Resenha de Kyōjin Nikki, de cali∦gari (Missitsu Neurosis, 2011). Nota: 5,0.
Quando uma banda antiga volta, sempre acontece como nos relacionamentos amorosos. É como voltar com aquela ex-namorada da época do colégio ou quando os seus pais tentaram se aproximar depois daquele divórcio sujo que deixou ele só com um par de cuecas. Os reatados passam as primeiras semanas repetindo tudo que fizeram de marcante no passado.
Depois de um tempo, nós cansamos. Tudo que tentava fazer de novo não dava certo... Escrevia poemas, levava ela para jantar em restaurantes com luz de velas e pedia a comida em francês. O garçom trazia as coisas mais estranhas.
Uma vez até me estiquei sobre a mesa para beijá-la. Acho isso o máximo do romântico. Ela disse “Por favor, aqui não, as pessoas ficam olhando”. Uma vez, num restaurante no Leblon, derrubei todo o coq au vin em cima do vestido dela. Você acha graça? Ela disse que era o símbolo da minha falta de jeito. Talvez seja...
Todas aquelas manias chatas que ela tinha voltaram a me irritar. Porque ela sempre larga as coisas pela casa? E como alguém pode gostar tanto desses CDs terríveis da Adriana Calcanhotto?
Não faz nem uma semana que nos separamos e o Orkut dela já anunciava que estava namorando. Renata sempre vinha com a desculpa de privacidade para não mudar seu status quando estávamos juntos.
O novo idiota era alto, forte, bonito, louro de olhos azuis. Quando foi que ela começou a gostar de nazistas?! Não que eu me sinta inferior, sou um cara normal. Talvez só um pouco mais baixo do que o normal.
Uns amigos me conseguiram um encontro com uma menina de Niterói. Disseram que as garotas de lá são quentes. Mal vejo a hora de estarmos na horizontal.
Eu e Renata não fazíamos sexo há meses! Dizia que antes eu era diferente. Era mais agressivo. Mas, todo mundo é mais agressivo no início, não? É natural quando estamos tentando impressionar o parceiro. Se mantivesse o mesmo ritmo, ia ter um enfarte.
Em tempo, me considero um animal, mesmo meu analista dizendo que sou o único homem que ele conheceu com Inveja do Pênis.
Vou conquistar essa garota de Niterói! Seria incrível se eu e ela nos apaixonássemos à primeira vista! Por que não?
Mas, e se ela me achar um intelectual neurótico? As pessoas costumam achar isso porque uso óculos e tenho todos esses livros do Woody Allen... Renata sempre reclamou deles... Histérica...
OK, acho que vou passar o resto do mês chorando só de ver a previsão do tempo. Mas, a separação às vezes é o melhor remédio para a mediocridade.
Publicação original de 04/05/2011.