Caros leitores, desta vez trago a vocês uma entrevista descontraída com a escritora, roteirista e quadrinista Ana Recalde, criadora de um mangá 100% brasileiro que já conta com mais de cinco anos de estrada: o Patre Primordium.
Na entrevista, Aninha conta sobre seu início, influências, sobre o atual andamento do Patre Primordium e ainda dá dicas para quem quer entrar na área, tudo com bom humor e descontração.
Rádio Blast!: Aninha, você é uma importante influência no cenário nacional dos quadrinhos, e sabemos que eles entraram muito cedo em sua vida. Você se lembra como foi exatamente que você conheceu os quadrinhos e em que momento você pensou pela primeira vez que um dia iria escrever algo assim?
Aninha: Nossa, importante influência?! (risos) Eu não me vejo assim. Eu me acho muito mais uma iniciante que tudo. Bom, eu tive uma grande influência do meu pai pelo gosto da leitura, então eu li desde muito cedo. Literatura, principalmente. Os quadrinhos vieram quando eu tinha uns 12/13 anos, quando comecei a ler a coleção do meu pai. Acho que, exatamente por esse minha paixão pela leitura, eu acabei desenvolvendo o gosto pela escrita. Mas não me lembro exatamente quando decidi escrever quadrinhos. Uma coisa interessante, inclusive: a Patre nasceu com um conto e depois se desenvolveu para um roteiro. (risos)
RB!: Como fã de quadrinhos, RPG, mangás, etc, você deve ter diversas influências. Qual roteirista mais te inspirou até hoje, e qual personagem desse roteirista você considera como sendo sua obra-prima?
Aninha: Putz, minhas influências são as mais diversas. Mas o roteirista que me inspirou e inspira até hoje é o Neil Gaiman. A personagem dele que eu mais gosto é a Delírio, da série Sandman. E devo admitir que eu me identifico muito com ela.
RB!: Falando especificamente de mangás e animes, quais os que você mais gostou de ter acompanhado até hoje? Atualmente tem algum sendo lançado que você acompanha?
Aninha: Olha, Evangelion tem um lugar especial no meu coração! Mas eu curti muito acompanhar Death Note, Sakura Card Captors, Gunnm, acho que sou meio eclética, né? (risos) Atualmente não tenho lido muitos mangás, alguém tem alguma sugestão?
RB!: Já que o assunto agora é mangá, você é uma das criados do Patre Primordium, um mangá 100% brasileiro. Como ele nasceu?
Aninha: Ele nasceu de um conto inicialmente. Foi engraçado, eu conheci o Fred na festa de uma amiga em comum e lá mesmo ele mostrou sua pasta de desenhos e lá mesmo eu o convidei para desenhar algo meu, enfim... As coisas foram rolando assim. Isso foi no ano de 2005. De lá pra cá aconteceu muita coisa!
RB!: Como está esse projeto atualmente?
Aninha: Estamos estudando um jeito de voltar a publicar, nem que seja online, para que os nossos leitores terminem de ler o primeiro arco. E, para ninguém ficar desapontado, estamos inserindo cenas novas nos primeiros capítulos (que já foram lançados em papel), e, claro, abrindo para leitores que não tiveram acesso a revista em papel, que teve pouca distribuição.
RB!: Como você vê o cenário nacional no que diz respeito a quadrinhos e mangás? Desde que você acompanha e faz parte ativamente desse cenário, quais foram as principais mudanças positivas e negativas que você sentiu?
Aninha: Eu acho que tenho uma visão muito regional da coisa toda, por morar no Rio de Janeiro. É difícil, para mim, dizer o que está acontecendo no país todo.
Tenho alguns amigos que me contam coisas diversas sobre o mercado. Tem uma galera muito boa fazendo quadrinhos independentes e fanzines, além de quadrinhos online.
O mercado tem olhado diferente para o quadrinhista brasileiro, dando até mesmo mais alternativas de publicação e editoras.
No último ano eu vi crescer a vontade de editoras de lançar trabalhos autorais nossos, porém ainda acho que o espaço é para poucos. Preciso mesmo sentar, pensar e avaliar melhor as mudanças, mas, pelo menos aqui no Rio, eu vejo o mercado se agitando um pouco mais que antes.
RB!: Você também escreve contos, e, além das influências já citadas, você se deixa influenciar também pela música. Cite as bandas e as músicas que te inspiram e fale um pouco do como e porque elas te inspiram.
Aninha: Puxa, eu só sei escrever com música! Eu coloco o fone com algo bem alto no meu ouvido e fico imersa nisso até começar a escrever igual uma doida, (risos)... Meu processo de criação depende da música com certeza.
Inclusive, no ano passado, eu desenvolvi um projeto baseado nas músicas do álbum 365 do MindFlow, uma banda de São Paulo. Eles lançaram uma música por mês e eu lançava um conto por música.
Foi muito legal pra mim fazer isso, me testou, já que eu não tinha nenhuma noção de que música eles iam fazer e eu ficava “dependendo” de certa forma da composição deles.
Na Patre [Primordium] mesmo, cada cena é uma música e ainda temos uma música “tema”, da mesma banda, “Not Free Enough”.
As músicas me inspiram de várias formas, pode ser a melodia, pode ser a letra. Com a música eu sou transportada pra outro planeta.
RB!: Pra quem tem vontade de seguir no ramo, quais as principais dicas que você daria?
Aninha: Bom, tenho 3 conselhos para quem fazer quadrinhos.
- Estude. Faça cursos, estude desenhos, estude roteiro, pesquise. Não é só porque você lê muito quadrinho que você sabe fazer quadrinho. Para um bom roteiro é preciso pesquisa, para um bom desenho é preciso treino, logo, estude;
- Envolva-se. Vá atrás de quem faz quadrinhos, peça dicas, converse, vá a eventos de quadrinhos. Assim, se você é um roteirista, pode encontrar o desenhista que estava esperando, e vice-versa. Talvez você se coloque apenas para ajudar a finalizar e assim aprender. Ou seja, corra atrás de conhecer pessoas que gostam e produzem quadrinhos.
- Ouse. Não fique dentro da casinha, quadrinho é arte, fale o que gostaria de dizer. Para fazer quadrinhos é preciso muita coragem, de colocar a cara a tapa, colocar seu desenho na rua. E olha, não tenha medo se o seu desenho ainda não é como daquele cara que você é fã, você vai ficar melhor FAZENDO, não em casa parado.
RB!: Aninha, foi um prazer falar com você, espero que continuemos a ouvir e ver seu nome ligado a coisas boas ainda por muito tempo. Abraços e obrigado pela entrevista.
Aninha: Obrigada! Foi um prazer falar de tantas coisas que gosto. Espero voltar com novidades em breve, para que todos leiam e acompanhem a Patre. Abraços a todos!
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Publicação original de 03/02/2011. 2 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.