Resenha de BXI, de Boris e Ian Astbury (Southern Lord, 2010). Nota: 7,5.

Ian Astbury vem desde 1999 aos trancos e barrancos na sua carreira. Após o segundo hiatus do The Cult e entrevistas polêmicas sobre drogas com o chatíssimo Dr. Drew, Ian se meteu em uma enrascada muito maior do que qualquer entorpecente: a malfadada reunião do The Doors. Capitaneado por dois quartos da banda original, o guitarrista Robby Krieger e o tecladista Ray Manzarek, o The Doors of the 21st Century é um dos caça-níqueis mais cara de pau da história da música. A imagem do The Doors está essencialmente ligada ao falecido Jim Morrison, fazer uma reunião da banda sem ressuscitar o cara é tão honesto quanto uma novela do Manoel Carlos. Por mais que eu entenda os muitos motivos para ele entrar nessa roubada — sempre foi extremamente influenciado pela banda e mesmo a imprensa o classificava pejorativamente como um clone do Jim Morrison —, não dá para não achar que ele queria engordar a conta bancária.

Porém, Ian não é só um mercenário. Reviveu o The Cult com bons discos, lançou uma carreira solo razoável e participou de uma imensidão de projetos (até no zilch, banda do falecido hide, ele fez presença). BX1 é mais um do último caso, agora com os japoneses do Boris. A banda está ficando popular no Ocidente. Com uma discografia de qualidade invejável, povoada por flertes com o doom e sludge metal, rock psicodélico e viagens abstratas, o trio é motivo de amores para publicações como SPIN e Blender. Fora as muitas turnês pelo Ocidente. Os álbuns dos caras são tão legais que eu mal conseguiria escolher um só para indicar. Talvez o único fator que gere um estranhamento são os vocais. O baterista Atsuo parece rosnar, o baixista Takeshi canta como quem não quer nada e a guitarrista Waka tem uma voz doce que parece um chamado do além daqueles filmes de cavaleiro da Sessão da Tarde. Então, juntar um instrumental mastodôntico a um grande vocalista é uma ideia obviamente ótima até para o maior dos idiotas. E o resultado é bem legal!

“Teeth and Clouds” abre o álbum num clima bem diferente do raivoso Variations, coletânea do lado mais pesado do Boris lançada este ano. Esta música e todo o resto do EP prima por um lado melodioso e atmosférico. Os riffs sincopados, somados à sempre bela interpretação vocal de Ian, garantem a beleza da faixa. “We Are The Witches” é mais tensa e lembra Black Sabbath, cheia de influências de doom metal totalmente realçadas pela produção bem crua. “Rain” é um cover da fase post-punk do The Cult, cantada não pelo convidado especial, mas pela quase infantil Wata em meio a um festival de overdubs de guitarra. “Magickal Child” tenta um caminho épico, mas seus poucos cinco minutos são cansativos e parecem nunca terminar. Acaba sendo a única faixa chata do disco.

BXI é mais um grande resultado de quando bons músicos resolvem trabalhar juntos. Talvez não faça jus ao alto nível dos melhores trabalhos do Boris ou da consagrada história do The Cult, mas boa música nunca é demais. Uma porta de entrada para conhecer ambas as bandas.


Publicação original de 04/01/2011.

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