“Quase apreciativa demais”, afirmou um Eric Clapton abismado sobre a plateia nipônica tentando explicar a popularidade e atração repentina pela arena Nippon Budōkan, no coração de Tóquio, onde foi gravado seu Just One Night (1980). O namoro do guitar god com os japoneses tinha raízes de dois anos anteriores: At Budokan (1978) do Cheap Trick e Bob Dylan at Budokan (1979). Ou, mais precisamente, como quase tudo na história da música pop, foi obra dos Beatles.

Automaticamente associado aos grandes concertos musicais no Ocidente, o Budōkan tem como função principal seu motivo de fundação: as artes marciais. A aproximadamente dois minutos de distância da Kundashita Subway Station na Toei Shinjuku Line, o estádio foi construído em 1963 perto do Monte Fuji para justamente capturar o espírito tradicionalista evocado pelo grande sistema de práticas esportivas e desenvolvimento espiritual que compõem o que se compreende como artes marciais. Nome mais literal impossível, Nippon Budōkan traduzido é Hall de Artes Marciais.

Aquela estrutura octagonal de quarenta e dois metros de altura tinha como objetivo inicial comportar a competição de judô dos Jogos Olímpicos de Verão de 1964. O custo de mais de dois bilhões dos cofres públicos era parte do grande show que o Japão queria promover, ainda magoados por perderem a honra de sediar o evento em 1940 para a Finlândia, fruto das desconfianças causadas pela invasão à China, decisão completamente acatada após o início da Segunda Guerra Mundial.

Os jogos foram os primeiros a serem televisionados internacionalmente. Foram aos Estados Unidos via Syncom 3, satélite de comunicação geoestacionário lançado do Cabo Canaveral em agosto daquele ano, e para a Europa através do Relay 1, um satélite mais antigo que só permitia curtas coberturas de 15 a 20 minutos. Ainda na comunicação, o primeiro cabo trans-pacífico unindo o Japão ao Havaí foi finalizado para os jogos.

Mesmo que não construído especificamente para os Jogos Olímpicos, o início das operações do trem-bala, o Tōkaidō Shinkansen entre a Tōkyō Station e a Shin-Ōsaka Station, foi marcada para coincidir com aquele circo montado para o dia 10 de outubro. O primeiro trem oficial correu dia 1º de outubro, nove dias antes da abertura.

Passado o evento, a pergunta principal era: o que fazer com o Budōkan? Os campeonatos de judô, karatê, kendô, aikidô, shōrinji, kyūdō, nanigata e demais lutas não ocupariam todo o calendário. Porque não transformar o estádio numa sede de shows internacionais como aqueles americanos ocupados pela British Invasion? A resposta foram os Beatles. Escolha que teve uma réplica bem menos simples.

Trinta e cinco mil policiais foram destacados para protegerem Paul, John, George e Ringo de seus fãs, com aquele comportamento eufórico típico da beatlemania, e nacionalistas dispostos a interditarem as apresentações. Em sua visão, um grupo pop vindo do Ocidente profanaria um ambiente criado para artes nobres como o judô.

Mesmo com o barulho, as cinco noites de trinta minutos cada no Budōkan transformaram a vida do país e a maneira como o Japão era visto no Ocidente. Os Beatles marcavam a primeira relação “extraoficial” com os japoneses, um embate de culturas que colocou John e seus colegas como quase diplomatas britânicos. “Verdade sóbria, nenhum evento recente relacionado ao Reino Unido — sendo a Exposição Britânica de 1965 uma exceção — teve um impacto tão forte em Tóquio”, observaria o embaixador britânico do país à época, Michael Stewart. Suas memórias ainda incluem referências às habilidades dos quatro moleques britânicos em lidar com a imprensa, “a maioria dos comentaristas os aceitou pelo que eles realmente são — agradáveis, talentosos e perspicazes jovens músicos”. Elogios consideráveis para caras que causaram barulho na imprensa internacional fumando maconha no banheiro do Palácio de Buckingham, dia em que receberiam a comenda de membros do Império Britânico.

