Chegamos à segunda parte da Discografia Comentada do X. Na primeira parte, vimos o período que compreende o início da banda, lá para os idos de 1982, até o fim da formação clássica, com a saída do TAIJI após os shows no Tokyo Dome. Agora nos focaremos na entrada de HEATH, o domínio agressivo do controlfreak YOSHIKI e os desentendimentos durante a criação do problemático DAHLIA.
Lembrando que as críticas aqui, primas do querido Música Comentada, são pessoais. Minha tentativa é despertar seus interesses, tentar arrebatá-los e tirá-los de suas zonas de conforto. Talvez fazê-los ver por um ângulo que vocês prefiram ignorar ou podem nem conhecer. Mas, este texto não é a verdade absoluta, muito menos uma descrição do produto. Isso está na Wikipédia. São críticas subjetivas em que contam meu gosto pessoal, formação e preferências estéticas.
Então, divirtam-se! Tirem os CDs do armário ou os resgatem da pasta de música. Deem suas próprias notas e opiniões. Tudo é válido.
Até a terceira e última parte!
- ART OF LIFE
- EP
- Lançamento: 25/08/1993
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 1
- Duração: 29min
O rosto do YOSHIKI estampado na capa já anuncia: o X era agora um veículo exclusivo do líder do grupo. O intervalo entre a demissão do TAIJI e o lançamento deste CD foi extremamente conturbado. A banda mudaria de casa num processo extremamente burocrático, saindo da Sony e assinando com a Atlantic. Toneladas de demotapes foram enviadas por candidatos ao cargo de novo baixista de uma das maiores bandas do Japão (Jealousy era e ainda é o álbum da banda que mais vendeu).
O acréscimo de “JAPAN” ao nome, para evitar confusões com a seminal banda punk americana X, foi anunciado com mais uma tentativa de se expandir para o Ocidente no Rockefeller Center em Manhattan. No mesmo evento, foram dadas as boas vindas a HEATH, novo baixista. Amigo próximo de HIDE (e quem não o era?), o cara tinha passagem por uma série de bandas menores, incluindo o saudoso Media Youth (da onde também surgiria KIYOSHI, futuro Spread Beaver).
As disputas quanto ao direcionamento do grupo, a rejeição de YOSHIKI a várias músicas compostas por outros integrantes e a sumária expulsão de TAIJI deixaram claro como o baterista comandaria tudo com mão de ferro a partir dali. Estas condições somadas ao tempo tomado para reorganizar toda a estrutura do grupo e o desejo de se expressar abriram espaço para projetos paralelos.
De fato, HIDE, PATA e TOSHI davam os pontapés iniciais de suas carreiras solo quando YOSHIKI os contatou com os arranjos de “ART OF LIFE” escritos em partituras. A canção, uma longa faixa de exatos vinte e nove minutos, já estava totalmente finalizada.
Originada de uma demo perdida chamada “END OF THE WORLD”, nasceu como um desafio de YOSHIKI. “Eu estava com a Sony. Então, eles disseram... Nós estávamos falando sobre alguma promoção para a MTV ou para rádios, coisas assim. E eu os perguntei por que toda canção tinha que ter três minutos e meio, quatro, estar abaixo dos cinco minutos. As pessoas da Sony disseram que logicamente eram mais fáceis de serem tocadas, mas que eu poderia fazer o que quisesse. Mas, se eu fizesse uma canção de trinta minutos, o que vocês fariam? Eles disseram que com certeza promoveriam e eu disse ‘hmm, interessante’. Aí, fui para casa e comecei a escrever uma faixa de trinta minutos... Bem, não trinta minutos. Tentei fazê-la ter dez e alguma coisa, mas a ideia continuava a voltar a minha cabeça”, conta o músico em entrevista recente.
Parcialmente baseada na Sinfonia N.º 8 de Schubert, “ART OF LIFE” poderia ser dividida em vários pequenos movimentos. O contato firmado com a Filarmônica de Londres durante a gravação do disco clássico de YOSHIKI, Eternal Melody, garantiria a participação da orquestra na nova empreitada.
A gentil introdução entrega um TOSHI tecnicamente mais aprimorado cantando letras inteiramente escritas em inglês. O tom gritado de outrora foi levemente amaciado. Não da forma comportada como ele cantaria em DAHLIA, mas claramente mais controlado e preciso que antes. Normalmente gravados por YOSHIKI, os pequenos recitais são na verdade as vozes de Lori Tritel, Diana Barrows e Cristina Lane.
O formato quase sinfônico não era novidade para a banda — eles já haviam experimentado algo assim em “ALIVE” e “ROSE OF PAIN”. Mas, esta é a primeira vez que o mentor do grupo consegue equilibrar todas as suas ideias e criar algo verdadeiramente deslumbrante dentro desse campo. Mesmo seu longo e dissonante solo de piano parece parte natural da composição.
