Algo diferente
Como vão todos, pessoal da Rádio Blast!? Como prometido, cá está mais um artigo cujo propósito é indicar alguma obra para nossos ouvintes e leitores. Como dito anteriormente, não há nenhuma restrição quanto ao tipo, gênero e origem dessas indicações. Dessa forma, não importa se é de um filme, livro, quadrinho, disco ou qualquer outra mídia. Se for digna da atenção de nossos leitores, vai ser recomendado por aqui.
Diferentemente do Japanice, no qual as postagens são contínuas, as indicações, que acontecem em diferentes blogs da rádio, como o Na Ponta do Lápis, este e, mais futuramente, o 7ªrte, não serão periódicas, e acontecerão somente quando uma nova produção artística se mostrar interessante o suficiente para ser compreendida na forma de artigo. Vocês podem participar recomendando obras que gostaram e consideram dignas de serem analisadas, é só mandar um e-mail pra [email protected].
Na estreia dessas indicações, recomendei um clássico da literatura fantástica. Do mesmo autor de O Senhor dos Anéis, O Hobbit é um livro sem precedentes e que veio pra influenciar muitas outras obras pela frente. A obra escolhida como tema deste artigo, apesar de bem diferentes em alguns pontos, compartilha em outros a mesma facilidade e leveza encontradas em O Hobbit.
Hoje vamos falar de algo tipicamente japonês, e talvez por isso seja um pouco mais presente no cotidiano de quem acompanha a RB! Falo de um mangá, mas não um mangá daqueles que normalmente ganham destaque aqui no Brasil, com enorme quantidade de ação e tudo que um adolescente de 12 a 16 anos tem direito a gostar. Um típico mangá japonês que explora as loucuras e desvarias que seu povo considera normal. Chega de acompanhar uma saga por semanas a fio, tudo aqui acontece de forma completa, com começo, meio e fim breves, o que sempre deixa o leitor apto a parar ou continuar quando quiser sem perder nada. Doses generosas de humor japonês em consonância com uma simplicidade e carisma difíceis de serem encontrados hoje em dia: é de Sket Dance que estamos falando.
Sket Dança?
Sket Dance é um mangá publicado desde 2007 por Kenta Shinohara na Shōnen Jump semanal e não tem nada a ver com dança. A Shōnen Jump é a mais famosa das incontáveis revisas japonesas dedicadas inteiramente à publicação de mangás shōnen, para meninos na idade de 12 a 14 anos. A Jump é o lar dos quadrinhos mais famosos de todo o Japão, como One Piece, Naruto, Bleach e tantos outros. Sket é um “gag mangá”, denominação usada para determinar mangás humorísticos por natureza, os quais possuem uma função extremamente diferente das séries mais famosas, as quais estão acostumadas a vender milhões e milhões de cópias na primeira semana de lançamento.
Ao contrário dessas tão famosas séries que exigem do leitor anos e anos de acompanhamento em uma história muitas vezes tensa e de denso conteúdo, um gag mangá existe como uma espécie de passatempo ou algo engraçado para se ler enquanto um novo capítulo de sua série preferida não chega. A principal característica desse estilo de quadrinho é sua capacidade em “descansar”, por sua capacidade humorística, o leitor que se satura de ler sempre o mesmo tipo de história exaustivamente cheia de ação. Dessa forma, uma produção do estilo gag não necessita seguir a risca um roteiro extremamente bem planejado e complexo, uma vez que seu intuito não é o de necessariamente vender nas mesmas proporções de um One Piece, por exemplo. Assim, os autores de gag mangás ficam livres para explorar ao máximo o mundo que criam sem a velha obrigação de produzir o que o público quer, e sim o que sua capacidade artística promove dentro do que for possivelmente comercializável.
