A vinda do X JAPAN ao Brasil gerou um amontoado de emoções nunca sentidas antes pelos fãs de j-rock do país. A felicidade de finalmente ver um show com aquelas músicas que nos acompanharam em muitos momentos da vida, a magnitude de uma banda lendária vindo aqui, a turbulência da venda de ingressos, a desconfiança quanto ao set list e a possibilidade de versões em inglês daqueles clássicos consagrados em japonês.

Enquanto setembro não chega, a Rádio Blast! estimulará a sua ansiedade com uma série de matérias especiais sobre o grupo. Serão perfis, publicações esquecidas, entrevistas de arquivo e mais toneladas de material da banda.

A mii já deu o pontapé inicial com um incrível relato do hide memorial concert na China! Você fazia ideia de que sequer existia algo do tipo por lá?

Porém, antes de tudo, vamos analisar o ponto básico quando se trata de uma banda: a música. Com moldes semelhantes ao do Música Comentada, passaremos pelos lançamentos marcantes da carreira do X. Coletâneas, singles sem músicas inéditas e demo tapes foram ignorados para nos focarmos somente na nata do trabalho produzido por eles.

Não se esqueça de dar suas notas para os lançamentos e dizer quais são os seus álbuns e músicas favoritas. Mais importante, não esqueça de comprar o seu ingresso!

  • I’LL KILL YOU EP
  • EP
  • Lançamento: 15/05/1985
  • Gravadora: DaDa
  • Faixas: 2
  • Duração: 7min34s

Após uma série de shows em qualquer muquifo que aceitasse a barulheira daquele bando de moleques estranhos, o X consegue formalizar a sua música num formato além das demo tapes precárias. A faixa-título é uma embrionária versão do que viria aparecer anos depois em Vanishing Vision. TOSHI soa como se tivesse passado dias se entorpecendo com gás hélio e YOSHIKI ainda estava aprendendo a dominar seu kit de bateria.

“BREAK THE DARKNESS” é uma das faixas mais pesadas que a banda compôs, soa tosca e raivosa. Apesar de ter sido regravada para a coletânea HEAVY METAL FORCE, foi abandonada com o passar dos anos. Na formação estão os citados acima mais TOKUOU e TOMO nas guitarras e YUJI no baixo. O último integraria com outro ex-X, o guitarrista TERRY, a banda SIGHS-OF-LOVE-POTION. [Nota: 4,0]

  • ORGASM EP
  • EP
  • Lançamento: 10/04/1986
  • Gravadora: EXTASY RECORDS
  • Faixas: 3
  • Duração: 11min59s

Amor de mãe não tem igual mesmo... Vendo que seu filho não conseguia chegar a lugar nenhum com sua banda, a mãe do YOSHIKI vendeu os negócios da família para levantar uns trocados e dar um empurrãozinho na carreira do menino. O resultado é ORGASM EP, lançamento inaugural da EXTASY RECORDS.

O efeito gás hélio na voz de TOSHI atinge um grau inacreditável, parecendo que tudo foi acelerado para soar mais agudo, inclusive os backing vocals. YOSHIKI já demonstra um desempenho impressionante tanto na faixa-título quanto em “X”, ambas com arranjos bem próximos dos que figurariam em seus respectivos álbuns. Já “TIME TRIP LOVING” soa como uma música dispensada pelo LOUDNESS. Aqui a banda contava com os bons JUN na guitarra e HIKARU no baixo (que integraria o MEPHISTOPHELES com TESTU do D’ERLANGER). Reza a lenda que JUN foi membro suporte do Moi dix Mois, mas vai saber... [Nota: 4,5]

  • Vanishing Vision
  • Álbum
  • Lançamento: 14/05/1988
  • Gravadora: EXTASY RECORDS
  • Faixas: 9
  • Duração: 45min5s

Dificilmente você vai encontrar um début tão poderoso quanto este CD. Quando ouvi “VANISHING LOVE” a primeira vez, tive a sensação de que meu cérebro estava escorrendo pelos meus ouvidos como uma pasta de atum grossa e pastosa!

