Não teve como evitar:

E então, pessoal da Rádio Blast!, preparados pra mais um Japanice? Depois de desencantar a ideia sobre otomes que todos tinham ao apresentar os gostos, vícios e modos de ser dessas tão “adoráveis” garotas, o tema escolhido desta semana, ao contrário do último, parte para um lado um pouco mais específico da cultura japonesa.

A verdade é que o Japanice tem por ideal se focar em aspectos mais gerais e comuns a toda sociedade japonesa que muitos de nós desconhecemos, os quais são, de fato, extremamente bizarros à primeira vista. Ao compararmos e, acima de tudo, conhecermos características tão estranhas à nossa sociedade, a compreensão do Japão como um todo se torna mais fácil e, sem dúvida, prazerosa.

No entanto, resolvi escolher para o assunto dessa semana um tema diferente, mas não menos impactante socialmente falando. A verdade é que não consegui me segurar e me senti à vontade de falar sobre algo tão presente, seja de forma direta ou indireta, no cotidiano de quem acessa a rádio. Contrariando o aspecto geral das escolhas passadas, o Japanice dessa semana vai tratar, de forma mais aprofundada, da expressão cultural japonesa de maior impacto fora do Japão: o mangá.

Tratando-se de um aspecto da cultura japonesa já tão conhecido por nós, os quadrinhos nipônicos não se encaixam muito bem no perfil de “esquisitices” japonesas a que o programa geralmente diz respeito. Contudo, a forma como o mangá é visto no Japão, bem como a influência que ele provoca e suas subdivisões tão importantes lá fora e pouco conhecidas aqui, são, muitas vezes, desconhecidas pelos fãs brasileiros. O objetivo é fazer com que o gosto que cresce tão exageradamente no Brasil possa ser conhecido e compreendido em sua forma mais tradicional, afinal um assunto de tamanho interesse por nossos ouvintes e leitores não pode simplesmente ser ignorado.

Entenda como o mangá revolucionou absolutamente tudo no que diz respeito aos quadrinhos e à animação, bem como o gigante impacto provocado por ele em todo o povo japonês.

Obs.: O Japanice vai ao ar todos os sábados às 10h e às quartas às 17h.

Uma cultura de massa:

Todos nós somos acostumados a viver com certo grau de cultura popular provocado pelas mídias. Seja via rádio, televisão, jornais, revistas, cinema ou qualquer outro tipo de mídia, os gostos em comum que elas provocam atingem um número enorme de pessoas, que passam a compartilhar suas experiências sobre um mesmo assunto incialmente tratados por um desses veículos de comunicação e arte. Dessa forma, a abrangência e a constância com que as mídias passam a povoar nossas vidas faz com que, muitas vezes, as consideremos como parte integrante de nosso cotidiano. Assistir a um programa famoso desde sempre em um canal de televisão, por exemplo, vira um costume e passa a atingir a vida de milhares de pessoas de forma que o ato de assistir passa a ser um hábito. Assim, um hábito cultural que atinge a todos pode ser chamado de cultura de massa.

No Japão, o mangá é visto como uma mídia qualquer. Como um programa de televisão o qual assistimos todos os dias ou uma revista que vez ou outra lemos, o mangá é algo que praticamente todos os japoneses consomem. Sim, no Japão, são raras as pessoas que não leem mangá, seja de qualquer idade ou região do país. Os quadrinhos, por lá, passaram a ser muito mais do que simples histórias e hoje são verdadeiras representações da cultura nipônica, da qual os japoneses realmente se orgulham em possuir. Dessa forma, o mangá atinge todas as camadas da sociedade. Seja homem, mulher, criança, adulto ou idoso, todos apreciam a bela arte sequencial japonesa.

Mangá lá é pra todas as idades

Em nosso país, os quadrinhos, infelizmente, ainda estão associados às crianças. Ainda que mais e mais exemplos de materiais maduros sejam lançados, os quadrinhos ainda não decolaram definitivamente em nosso país, e a impressão que a sociedade em geral tem sobre eles é a de indiferença, o que acaba por fazê-los não reconhecer seu verdadeiro valor. Portanto, as histórias em quadrinhos, em geral, ainda não são apreciadas com a devida atenção que merecem no Brasil, ao contrário de países europeus como França e Inglaterra, onde são uma arte como outra qualquer.