Sket Dance é, sobretudo, um mangá de humor feito sob medida pra ser o mais engraçado possível, variando entre o “sem sentido” e o “humor inteligente” para isso. Ao contrário de outros quadrinhos e produções japonesas desse gênero, Sket, apesar de algumas vezes usar do humor tipicamente bizarro japonês, é engraçado justamente por apresentar estereótipos da sociedade japonesa de forma crítica, mas não ofensiva. O diferencial da obra de Kenta Shinohara é a forma como ela brinca com as diferentes personalidades genuinamente japonesas através da sua enorme gama de personagens, que apresenta todas as formas possíveis que um japonês em idade escolar pode ser, tudo muito bem caricato. Dessa forma, muito mais do que um simples quadrinho humorístico, a obra também pode ser compreendida como uma espécie de crítica aos padrões sociais japoneses, por mais subjetiva que essa afirmação possa ser.
Por conta dessa característica única, o mangá tem muito mais a nos apresentar sobre a sociedade japonesa e seus clichês adolescentes do que possamos imaginar. No entanto, da mesma forma que esse é um aspecto que torna tudo hilário pra quem já conhece um pouco da cultura japonesa, também é um fator que limita a obra a esse público. O que faz um povo achar uma história engraçada é tão variável como a sua cultura propriamente dita. Não é sempre que achamos graça em uma piada americana, da mesa forma que nem todo nosso vasto senso de humor brasileiro consegue agradar absolutamente tudo e todos. Posto isso, Sket é por vezes voltado unicamente para o povo japonês. No entanto, não é sempre que as histórias tomam esse caráter de nicho e, quando se propõem a uma espécie de humor universal, o faz muito bem.
Enredo
O enredo de Sket Dance é extremamente simples. Não há nenhum poder especial ou lutas intermináveis. É tudo baseado dentro dos limites do possível, e é incrível como uma base tão fácil de ser assimilada possa ser trabalhada tão bem e de maneiras tão diversas. O cenário é uma escola japonesa como outra qualquer. Como já deve ser comum pra quem conhece o sistema escolar japonês, a formação ou afiliação a grupos escolares é obrigação por parte dos alunos.
Funciona assim: No Japão, cada aluno deve realizar alguma atividade extracurricular por meio de grupos após a escola. Os grupos podem tratar sobre absolutamente qualquer assunto e realizar qualquer atividade, desde que sejam aprovados por um monitor, que geralmente trata-se de um professor. É fácil formar um grupo, bastando ter, no mínimo, mais outros dois colegas que compartilhem da mesma vontade que a sua.
Em Sket Dance, os três protagonistas são os únicos membros de um grupo extremamente estranho. Trata-se de uma espécie de “grupo de ajuda”, cujo dever é tentar solucionar os problemas de qualquer um que bate à sua porta, dentro dos limites do possível. Deu pra perceber o quão diversa uma história com esse início pode ter, e é exatamente esse o ponto alto da obra.
Somos apresentados a Bossun, o líder carismático e extrovertido do grupo, o qual não mede esforços para cumprir suas tarefas. Switch faz o estereótipo do otaku japonês, uma pessoa fechada, a qual não expõe seus sentimentos frequentemente. Nenhuma palavra sai de sua boca. Ele escreve tudo o que deseja em um sintetizador de voz em seu notebook, que ele leva pra onde for. Por fim, a única menina do grupo, Himeko, é uma ex-membro de gangues femininas. Faz o estereótipo da menina esquentadinha por fora, mas totalmente sentimental por dentro.
Ainda que os personagens principais aparentem ser do tipo que todos já vimos em algum outro lugar, tratam-se de personalidades únicas e, acima de tudo, normais. Excluindo-se algumas doses de situações sem sentido que às vezes acontecem, os protagonistas são compreensíveis enquanto seres humanos, algo cada vez mais raro em mangás.
As mil faces
A partir dos fundamentos tão abertos como os apresentados em Sket Dance, o autor fica livre pra trabalhar em diversos outros gêneros, o que funciona maravilhosamente bem. Há capítulos em que a história desenvolvida toma ares de romance aos moldes do shōjo, pra meninas. Em outros, a ação toma conta de toda a trama, sem nada ficar devendo para mangás exclusivos desse gênero. Dessa forma, o autor escolhe que tipo de história quer contar a cada capítulo sem nenhum limite quanto aos elementos. A situação densa do capítulo anterior, a qual envolvia jogos psicológicos e um pouco mais de seriedade é totalmente quebrada no episódio seguinte, onde o humor sem sentido aparece e nos faz confusos quanto ao gênero que o mangá segue.