Tirania, egocentrismo ou genialidade, o que importa é que “ART OF LIFE” condensa com maestria toda a atmosfera sonora do grupo. Obviamente, seus trinta minutos não são uma aventura para se viver diariamente. Porém, pare um dia, concentre sua atenção e seja levado pelo frenesi da cabeça fervilhante de um dos músicos mais ambiciosos que já pisaram por este planeta. [Nota: 10]
- TEARS
- Single
- Lançamento: 10/11/1993
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 15min32s
Poucos meses após “ART OF LIFE”, chegava as lojas um novo single. “TEARS” já havia sido tocada antes, como na apresentação do NHK Kōhaku Uta Gassen. Mesmo mais dedicado aos rumos de sua carreira solo, a canção foi lançada por insistência de HIDE.
Apesar da letra emocional sobre a morte do pai de YOSHIKI, “TEARS” naufraga na evidente semelhança com todas as baladas anteriores, modelo que o líder repetiria insistentemente no futuro. Mesmo os belos solos de guitarra não a tornam necessária, sendo apenas indicada para fãs fervorosos das baladas do grupo. O single ainda acompanha uma boa versão em roupagem clássica para a música. Não se assuste com a capa pavorosa. [Nota: 7,0]
- Rusty Nail
- Single
- Lançamento: 10/07/1994
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 10min55s
Estreada no NHK Kōhaku Uta Gassen, “Rusty Nail” era perfeita para o estágio que a banda alcançara. Você consegue lembrar alguma outra música que cause sensação semelhante na abertura de um show quanto ela?
O clima tenso da introdução em teclado e a posterior explosão dos primeiros três acordes imprimiam sorrisos imediatos em cada um daqueles presentes nas enormes arenas que se tornaram o lar dos shows da banda.
YOSHIKI conseguiu colocar emoção e beleza numa canção simples sem descaracterizar a estética sonora do grupo. É pop o bastante para tocar facilmente na TV e rock o bastante para agradar os órfãos do passado raivoso da banda. “Rusty Nail” seria dali em diante o cartão de visita do novo X JAPAN. [Nota: 9,0]
- On the Verge of Destruction 1992.1.7 Tokyo Dome Live
- Álbum ao vivo
- Lançamento: 01/01/1995
- Gravadora: Ki/oon Records
- Faixas: 18
- Duração: 73min5s
Aproveitando o gigante sucesso da banda, a Ki/oon Records, subsidiária da Sony, resgatou as gravações do último show do X durante a fase clássica. A despedida de TAIJI apresentou versões arrasadoras para hinos como “Silent Jealousy”, “WEEK END” e “KURENAI”.
A banda ainda apresentava pérolas hoje esquecidas como “CELEBRATION”, “Standing Sex” e “SADISTIC DESIRE”. O alto nível de entrosamento do grupo não transparece que aquela unidade tinha hora e data marcada para se desmantelar – logo após este mesmo show.
Mesmo sendo puramente um produto para angariar alguns trocados da ensandecida massa de fãs ávidos por comprar qualquer coisa com o nome da banda estampado na capa, On The Verge of Destruction 1992.1.7 Tokyo Dome Live é um documento antológico de uma das bandas mais poderosas já surgidas no Japão. [Nota: 8,5]
- Longing ~Togireta melody~
- Single
- Lançamento: 01/08/1995
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 15min17s
Apesar de YOSHIKI demonstrar bastante competência no assunto, o coeficiente de baladas do X JAPAN já ultrapassava o limite do saudável. “Longing ~Togireta melody~” era mais uma como todas as outras: um refrão romântico, letra pseudodepressiva, solos dobrados de guitarra, piano cristalino e orquestra encorpada.
Nada que empane a carreira do grupo, mas o formato já havia cansado mesmo os mais devotos. Depressivo mesmo deve ter sido presenciar o relançamento da música um mês depois, agora menos elétrica e contando com uma versão poema recitada por YOSHIKI. Nauseante de tão brega. [Nota: 5,0]
- DAHLIA
- Single
- Lançamento: 26/02/1996
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 15min59s
A futura faixa-título do próximo álbum do grupo resgataria um pouco do speed metal dos primeiros dois álbuns. A faixa não era novidade, já vinha sendo tocada desde 1994 em versões preliminares.
O andamento acelerado da bateria e os riffs de guitarra recriam antigas estruturas dos hinos do passado. Mesmo a voz de TOSHI soando extremamente limpa quando não empapada em efeitos e a faixa inteira sendo guiada por um arranjo orquestrado, a faixa foi uma lufada de ar fresco.
