é inevitável, você deve encontrar uma maneira inteligente de usar o ambiente e os recursos que você tem disponível.
Tem horas que você só quer partir direto pra ação, mas o jogo te obriga a diminuir o ritmo; tem horas que você quer ficar escondido, mas os inimigos te encontram; e outras em que você precisa fugir. Isso é algo que a Naughty Dog conseguiu balancear muito bem dentro do jogo.
Em The Last of Us Part I o combate funciona com diferentes tipos de armas. Você tem um arsenal bem farto à sua disposição que incluem armas como pistola, revólver, rifle de caça, shotgun, arco e flecha, pedaços de madeira, barras de ferro e até mesmo taco de beisebol e machado que você adquire ao longo da campanha.
Mas falando da jogabilidade em si, eu tive bastante dificuldade para mirar nos adversários em alguns momentos, principalmente durante o início do jogo em que a mira da arma ficava se mexendo sozinha. E curiosamente, eu acho que essa dificuldade pode até fazer sentido dentro da proposta do game.
A ideia é que você não está controlando um soldado profissional, você está controlando um civil tentando sobreviver. Então, quando você tenta mirar em um inimigo e a mira fica se movimentando, dificultando a precisão, isso acaba passando a sensação real de que você está controlando um cara que não é um soldado profissional.
Durante a campanha você também pode coletar itens como tijolos e garrafas, que podem ser arremessados para criar barulho, chamar a atenção de um inimigo e, então, permitir que você ataque silenciosamente enquanto ele está distraído.
Além disso, existem ferramentas e materiais que permitem melhorar seus equipamentos e fabricar itens como facas, bombas de fumaça e itens de cura, além de podermos fazer upgrades de nossas armas e habilidades.
Outro detalhe que eu percebi é que você nunca sente que tem recursos sobrando. Em alguns momentos as munições são escassas, e isso me lembrou bastante jogos de survival, como Resident Evil 2. Se você sabe que não tem munição suficiente, talvez seja melhor evitar entrar numa briga.
Uma outra mecânica que me lembrou de Resident Evil 2, foi um tipo de infectado que aparece no jogo e que te persegue pelo cenário igual o Mr X, sendo necessários vários tiros pra conseguir derrubá-lo.
Acontece que a inteligência artificial realmente consegue tornar o combate direto bem mais complicado, principalmente se os inimigos estiverem em grupo, o que acontece quase que na maioria das vezes. Eles podem tentar flanquear você, atacar por diferentes lados e criar situações em que você se sente literalmente encurralado, algo que em certos momentos te faz se sentir bem desconfortável.
E é justamente aí que o jogo te faz pensar duas vezes antes de simplesmente sair atirando. O combate também é bastante brutal e obriga você a escolher armas, trocar equipamentos e tomar decisões sob pressão enquanto os inimigos estão avançando na sua direção.
E, pelo menos pra mim, foi necessário bastante tempo para conseguir me adaptar aos controles. The Last of Us tem tantas mecânicas diferentes que o jogo fica constantemente apresentando tutoriais e dicas para lembrar o jogador de como cada coisa funciona.
Talvez fosse mais interessante se algumas dessas mecânicas fossem ensinadas pelo próprio design das fases, como alguns games fazem, mas talvez esse seja justamente o preço de colocar cada vez mais sistemas e mecânicas dentro de um jogo, quanto mais complexas elas ficam menos óbvias elas são.
Uma coisa interessante é que nós recebemos ajuda da Ellie durante a gameplay. Além de ajudar a gente a alcançar lugares que sozinho não seria possível, ela também nos dá cobertura durante os confrontos e traz itens para restaurar a nossa vida, até que em determinado momento nós passamos a jogar com ela durante a campanha.
Algo que eu percebi logo de cara é que a Ellie parece bem mais leve e ágil de controlar do que o Joel. Isso faz sentido considerando a própria parte física do jogo. A Ellie é uma criança, enquanto o Joel é um homem mais velho e mais pesado, então sentir essa diferença no controle é algo que torna a experiência mais real.
E essa diferença também aparece durante o combate: a Ellie é mais frágil no combate corpo a corpo enquanto o Joel consegue sobreviver lutando por mais tempo. Quando ela está sem armas de fogo ou sem o arco, ela fica muito mais vulnerável, e essa diferença acaba influenciando a forma como você joga com cada personagem.
Daí pra frente a gameplay começa a alternar entre os dois personagens e isso é feito de uma forma que casa muito bem com a narrativa, sendo que com o tempo a relação entre Ellie e Joe, que no início parecia conturbada, vai ficando cada vez mais próxima, e os dois passam a formar uma bela dupla para sobreviverem juntos aos perigos que vão surgindo em seu caminho.
Level Design
As fases se passam em várias cidades dos Estados Unidos que percorremos ao longo do jogo. Passamos por prédios, áreas residenciais, subterrâneos e várias construções, que sempre trazem aquela pegada de abandono ou destruição.