Há uma enorme gama de personagens em Sket. Cada um se adequa a algum tipo específico de história que esteja sendo contada. Caso o capítulo se volte para um lado mais sentimental, há personagens criados pra isso. Caso a situação demande algo um pouco mais bizarro, também há. É incrível como todos conseguem ser carismáticos mesmo sendo apenas mais um, talvez por conta da caracterização única que cada um detém. Há o fã de Visual Kei escroto que faz pose enquanto fala coisas estranhas e sem sentido. A menina que sonha em desenhar mangás shoujo e vê tudo no mundo dessa forma. O lutador de Kendo que aplica toda a honra e dedicação que o esporte demanda em sua vida. O Japão aparece muito bem representado por todos esses personagens, que, se não são engraçados para alguns, ao menos dizem respeito à realidade.
Início, meio e fim
Além de não ter um gênero definido e poder brincar de ser todos, outro trunfo do quadrinho é de não prender o leitor. Todos que já acompanham certos mangás há algum tempo já devem ter percebido como eles exigem que a leitura seja contínua caso o objetivo seja o de compreender o enredo totalmente. Não há como entender uma saga em três capítulos, e é dever do fã ler todos os capítulos sem perder absolutamente nenhum. Isso, sem dúvida, é uma estratégia de marketing que funciona muito bem. No entanto, não são todos os leitores que têm o tempo e a paciência necessária para acompanhar séries que parecem nunca terminar. Há pessoas que simplesmente desejam uma história fechada para ler enquanto volta pra casa depois de um dia difícil de trabalho. É esse público que Sket alcança, e, por conta disso, talvez, ele seja um mangá tão simpático.
Salvo algumas exceções, a maioria dos capítulos da obra, os quais geralmente têm 20 páginas, são histórias completas. Elas possuem início, meio e fim, tudo bem natural e nada forçado. Isso permite que, por exemplo, leia-se um capítulo agora e outro daqui a um ano sem perder nada da história. O sentimento no fim da leitura é de que nada ficou perdido ou sem explicação, e sim completo no que diz respeito tanto ao enredo em si quanto o desenvolvimento dos personagens.
Esse aspecto pode causar certa aversão por parte dos leitores mais tradicionais de mangá shōnen (para meninos) por conta de estarem acostumados a longas sagas. No entanto, Kenta Shinohara também atende esse público ao, em algumas situações, produzir histórias que demandem certo acompanhamento, o que as deixam melhor acabadas, por consequência. Esse “acompanhamento”, no entanto, diz respeito a simples dois ou três capítulos que envolvem uma só história, o que mantém a identidade rápida e funcional do mangá.
Versão animada
Sket Dance ganhou sua versão em anime em abril de 2011. Não posso avaliar, pois nunca tive a curiosidade de acompanhar, o que não signifique que sua qualidade seja ruim. A produção ficou a cargo da Tatsunoko Production, que fez um trabalho excepcional na animação.
Resumo da Ópera
Sket Dance é um mangá único, o qual parece pertencer a todos os gêneros que uma pessoa possa gostar. Sua capacidade de se “transformar” em vários estilos por conta de sua base extremamente simples é a grande vantagem de suas histórias. Somado a isso, seu caráter de “um capítulo, uma história” deixa tudo mais leve do que já é inerente aos “Gag Mangás”.
É um quadrinho pra ler tranquilamente e sem obrigação nenhuma. Pra quem já se cansou dos antigos e homogêneos shonens de sempre, essa sugestão parece perfeita.
Envie suas próprias sugestões para [email protected]. Até a próxima!
OBS: Agradeço ao Alexandre Lancaster e seu blog Maximum Cosmo, pois foi por conta deles que conheci essa obra.
Publicação original de 18/12/2011. 6 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.