Um pouco pop justamente para tocar em rádios e TV? Sem dúvidas. Mas, ao menos uma ponta de esperança para quem achava que o grupo já tinha descambado de vez para a pieguice. [Nota: 7,5]
- Forever Love
- Single
- Lançamento: 08/07/1996
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 15min46s
“Forever Love” é mais uma balada, com todos os pontos negativos que já citei em “Longing ~Togireta melody~”. Porém, o que assusta nessa canção é a produção porca que pasteuriza a faixa.
A bateria de YOSHIKI soa como se fosse digitalmente programada. Os habituais solos de guitarra dobrados possuem timbres horrorosos, semelhantes ao barulho produzido por um enxame de abelhas. O desleixo é tanto não dá nem para creditar a baixa qualidade como algum charme ou proposta da gravação. [Nota: 5,0]
- CRUCIFY MY LOVE
- Single
- Lançamento: 26/08/1996
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 15min46s
Este single deveria ter um aviso de ‘proibido para diabéticos’ na capa. Nesta, nem HIDE, PATA e HEATH dão as caras. A música é essencialmente de YOSHIKI, usando a voz do TOSHI como veículo para suas aspirações artísticas.
O single parece não ter agradado tanto quanto os outros de formato romântico, foi o único a não atingir o topo da Oricon. Dispensável, “CRUCIFY MY LOVE” elevará sua taxa de glicose a níveis estratosféricos. Mantenha cuidado. [Nota: 4,5]
- SCARS
- Single
- Lançamento: 18/11/1996
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 2
- Duração: 8min33s
Assim como “DAHLIA”, “SCARS” vem de 1994, mais precisamente dos shows Blue Night e White Night no Tokyo Dome. Na época, ainda com o título de “SCARS ON MELODY” e tendo HEATH cantando as primeiras linhas da letra.
“SCARS” é claramente uma canção fugida da faixas solo de HIDE. As linhas vocais, os fluxos de bateria incessantes e a atmosfera alternativa do guitarrista, agora um personagem bem além de mero guitarrista do X, floreiam a música.
Até a equipe envolvida na produção, mixagem e masterização é a mesma do álbum PSYENCE, que HIDE lançou alguns meses antes. Uma ótima música, mas que renderia bem mais num lançamento solo. Vem acompanhada de uma claudicante versão de “White Poem I” chamada “White Poem I(M.T.A Mix)”. [Nota: 8,5]
- DAHLIA
- Álbum
- Lançamento: 04/12/1996
- Gravadora: Atlantic Records
- Faixas: 10
- Duração: 53min57s
O primeiro álbum em cinco anos, DAHLIA mais era uma coletânea dos singles anteriores do que um novo trabalho do X JAPAN. O clima na banda não era dos melhores. YOSHIKI criticaria publicamente os membros da banda ou a própria gravadora. “Os outros trabalharam nas carreiras solo enquanto eu fazia as gravações de DAHLIA por eu mesmo”, conta o baterista a Tetsushi Ichikawa, autor do livro ART OF LIFE.
Como o próprio Ichikawa apontaria nos muitos artigos que escreveu sobre o grupo, o narcisismo e o perfeccionismo excessivos de YOSHIKI criaram uma barreira entre ele e os outros membros.
A Atlantic Records pressionara a banda para lançar singles enquanto YOSHIKI adiava datas internas de lançamento. Por dois anos, a banda fez a turnê de divulgação de um disco que sequer tinha previsão para chegar às lojas.
O resultado é um disco que mais parece um álbum solo do líder do X JAPAN. Um amontoado de baladas, dois rocks de arena e faixas ‘doadas’ por HIDE. “SCARS” até consegue se camuflar, mas a falta de intimidade de TOSHI com o estilo eletrônico do guitarrista gera resultados risíveis em “DRAIN”. Ambas renderiam muito melhor num disco só de HIDE.
As tendências bate-estaca influenciaram os outros integrantes. A instrumental “WRIGGLE” de HEATH e PATA tem pouco mais de um minuto e não adiciona nada ao disco. O mesmo pode ser dito de “White Poem I” de YOSHIKI, desconjuntada e ruim de doer. Semelhante aos esboços de música que ele criaria para seu futuro projeto, o Violet UK. Ambas só poderiam servir para as performances individuais que os membros gostavam de fazer nos shows.
Somada a imensidão de baladas tiradas dos singles, “FOREVER LOVE” aparece em dispensável versão acústica. O X JAPAN não era mais uma banda. Decepcionante, DAHLIA parece um meticuloso e afetado recital de YOSHIKI, acompanhado de músicos talentosos.
“É, eu me lembro de dizer numa entrevista ‘Eu não gosto desse álbum’ (risos)”, nessa com certeza você não está sozinho, YOSHIKI... [Nota: 7,0]
Publicação original de 30/05/2011. 12 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.