A ida do quarteto de Liverpool foi um começo fresco para as futuras relações estreitas do Japão com um universo completamente diferente do folk que imperava tanto no Japão quanto nos EUA ou do jazz. O caminho ainda teve duas pedras fundamentais. At Budokan (1978) do Cheap Trick, banda pai do power pop, registraria o pico de fama da banda na terra do sol nascente. Os adolescentes já não eram os mesmos de antes, aqueles que causaram estranhamento nos besouros ingleses por permanecerem em silêncio durante a execução das músicas, só aplaudindo durante os intervalos. Os gritos do público encobrem, por vezes, o som da banda. Possivelmente, o grupo de doze mil pessoas mais ruidoso que já esteve num show.

Bob Dylan lançaria no ano seguinte Bob Dylan at Budokan (1979), um disco fraco com material coletado da quarta e quinta aparição das oito feitas pelo músico e sua banda de apoio enorme. Mesmo assim, Dylan era Dylan e ter seu nome associado ao estádio ajudou a reforçar a marca no imaginário pop. No entanto, algo mais do que discos ao vivo eram necessários para botar o Japão na rota dos shows internacionais. O mercado pop precisava da estabilidade de sua matéria-prima: dinheiro.

Seijirō Udō, o principal agente musical do país, acredita que o apetite dos fãs não foi bem a ferramenta principal para o pop japonês atingir esta nova dimensão. Ele aponta para o poder do iene, cujo valor em comparação ao dólar quase dobrou em meados da década de 1980. “Antes, muitos artistas queriam vir para o Japão, mas o dinheiro não estava lá para eles. Talvez até custasse dinheiro para eles virem. Agora, nós podemos fazê-los uma oferta bem atrativa. Os melhores podem fazer dinheiro... Muito dinheiro”, disparou Mr. Udō, como é conhecido, no backstage de um dos shows da carreira solo de Mick Jagger naquela década, uma das muitas turnês reabilitadoras de carreira que o país abrigou.

O promoter faria sua fama às mãos de ferro, incluindo uma lendária turnê do Deep Purple tendo Joe Satriani ocupando o lugar que de Ritchie Blackmore, guitarrista original que deixou a banda um mês antes de um extenso calendário de datas marcadas em cidades por todo o Japão. Na verdade, o país deveria ser condecorado por abraçar os membros da banda nos seus momentos mais constrangedores. Em 1977, antes do Cheap Trick e Bob Dylan, a banda solo mezzo jazz mezzo rock de Ian Gillan lançou o álbum Live at the Budokan (1977). Provavelmente, o Japão deveria ser o único lugar do planeta onde alguém ainda se importava com a carreira claudicante de Ian Gillan e sua Ian Gillan Band.

As turnês bilionárias de Michael Jackson e Madonna transformaram o Japão e a própria marca “Live at the Budokan” em sinônimo de produção primorosa, públicos imensos e espetáculos corretos. De fato, o S.O.D., Stormtroopers of Death, banda crossover thrash formada por membros do Anthrax e Psychos, lançaria sob o título sacana Live at Budokan (1992) um álbum gravado a partir de shows no The Ritz em Nova Iorque, clube de rock que normalmente era espaço para apresentações de bandas novatas, cenário tosco se comparado à megalomania da arena nipônica.

Até hoje o Nippon Budōkan representa parada certa para as principais turnês dos grandes nomes do mainstream tanto japonês quanto mundial. Bandas como LUNA SEA, MUCC, SEX MACHINEGUNS, DIR EN GREY e X JAPAN registraram suas passagens por lá. De Oasis, com Three Nights in a Judo Arena (1998), ao cafona Bryan Adams, passando pelos muitos CDs do Mr. Big lá, a arena ainda habita o imaginário do pop mundial.


Publicação original de 19/10/2011. 4 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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