Resenha de Hyakkikenran, de Kagrra, (Peace&Smile music, 2011). Nota: 5,0.
Durante um 2010 cheio de comemorações motivadas pelo seu décimo aniversário, o Kagrra, surpreendeu os fãs com o anúncio do fim da banda. Lamentável; afinal, a mistura incomum de rock com sons tradicionais nipônicos criada pelos caras gerou pequenas pepitas como “Sakura Maichiru Ano Oka de”, “Kotodama” ou “Yume Izuru Chi”.
Esses e muitos outros clássicos foram portas de entrada para muitos candidatos a aficionados por visual kei (provavelmente o único rótulo artístico do planeta que faz neguinho lutar por demo tapes de qualidade duvidosa feitas por bandas não menos suspeitas).
Mas, deixando o sentimentalismo de lado, a banda já estava batendo ponto fazia tempo. Dificilmente lançaram músicas ruins, mas a quantidade de canções enche-linguiça explode em profusão nos últimos instantes de sua trajetória. Após o fantástico gozen, nunca mais fez um grande álbum.
Gravou bons discos, mas nada que se compare à sequência criativa dos primeiros. As influências tipicamente japonesas que tornavam o som deles tão único foram pasteurizadas em uma reciclagem sem fim, fruto da falta de esmero em lançar qualquer coisa perto do criativo. Se isso já era latente em 2004, quando o bom Miyako foi lançado, aqui todo mundo já está cansado de saber. Hyakkikenran, o canto do cisne, é tão apagado quanto tudo o que você escutou deles desde lá.
Depois de uma introdução, o disco começa com “Chigiri”, faixa alegrinha com efeitos eletrônicos. Bem boba, mas não terrível. Fraquíssima se comparada a “Fūsetsu”, “Yugen no Hito” ou mesmo “Paraíso”, faixas de abertura de outros álbuns da banda. E assim o disco segue, cheio de músicas medíocres. “Kakurenbo” até tenta apelar para a nostalgia, mas caso fosse lançada junto às faixas dos primeiros singles que parece emular, não seria mais do que um b-side perdido. “Tsuki ni Murakumo Hana ni Ame” poderia ser razoável se a banda já não tivesse lançado outras vinte faixas semelhantes.
Hyakkikenran é assim, trinta minutos que não levam a lugar algum. Não dói ouvir, mas o CD toca e você nem percebe as faixas passarem. As mesmas levadas, riffs, linhas de voz e floreios de sempre.
Isshi e sua turma são músicos exímios e seus talentos são tão flagrantemente fora do tradicional da cena visual que parece terem sido feitos um para o outro — talvez por isso seja tão estranho imaginá-los separados —, mas não têm mais uma gota daquela coisa mágica chamada inspiração que gerou momentos tão belos outrora. Se não tivessem feito o ótimo show que fizeram no Brasil provavelmente nenhum dos leitores deste site teria ouvido um novo lançamento do grupo nos últimos três ou quatro anos.
A gravação é obviamente primorosa. Nunca deixaram de ser profissionais e não cometeriam a atrocidade de lançar um disco que soasse como lixo. Mas, como em quase todo trabalho, quando você perde a paixão em fazê-lo, o Kagrra, ficou extremamente burocrático com o passar dos anos. Uma banda visivelmente cansada trabalhando no piloto automático.
Publicação original de 08/02/2011.