Park Chan-wook (Park corresponde ao nome de família) nasceu dia 23 de agosto de 1963 em Seul. Seu envolvimento com cinema não nasceu de trabalhos em uma locadora ou experimentações com a câmera desde criança. Em consequência de não ter sido admitido na Faculdade de Estética de Seul, ele preferiu ingressar na Universidade Católica de Sogang, especificamente no curso de Filosofia.
Durante seus estudos, se devotou ao estudo da arte e estética, publicando ensaios críticos e resenhas. Até que descobre um círculo de estudantes chamado “movie gang” (em português, “a gangue do cinema”). Nesse grupo, conheceria sua futura esposa. Originalmente tentando ser um crítico de arte, desiste após assistir com o grupo de cinema o filme Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958) de Alfred Hitchcock. Ponto decisivo para que desistisse da carreira de crítico e tentasse ser um cineasta.
Após a graduação, começa a escrever artigos sobre cinema para jornais e revistas locais, também realizando trabalhos menores dentro da indústria cinematográfica. Em 1990, seu amigo Kwank Jae-young, diretor de filmes como Yeopgijeogin Geunyeo (My Sassy Girl, 2001) e Nae Yeoja Chingureul Sogaehabnida (Windstruck, 2004), debutando como diretor precisava de um assistente.
Park passa a trabalhar em todo tipo de serviço (traduções, correções, contatos e até entregar material de divulgação nos cinemas) para juntar dinheiro para o seu próprio projeto. Na época, também trabalha como diretor assistente para Yoo Young-jin. Finalmente consegue fazer Dal-eun... Haega Kkuneun Kkum (Moon Is... The Sun’s Dream, 1992).
Dal-eun... Haega Kkuneun Kkum (Moon Is... The Sun’s Dream, 1992)
No filme, Mu-hoon é um gangster em Busan, meio-irmão de Ha-young, um fotógrafo de sucesso. Quando Mu-hoon é pego tendo um affair com a mulher de seu chefe, Eu-joon, os dois fogem com o dinheiro de toda a organização. São pegos, mas Mu-hoon consegue fugir. Eu-joon, no estilo Bogart de como se tratar uma mulher, ganha uma cicatriz na bochecha e é vendida pelos gangsters para a prostituição. Um ano depois, Mu-hoon encontra uma foto da mulher no estúdio de seu irmão. Tentando encontrá-la, ele é surpreendido pela máfia. Após o assassinato de Eu-joon, Mu-hoon aceita o trabalho de matar um homem, até descobrir que o seu alvo na verdade é o melhor amigo, Man-soo. Apesar do filme ter sido feito com poucos recursos, o resultado final é interessante, graças ao roteiro e criatividade de Park. Mas, isso não foi o bastante para ter feito sucesso.
Park passa por um período dificílimo aceitando qualquer emprego para conseguir dinheiro para um segundo filme. Nesse momento, trabalha em programas de TV, como assistente numa videoteca, tenta vender seus ensaios críticos para revistas.
Ele consegue a chance de trabalhar com dois dos grandes produtores naquele momento: Lee Joon-ik (fundador da Cineworld e, recentemente, diretor de Wang-ui Namja (The King and the Clown, 2005) e Jo Cheol-hyeon (que dirige a Tiger Pictures). Eles planejavam um novo filme, Anarchists, sobre os anos vinte, a ocupação japonesa e o governo provisório em Xangai, problemas não muito comentados fora da Coreia. Park foi convidado a ser o diretor, mas recusou, pois, agora com a quantia necessária, poderia concentrar-se em Saminjo (Trio, 1997), seu segundo filme.
Saminjo (Trio, 1997)
Cinco anos após o début, Park demonstra mais controle da câmera num roteiro que mistura humor e crime, ambos de maneira tipicamente coreana. O filme também não foi bem aceito pela audiência e Park considerou seriamente a aposentadoria. Hoje, Saminjo é provavelmente o filme mais raro do diretor. Até mesmo seus curtas ou trabalhos só como roteirista são mais acessíveis. Um desses foi Sinpam (Judgement, 1999), uma crítica dura e concisa ao capitalismo baseada num evento ocorrido na Coreia do Norte. Graças à boa repercussão, Park finalmente conseguiu algum sucesso: foi escolhido para a escalação do Clermont-Ferrand Short Film Festival.
Mais uma vez a Cineworld convidou Park (em colaboração com Lee Moo-yeong) a escrever um roteiro, originalmente uma história fútil criada por produtores, mas que teria potencial na mão de bons escritores. Park e Lee deram um toque totalmente original e transformaram o script idiota num drama de humor negro. The Spy (1999) foi dirigido pelo futuramente renomado Jang Jin. O filme, como muitos outros naquele ano, teve rendimento de bilheteria prejudicado pelo sucesso colossal de Matrix.
Mesmo assim, foi o início de um bom período para a Cineworld. Em 2000, Park é convidado para escrever e dirigir Anakiseuteu (Anarchists, 2000), mas ele recusa em virtude de uma proposta melhor. Porém, escreve o roteiro com o mesmo parceiro de The Spy, sendo o filme dirigido por Yoo Yong-shik. Uma grande produtora, a Myung Films, oferece uma quantia impressionante de dinheiro para Park finalmente mudar os rumos da sua carreira. E assim foi.
Baseado num romance de Park Sang-yoon, Gongdong Gyeongbi Guyeok (J.S.A. – Joint Security Area, 2000) é uma história de mistério político-militar ambientada na linha entre a Coreia do Sul e a do Norte.