Já com uma formação estabelecida, o X finalmente chegava ao seu primeiro álbum. E a sensação de urgência causada após tantos anos de atividade e trocas de membros parece infringir uma fúria assustadora nas faixas aqui contidas.

Após a tensa introdução “DEAR LOSER”, composta pelo saudoso baixista TAIJI, o que você escutará é um verdadeiro massacre aos seus tímpanos. YOSHIKI esmurra a bateria em andamentos velocíssimos. A voz de TOSHI, já com aquele tom rasgado característico, dá o diferencial em pérolas negligenciadas criminosamente na década seguinte como “SADISTIC DESIRE”, “PHANTOM OF GUILT” ou a resgatada “I’LL KILL YOU”.

A banda comprova sua excelência instrumental na quase fusion “GIVE ME THE PLEASURE”. A simbiose assustadora dos solos de HIDE e PATA no hino eterno “KURENAI” deveria ser motivo de estudo nas escolas de música ao redor do mundo. “UN-FINISHED...” resplandece em sua sutileza melódica, abrindo caminho para um formato de balada que seria comum nos álbuns posteriores. Mesmo a desconjuntada “ALIVE” não estraga o resultado final. Clássico absoluto! [Nota: 10]

  • BLUE BLOOD
  • Álbum
  • Lançamento: 21/04/1989
  • Gravadora: Sony Music Entertainment
  • Faixas: 12
  • Duração: 65min3s

A fúria juvenil do primeiro álbum foi dosada em um maior refinamento das composições. A quantidade de hits certeiros no álbum é impressionante: “WEEK END”, “X” e “ENDLESS RAIN” são canções com raízes já apresentadas pela banda, mas aqui surgem em estado de arte. Impossível não esboçar qualquer reação à carismática “X”, uma das poucas faixas no mundo em que tudo é memorável: solos, refrão, introdução e até as levadas de bateria! Quem nunca vibrou com os tradicionais “WE ARE X” das versões ao vivo?

“ENDLESS RAIN” embarca em melodias cativantes dando origem a um dos refrãos mais bonitos já cantados. YOSHIKI consegue unir universos tão dispares quanto às guitarras características da banda e um lirismo altamente emocional. Mesmo a letra sendo um pouco piegas para o que a banda representava, a sinceridade e solidez da performance de TOSHI garante a submersão na atmosfera doce da música.

Mas, não ache que a banda abandonou a toneladas de riffs de precisão quase bélica que costumavam despejar. “BLUE BLOOD” e a antiga “ORGASM” são frenéticas pedradas da selvageria. No setor baú também estão “PROLOGUE (~WORLD ANTHEM)” — que, como o título sugere, é baseada no clássico do Frank Marino que a banda costumava tocar nos tempos de colégio — e “KURENAI” e “UNFINISHED”, provavelmente regravadas a ordens da gravadora.

As personalidades de cada integrante já afloravam, mesmo que discretamente. HIDE dá o tom divertido de “CELEBRATION” e ainda colabora com TAIJI na intricada “XCLAMATION”, essa a cara do baixista. “EASY FIGHT RAMBLING” é uma boa faixa, porém menor frente ao padrão de qualidade alto do tracklist. O único escorregão verdadeiro é “ROSE OF PAIN”. Pseudoépica, é de uma grandiloquência e afetação angustiante pelos seus mais de dez minutos. Ignore-a e descubra um dos álbuns que vai lhe acompanhar pelo resto de sua vida. [Nota: 10]

  • KURENAI
  • Single
  • Lançamento: 01/09/1989
  • Gravadora: Sony Music Entertainment
  • Faixas: 2
  • Duração: 9min45s

Os singles de divulgação do BLUE BLOOD não apresentam muitas surpresas. Geralmente são versões um pouco diferentes das faixas-títulos e músicas do álbum ao vivo. Mas, KURENAI pode ser uma adição interessante para a sua coleção graças à simpática versão que fizeram para “20TH CENTURY BOY” do pai do glam Marc Bolan. O T. Rex era uma das bandas favoritas de HIDE e dava dicas das mudanças de direcionamento que a banda sofreria no álbum seguinte, Jealousy. Eles costumavam tocar a faixa nos shows trocando de instrumentos. Não é essencial, mas vale pela curiosidade. [Nota 8,0]