No Japão, o gosto por mangás chega a um patamar inacreditável. É extremamente normal, por exemplo, topar com adultos empregados, no alto de seus trinta e poucos anos, lendo o capítulo da semana de seu quadrinho preferido enquanto espera o trem chegar. Assim, os quadrinhos são vistos por lá como as novelas e os programas de televisão são vistos pela sociedade em geral por aqui: algo que sempre participa de sua vida, algumas vezes mais intensamente outras nem tanto, mas que sempre estará presente.

No entanto, para atender um público tão grande e variado, os estilos e enredos dos mangás em questão devem ser extremamente específicos e direcionados a cada segmento da sociedade.

Um estilo pra cada gosto:

Se há um aspecto que as sociedades orientais em geral respeitam e dividem muito detalhadamente é a diferença entre os sexos e idade. Assim, os produtos produzidos por lá, muito mais que no ocidente, são direcionados a algum público em específico. Com os mangás, isso se faz ainda mais claramente.

Acredite, há muita variedade

Como o público que consome as histórias em quadrinhos é tão diferente nos mais variados elementos possíveis, existem materiais pra todo tipo de pessoa, classificados por gênero e idade do consumidor, principalmente. Ao contrário do que acontece com os filmes por aqui, onde a classificação é feita por conta do estilo, como romance e ação, os materiais recebem uma denominação de acordo com o público a que se destina.

Dessa forma, há mangás no Japão que falam, por exemplo, da carreira de um empregado em uma grande empresa desde seu ingresso até sua ascensão como presidente. Essa espécie de mangá é destinada ao público masculino que começa a entrar no mercado de trabalho e, como o personagem principal da história, começa a viver os desafios da vida empresarial. Outras histórias, como o cultuado Gurmet, falam, simplesmente, sobre comida e são destinadas a um público mais velho e experiente. Assim, a extrema diversidade e qualidade com que os mangás são feitos faz com que eles sejam apreciados e consumidos de todas as formas possíveis.

Existem quatro gêneros de mangá principais e variantes dentro do leque de cada um deles. Falemos de cada um dos quatro:

Shōnen:

O shōnen é o estilo mais famoso fora do Japão, não sendo diferente por aqui. É shōnen o mangá destinado a meninos de 12 a 15 anos de idade, os quais estão totalmente aptos a apreciar um mundo completamente fantasioso e empolgante por meio de temas fantásticos em cada mangá. Esse é o estilo que prioriza as lutas e os temas psicológicos baseados principalmente na amizade entre os personagens. Absolutamente todos os mangás e animes de maior sucesso internacional são shōnens, como, por exemplo, Naruto, Bleach, Dragon Ball, Death Note, Cavaleiros do Zodíaco etc.

Por ser voltada principalmente para os meninos, a ação costuma ser o tema principal das histórias, e o desenho é geralmente limpo e bonito, mas não extremamente detalhado. No entanto, o critério usado para classificar um mangá como shōnen é sua destinação ao público masculino pré-adolescente e não o conteúdo de suas histórias. Dessa forma, também são shonens os mangás direcionados a esse público e que não necessariamente tratam de lutas, como as comédias românticas Love Hina, Negima e Ichigo 100%, por exemplo.

Shōjo:

Shōjo é o estilo de mangá dedicado exclusivamente a meninas de idade entre 12 e 15 anos. A maneira como ele é desenhado é bem leve, simples, charmosa e expressiva. A quantidade de detalhes não é tão grande como no shōnen, já que, no shōjo, a história assume o valor principal e sobrepuja o traço em muitos momentos. Os enredos são baseados principalmente em histórias de amor entre meninas e meninos de idade escolar. Como essa é a realidade de milhares de garotas japonesas, os shōjo são extremamente populares entre as estudantes, que, acima de tudo, se identificam com os dilemas e desafios enfrentados pelas heroínas.