Gongdong Gyeongbi Guyeok (J.S.A. – Joint Security Area, 2000)
A história começa quando dois soldados norte-coreanos são assassinados na ZDC (Zona Desmilitarizada da Coreia). Alarmes soam de ambos os lados e soldados rapidamente chegam à cena, resultando numa troca de fogo. É um trabalho recheado de humor e calor humano, sucesso pessoal e comercial entre críticos, público e festivais internacionais de cinema. J.S.A. elevou Park aos primeiros escalões dos diretores e autores modernos.
Pela época, trabalhou novamente com Lee Moo-yeong no roteiro de The Humanist (2001), uma comédia noir com toques daquele lado pesado em personagens desumanizados que utilizaria tantas vezes nos anos posteriores. Com Boksuneun Naui Geot (Mr. Vingança, 2002), se estabelece com um trabalho pessoal no panteão dos melhores diretores de cinema contemporâneos da Coreia.
Boksuneun Naui Geot (Mr. Vingança, 2002)
Em Mr. Vingança, o personagem Ryu, um garoto cego e mudo, tenta de qualquer forma conseguir dinheiro para custear o transplante de rim da sua irmã. Com uma pequena pérola sobre fatalidade, desespero e toques brutos de controvérsia, Park conquistou de vez a atenção ocidental.
Junto a Lee, Bae Chang-ho, Kwak Jae-yong e Lee Young-jae fundam a EGG Films, sociedade em prol da promoção e segurança de filmes independentes de diretores coreanos através de contratos de longo período. O primeiro resultado da nova empreitada foi A Bizarre Love Triangle (2002), escrito por ele e Lee, sendo que o último dirigiu o divertidíssimo filme. Subsequentemente, Park participou de Yeoseot Gae-ui Siseon (If You Were Me, 2003), belíssimo filme dividido em seis episódios diferentes, cada um por um diretor e totalmente financiado pelo governo. O tema de todos era o mesmo: a discriminação na sociedade. Park contribuiu com N.E.P.A.L., acrônimo de Never Ending Peace and Love, um pseudo-documentário sobre como os imigrantes são tratados na Coreia do Sul moderna.
No entanto, logo após isso, se volta para a estética da violência e o tema da vingança novamente com seu mais importante trabalho, Oldboy (2003). Vencedor do prêmio Grand Jury e distribuído em vários países, Oldboy flertava com Kafka, tornando-se clássico quase instantâneo.
Oldboy (2003)
Em 2004, participa com um episódio visualmente forte e intenso em Three... Extremes. Os outros diretores são o japonês Takashi Miike (One Missed Call, Ichi The Killer) e o chinês Fruit Chan (Heart of a Dragon, The Longest Summer). O último filme da chamada Trilogia da Vingança vem com Chinjeolhan Geumja-ssi (Lady Vingança, 2005). Seu quinto filme, Lady Vingança foi exibido no Festival de Veneza, sendo reconhecido como um exemplo do cinema artisticamente maduro e expressivo. Sem compromissos com maneiras, um roteiro atual e controverso.
Chinjeolhan Geumja-ssi (Lady Vingança, 2005)
O reconhecimento internacional veio tanto em forma de prêmios quanto de fãs ilustres. Quentin Tarantino ficou visivelmente irritado quando em Cannes deram o prêmio a Fahrenheit 9/11 de Michael Moore, e não a Oldboy. Tarantino chegou a fazer campanha por Park, sendo que era o juiz que encabeçava a mesa. Tarantino já citou muitas vezes J.S.A. como sendo um dos melhores filmes já feitos desde os anos 90. Ssaibogeujiman Gwaenchanha (I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006), uma comédia romântica passada dentro de um hospício. Ganhou prêmios como Alfred Bauer e o 57º Festival Internacional de Berlin.
Ssaibogeujiman Gwaenchanha (I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006)
Young-goon, uma jovem que trabalha numa fábrica construindo rádio, acredita ser um cyborg. Para institucionalizar o fato, corta o pulso e tenta conectá-lo a energia elétrica com o intuito de recarregar suas energias, ato esse interpretado por todos como uma tentativa de suicídio. Young-goon para de comer, no lugar de comida, lambe pilhas e baterias para levar choques elétricos. Passa a se relacionar quase que somente com máquinas ou aparelhos elétricos, sempre ouvindo seu rádio à noite, esperando por instruções para tornar-se um cyborg melhor. Uma história bem louca que pouco tem a ver com todos os trabalhos anteriores, mas resultou num dos melhores filmes do diretor.
Bakjwi (Sede de Sangue, 2009) aborda a vida de um padre, apaixonado pela mulher de um amigo, que se torna um vampiro após a falha de experimento médico. Em entrevista, Park comenta: “esse filme era originalmente chamado O Morcego para trazer um senso de humor. De qualquer forma, é sobre vampiros. Mas tem algo mais. É sobre paixão e um triângulo amoroso. Sinto que é único por não ser só um thriller, e não só uma história de horror, mas um conto de amor ilícito”. É o segundo filme coreano, e o primeiro de grande público, a conter uma cena de nudez frontal adulta.
Bakjwi (Sede de Sangue, 2009)
Thirst (como é chamado nos países de língua inglesa) ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 2009. Também entrou na programação do nosso Festival do Rio de Cinema. Park ainda participou como escritor em Sonyeon, Cheonguke Gada (Boy Goes to Heaven, 2005) e Misseu Hongdangmoo (Crush and Blush, 2008). Seu curta-metragem Paranmanjang (Night Fishing, 2011) é um filme de horror e fantasia inteiramente filmado com os recursos do Apple iPhone 4.
Seu novo projeto é Stoker, o primeiro filme que fará em inglês. Escalados estão Mia Wasikowska, Colin Firth e Nicole Kidman. O colaborador de roteiro Wentworth Miller confirma que, apesar do título, o filme não terá vampiros.
Publicação original de 12/07/2011. 9 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.