As áreas de combate são cheias de obstáculos que nos ajudam a nos esconder e nos proteger de ataques dos inimigos, o que ajuda a planejar um ataque surpresa. É um design que conversa diretamente com as mecânicas de furtividade presentes no game.
A progressão alterna entre momentos de combate e movimentação guiada, além de incentivar a exploração para conseguirmos coletar diferentes tipos de itens.
Um detalhe interessante que ajuda bastante é que quando não sabemos para onde ir, os personagens ficam posicionados em frente ao caminho que devemos seguir, nos esperando e indicando a direção, o que elimina a necessidade de um mapa ou uma bússola.
Falando especificamente dos combates, os inimigos são bem variados. Temos diferentes tipos de infectados, alguns podem ser enfrentados no combate corpo a corpo, enquanto outros exigem o uso de armas e tiros mais precisos em regiões da cabeça. Alguns vão exigir bastante munição enquanto outros são mais fáceis de derrotar.
Também temos seres humanos hostis que tentam impedir a nossa progressão e que costumam aparecer em grupos armados que conseguem nos flanquear e nos atacar pelas costas.
E existe uma coisa interessante nesses confrontos: quando você mira em um inimigo, ele não fica simplesmente esperando você decidir o que fazer. Se você demorar muito para atirar, ele pode atirar em você e em alguns casos isso acontece muito rápido, o que testa a sua velocidade de reação contra a dele, o que acaba sendo impactado pela velocidade e precisão da mira.
Em algumas situações você consegue evitar completamente o combate e passar furtivamente. Em outras, porém, o jogo te coloca dentro de uma espécie de arena e exige que você elimine todos os inimigos antes de continuar, além do fato se trazer mecânicas de holdout, em que você deve sobreviver à uma horda de inimigos enquanto protege uma fortaleza e gerencia os seus recursos.
O ritmo do jogo é bem cadenciado. Em alguns momentos você vai experimentar combates mais difíceis que exigem várias tentativas para conseguir sobreviver, em outros os combates serão mais fáceis. Vai ter situações em que você vai precisar seguir os personagens enquanto eles te conduzem pelas fases do jogo até chegar em um determinado lugar e outras em que você mesmo vai precisar explorar e descobrir para onde ir.
Embora em algumas situações os recursos sejam escassos o jogo te recompensa com frequência quando você derrota um inimigo ou explora um local, te dando munições e ferramentas para fazer upgrades de equipamentos e fabricar itens.
Gráficos
E falando agora da parte visual, The Last of Us Part I impressiona bastante. A direção de arte buscou um visual muito próximo do fotorrealismo, principalmente nos cenários: as fases são extremamente detalhadas e conseguem passar aquela sensação de estarmos caminhando por cidades que realmente existiram, mas que foram completamente destruídas, abandonadas e tomadas pela vegetação.
Os personagens também são muito bem modelados, e mesmo quando algumas coisas acabam parecendo um pouco mais artificiais, dá para perceber o cuidado colocado em cada detalhe.
Você consegue observar o sangue escorrendo dos inimigos depois que eles são atingidos, as expressões faciais dos personagens e até mesmo detalhes das armas enquanto Joel manipula cada uma delas, principalmente ao fazer upgrades.
Em boa parte do jogo você precisa utilizar uma lanterna para enxergar ambientes escuros, seja durante a noite ou dentro de construções com pouca iluminação, e, curiosamente, isso não chegou a ser um problema pra mim, porque a lanterna ilumina bastante o ambiente e permite enxergar o cenário com facilidade.
Objetos simples do cenário conseguem passar uma aparência muito próxima daquilo que esperaríamos encontrar no mundo real, e isso ajuda bastante naquela sensação de imersão.
Mas tem uma característica visual que chama bastante atenção que é o “verde”. A vegetação tomou conta de praticamente todos os lugares. Prédios, carros e construções foram sendo cobertos pelas plantas, e isso cria uma paleta visual muito expressiva, além de evitarque uma cidade destruída fique visualmente monótona. O resultado é um impacto visual muito forte.
Ambientação
E falando em imersão, uma das coisas que mais me chamou atenção em The Last of Us foi justamente a sua atmosfera. Desde o começo, o jogo consegue transmitir uma sensação muito visceral de colapso social. E uma das formas que ele faz isso é colocando você dentro desses acontecimentos enquanto a gameplay está acontecendo.
Você vê explosões, pessoas correndo desesperadas pelas ruas e situações de fuga acontecendo em tempo real durante a gameplay. O jogo também utiliza elementos do próprio cenário para contar essa história, um exemplo são os noticiários na televisão, que ajudam a mostrar aos poucos como a estrutura da sociedade está desmoronando.