O shōjo é um estilo que preza bastante pela realidade, e por isso suas histórias se situam em possíveis realidades, sejam elas em nossa época ou em alguma época passada. Não há nada de muito sobrenatural no shōjo clássico, o que de certa forma é o que atrai o público feminino. Exceto em uma vertente, o mahō shōjo, em que as meninas possuem superpoderes, que o aspecto sobrenatural é explorado em diversos níveis. São exemplos de shōjo os mangás Hana Yori Dango e Lovely Complex. Já os famosos Sakura Card Captors e Sailor Moon entram na categoria de mahō shōjo.

Seinen:

Vagabond, o mangá seinen que conta a história do mais famoso samurai que já existiu.

O seinen funciona como uma espécie de “shōnen amadurecido”. Agora, o público-alvo são os jovens adultos, na faixa dos 20 a 30 anos de idade, aqueles que estão começando a faculdade ou entrando para o mercador de trabalho. Os enredos continuam envolvendo temas fantásticos, mas agora com assuntos um pouco mais sérios e de cunho mais adulto. Por se tratar de um público um pouco mais adulto e experiente, a história exige mais do leitor ao se apresentar com um nível de complexidade e abstração maiores do que os vistos no shōnen. A presença de, por exemplo, sexo, nudez e linguagem obscena são características que quase sempre estão presente nos mangás seinen.

Os capítulos de seinens geralmente são publicados uma vez por mês, o que garante um maior cuidado do autor para o grau de detalhamento em seus desenhos. Dessa forma, o seinen é uma subdivisão dos quadrinhos japoneses onde os desenhos são de extrema beleza. É, sobretudo, uma ótima opção para quem já se cansou dos velhos shonens e deseja uma obra mais elaborada tanto intelectualmente como graficamente falando. Os seinens mais conhecidos pelo público brasileiro são, entre outos: Gantz, Tenjho Tenge, Hellsing, Berserk e Akira.

Josei:

O josei, como no caso do seinen, trata-se de um estilo de mangá produzido especialmente para mulheres na faixa dos 20 a 30 anos. É um estilo que trabalha com os temas recorrentes às mulheres dessa idade, que muitas vezes estão entrando no mercado de trabalho e já procurando por um marido. Os enredos tratam, principalmente, sobre sentimentos de forma extrema. No josei, o drama é elevado e tratado com muito mais seriedade e sensatez do que no shōjo. As relações amorosas entre as personagens é apresentada de uma forma bem racional e realista, o que dá ao quadrinho uma certa fundamentação, algo que atrai leitoras que já possuem maiores obrigações na vida e se cansaram do shōjo escolar de sempre.

O traço do josei costuma ser mais elaborado que o do shōjo; no entanto, como em sua vertente voltada para o público mais novo, o josei não tem grande preocupação com o acabamento das ilustrações, como cenários. O foco está, sobretudo, sobre o rosto dos personagens, esses sim, desenhados de forma cautelosa. O josei, ao contrário do que se possa pensar, não causa estranheza no público masculino que queira se aventurar em experimentá-lo. É, acima de tudo, uma história que agrada os fãs de romance e drama, independente do sexo. Alguns mangás conhecidos de josei são: Nodame Contabile, Midnight Secretary, Honey & Clover, Paradise Kiss etc.

Mangás em revistas e o estilo de publicação japonês:

Todos os que consomem mangás no Brasil têm, todo mês, uma tarefa de extrema importância: a de ir às bancas garantir seu volume mensal. Cada volume daqueles que compramos nas revistarias tem, em média, cerca de 200 páginas, as quais são divididas em diversos capítulos. Em mangás como Naruto, por exemplo, a média de capítulos é nove, onde cada um conta com 20 páginas e o restante trata-se de editoriais, seção de cartas, ou conteúdos extra. Cada exemplar desses é conhecido no Japão como “tankōbon”, mas, ao contrário do modo de publicação brasileiro, os mangás por lá são lançados de forma diferente.

No Japão, ao invés dos mangás serem publicados diretamente na forma de tankōbon, eles são lançados em revistas. Sim, os mangás no Japão são lançados em revistas específicas de cada gênero. Cada exemplar, seja ele semanal ou mensal (dependendo da revista), traz um capítulo de várias séries diferentes. Assim, é publicado um capítulo de séries diferentes a cada nova edição. Após algum tempo, quando a série já tem o suficiente para as 200 páginas, o mangá finalmente pode ser comercializado na forma como conhecemos aqui.