  • Jealousy
  • Álbum
  • Lançamento: 01/07/1991
  • Gravadora: Sony Music Entertainment
  • Faixas: 10
  • Duração: 50min19s

“Quando eu tento lembrar, os problemas começaram durante a BLUE BLOOD TOUR. Nós cinco tínhamos ideias diferentes e, quando fazíamos uma música, nós brigávamos por essas ambições. Na verdade, sempre que ensaiávamos, YOSHIKI nos fazia tocar as músicas da maneira que ele queria do início ao fim”.

Jealousy é claramente dividido entre essas vontades, como TAIJI revela em outro trecho de seu livro X NO SEI TO SHI:

“Nós (ele e o HIDE) éramos opostos ao YOSHIKI e TOSHI no sentido de que achávamos que bandas de rock não deveriam ter baladas. Naquela época, nós queríamos fazer músicas pesadas.”

Naquela época, o X já tentava expandir-se para o Ocidente. O ANTHEM gravara um álbum no lendário Country Club em Los Angeles, o LOUDNESS tinha uma forte fanbase formada pelas turnês europeias e americanas da banda e o THE STALIN até explorou os países da Europa Oriental. Porque não o X?

Acompanhada de visitas e coletivas de imprensa por esses lados do globo, o X parecia querer se moldar aos padrões das bandas americanas que faziam sucesso na época. O peso impressionante de outrora é diluído por HIDE e TAIJI para o hard rock de “Miscast”, “Desperate Angel” e “Joker”.

Do outro lado da disputa, YOSHIKI assume de vez sua veia sinfônica em “Say Anything”, a última grande balada da banda. A música repete o sucesso de “ENDLESS RAIN” no Japão, sendo até trilha sonora da novela Lullaby Keiji.

A doçura da curtinha “White Wind from Mr. Martin ~Pata’s Nap~” ou a instigante “Love Replica” beiram a ousadia.

Descaracterizada, a banda só parece ela mesma em dois momentos. Dotada de um refrão memorável, “Silent Jealousy” é uma das mais belas e poderosas canções já lançadas pela banda. “Stab Me in the Back” apareceu rústica nas primeiras demo tapes do grupo e renasceria neste álbum incutida pela atmosfera furiosa de Vanishing Vision.

Mesmo não soando mais como a forte unidade antes, isto não quer dizer que este seja um álbum ruim. Pelo contrário, o disco é recheado de boas músicas. Mas, Jealousy foi o sinal definitivo da deterioração da banda. [Nota: 8,0]

  • Standing Sex
  • Single
  • Lançamento: 25/10/1991
  • Gravadora: Sony Music Entertainment
  • Faixas: 2
  • Duração: 9min14s

Os singles de Jealousy têm o mesmo formato dos de BLUE BLOOD: uma faixa retirada do álbum e um b-side ao vivo. O único essencial é Standing Sex. Mesmo com uma performance contida de TOSHI, a faixa-título é uma das melhores músicas da banda.

Os duelos de HIDE e PATA soam ferozes como nos anos dourados. TAIJI surge com as linhas trabalhadas que o caracterizam enquanto YOSHIKI massacra as peças de seu kit como se não houvesse amanhã.

Sabe-se lá porque não entrou em Jealousy ou em qualquer um dos álbuns anteriores — ela é a única que se salvou do buraco negro que engoliu uma saraivada de outras boas canções nunca gravadas em boas condições. O single ainda traz uma versão editada de “Joker”. [Nota: 8,5]

“Standing Sex” foi a última faixa inédita lançada pela formação clássica. As brigas pelo controle da banda entre TAIJI e YOSHIKI culminaram na saída do baixista após uma série de shows no Tokyo Dome. Eles fariam uma pausa, momento em que o X viraria efetivamente uma poderosa máquina controlada somente por YOSHIKI. Mas isso é assunto para a próxima parte.


Publicação original de 17/05/2011. 9 imagens desta publicação não sobreviveram à migração de 2013.

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