Essa ambientação lembra bastante obras como Guerra Mundial Z, Resident Evil e The Walking Dead, sendo que alguns ambientes, principalmente determinados becos e áreas urbanas, me fizeram lembrar bastante de Raccoon City.
Apesar de trabalhar com uma temática pós-apocalíptica e apresentar combates bastante violentos, eu achei que o jogo conseguiu equilibrar bem esse aspecto. A violência existe, mas não chega a ser algo insuportável ou que causa um grande desconforto.
E tem um detalhe no combate que eu achei muito interessante que é a reação dos personagens quando eles são atingidos. Às vezes você acerta um tiro e o inimigo não morre, ao invés disso ele cai no chão, demonstra que sentiu o impacto, parece estar machucado, mas ainda tenta se levantar e continuar lutando. São pequenos detalhes como esse que fazem o combate parecer mais físico e real.
E, pra mim, essa sensação de combate mais realista é um dos aspectos mais marcantes de The Last of Us Part I. A ideia de The Last of Us é fazer você sentir a experiência de sobreviver em um mundo pós-apocalíptico sob condições insalubres. Em alguns momentos você vai ter que lutar, em outros vai ter que fugir e em outros vai ter que se esconder. Se você gosta desse tipo de experiência, provavelmente vai gostar bastante desse game.
Trilha Sonora
As músicas de The Last of Us foram compostas por Gustavo Santaolalla e utilizam arranjos que trazem dedilhados de violão muito expressivos, algo que combina perfeitamente com a proposta do jogo.
A música tema que toca em diferentes momentos ficou na minha cabeça durante um bom tempo e para ser sincero foi a única que me marcou ao longo de todo o jogo.
As dublagens também são muito importantes, principalmente o trabalho de Troy Baker como Joel e Ashley Johnson como Ellie. E o interessante é que essas atuações não aparecem apenas durante as cutscenes, os personagens continuam conversando durante a própria gameplay, e isso faz com que a gente os conheça melhor enquanto jogamos e, consequentemente, criemos uma conexão maior com eles, o que ajuda na imersão.
O som também é utilizado como uma mecânica de gameplay. O jogo fornece feedback através do som quando estamos diante de situações perigosas, emitindo uma trilha cheia de tensão, e alguns inimigos são muito sensíveis aos sons que produzimos, os ajudando a identificar a nossa localização. Por isso, em determinados momentos, precisamos nos movimentar de forma furtiva para não chamarmos a atenção.
Até mesmo a intensidade com que movimentamos o personagem pode fazer diferença sendo necessário mover o analógico com cuidado, algo que certamente será mais difícil de fazer se você estiver jogando no teclado e mouse.
E, quando um inimigo percebe nossa presença, ele pode alertar os outros integrantes do grupo. A partir daí, todos sabem onde estamos e o combate fica muito mais difícil.
Performance
Antes de falar sobre a performance, um disclaimer rápido: eu joguei a versão de PC instalada em um HD Externo, rodando em um AMD Ryzen 7 com uma RTX 3060 de 12GB e 32GB de RAM. Como esse jogo teve um histórico bem conhecido de problemas de otimização no lançamento, a minha experiência teve alguns problemas, principalmente no carregamento inicial e na compilação de shaders que demoraram bastante para finalizar.
Se você rodar o jogo direto em um SSD NVMe, sua experiência com certeza será mais fluida que a minha, mas vale o registro de como ele se comportou aqui.
Também tive alguns problemas durante as cinemáticas, incluindo momentos em que o áudio da dublagem ficou atrasado em relação ao vídeo, principalmente no começo do jogo. Além disso, aconteceram algumas travas de FPS durante a gameplay, mas felizmente eram travamentos que duravam poucos segundos e, no geral, não chegaram a comprometer a fluidez da experiência na maior parte do tempo.
Se você reduzir a qualidade gráfica do jogo nas configurações isso pode aliviar o impacto, mas no geral a versão de PC tem alguns problemas de otimização. O mesmo parece não acontecer na versão de PlayStation 5. Então se você puder jogar no console, vai ser bem melhor.
Conclusão
Dito tudo isso, eu reconheço que tecnicamente The Last of Us Part I entrega uma experiência incrível com grande foco na parte cinematográfica e na ambientação pós-apocalíptica, que parece misturar ideias de várias obras diferentes, como TWD, RE e Guerra Mundial Z.
Se você gosta desse tipo de temática, com mecânicas de ação e furtividade, vale a pena conferir o que a Naughty Dog conseguiu entregar, principalmente se você nunca teve contado com o jogo original antes, esse remake pode ser sua porta de entrada para conhecer a série, como foi o meu caso.
Gostou da análise? Este artigo é uma adaptação do vídeo publicado no meu canal LDevGamer que você pode conferir abaixo. Se você curte ensaios sobre game design e quer ajuda pra decidir se um jogo vale o seu investimento, se inscreve lá!