Essa, sem dúvida, é uma forma de não deixar que o leitor se “esqueça” da história e faz com que ele se mantenha frequente na posição de consumidor das revistas especializadas em mangá. Dessa forma, os fãs podem acompanhar semanalmente (no caso de revistas semanais), e mensalmente (no caso de revistas mensais) a atualização de sua série preferida. Assim, além de acompanhá-la sempre, o leitor ainda comprará a edição tankōbon a fim de possuir a série numa edição muito mais bem acabada para que se possa colecionar e ler quando quiser.

As revistas que só publicam mangás geralmente se tratam de torrões com mais de 500 páginas de papel-jornal quase que inteiramente em mangás. Ao contrário do que possa parecer, o custo de cada exemplar é extremamente baixo e faz com que o leitor não se incomode de compra-la toda semana. O impacto e a distribuição das revistas é algo extremamente monstruoso. A revista de mangás que mais vende no Japão, a Shōnen Jump, atualmente com séries como Naruto, Bleach, One Piece, Bakuman e Belzebub, em 1995 vendia cerca de 6,6 milhões de unidades toda semana por conta do extremo sucesso de Dragon Ball e Slam Dunk.

Ter sua história em quadrinhos publicada periodicamente em uma revista mangá é o sonho de qualquer desenhista, e para controlar os mangás que entram e saem das revistas, elas têm um sistema bem fácil, interativo e eficiente. No fim de cada exemplar há uma espécie de tabela onde você avalia os mangás publicados. Após algumas semanas, a relação das posições ocupadas no gosto dos leitores é divulgada. Os últimos mangás nessa lista, se permanecerem nessa mesma posição por mais algumas semanas seguidas, simplesmente são cortados da revista e outro entra no lugar. Isso é mais comum do que se pensa, e séries como Shaman King, por exemplo, foram friamente canceladas.

As revistas são especializadas em um dos quatro estilos principais e só possuem mangás dentro de suas temáticas.

As capas das revistas são um show à parte

O mangá no povo:

É inegável o quanto a sociedade japonesa abrange e toma para si valores e percepções iniciadas ou reforçadas nos mangás. A ideia de infantilidade como padrão de beleza feminino é algo que ganhou grande força pela sua consolidação em mangás. Se hoje o ideal de mulher para se casar no Japão é aquela de pele extremamente branca, que sempre abaixa a cabeça para falar com os homens, de voz fina, rosto de criança e totalmente submissa, grande parte disso é por conta fundamentação nas personagens femininas das histórias em quadrinhos. Ainda que uma espécie de protótipo desse estereótipo já existisse há muito tempo, a consolidação foi feita por ação dos quadrinhos japoneses.

Somado a isso, a cultura do “kawaii” existe com tamanhas proporções a partir, principalmente, de mangás shōjo. A enorme valorização e respeito com que as mulheres tratam o verdadeiro “dever” de parecer as mais fofas e infantilizadas possíveis se deve ao estereótipo tão destacado nos mangás destinados às meninas.

Da mesma forma, os sentimentos, as reações, as representações, o ideal de conquista e as atitudes foram trabalhadas de uma mesma maneira por muitos mangás, o que os fez aceitos pela sociedade em geral. Fazendo uma comparação no mínimo racional, é como a influência que as novelas provocam em nossa sociedade em que muitas vezes as pessoas tomam para suas próprias vidas. Sem dúvida, é um poder e tanto o que os mangás têm nas mãos.

E...:

As histórias em quadrinhos japonesas possuem um surgimento e atualização extraordinária, mas que preferi não desenvolver por conta da extensão do texto. A história do mangá é extremamente rica e, acima de tudo, fundamental pra que a gente entenda por que hoje “Narutos” e “Bleachs” fazem tanto sucesso por aí.

Desta vez, infelizmente, não houve como o texto permanecer reduzido, afinal um assunto do qual todos se interessam e que poucos realmente conhecem deve ser tratado da melhor forma possível, e por isso não economizei caracteres nessa tarefa!

No sábado da próxima semana (8) e talvez no seguinte a ele (15), o Japanice não acontecerá, infelizmente. Portanto, aproveitem os programas desta semana! Até mais ver!


Publicação original de 01/10/2011. 11 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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