Eles vêm de uma “fábrica de talentos”, fazem sucesso e criticam a si mesmos e ao mundo onde vivem.
Hum... Você notou algo errado na frase acima? Pois é. Os cantores da Disney podem até estar fingindo se rebelar, mas fingem bem. “Ah, mas a maioria deles é multifuncional: também são atores”, você vai pensar. Sim. Também são atores. E algumas músicas não são feitas por eles, o que também é fato. Mas o que há por trás dessa revolta musical?
Não é segredo que “o canal de Mickey fabrica estrelinhas para desová-las no mundo pop tão logo se tornem adultas. Atua aparentemente (...) — como uma empresa que — produz mão de obra para indústria de celebridades. Mas também transmite valores como liberdade de expressão, liderança, esforço conjunto e sinceridade. É cantar e dançar para crer”, diz o Disney Media Center, um fã-site que traz conteúdo da Disney para mais fãs.
E se você pensa que tudo é fama e bem-estar na Disney e que isso traz satisfação a todos, está enganado: a jovem atriz Meaghan Martin, que faz o papel da vilã Tess nos filmes de Camp Rock, é um exemplo que vale à pena mencionar. “Trabalho duro é o preço que a Disney cobra para tornar você famoso. O problema é que você gasta a carreira vivendo um estereótipo. Fiquei marcada como a lourinha má, sem conseguir mudar de papel. Estou saindo. Vou trabalhar com David Lynch”, diz Meaghan, mencionando um diretor de filmes experimentais.
Há, porém, quem se rebele sem abrir mão da fama e sucesso que a empresa proporciona. Talvez seja uma rebelião falsa, como muitos julgam, mas o fato é que ela existe. Miley Cyrus, Mitchell Musso e Demi Lovato são provas disso, embora não demonstrem sua insatisfação de outra maneira que não seja a música. Demi, por exemplo, é uma contradição ambulante: enquanto diz que está feliz com o que conquistou, critica Los Angeles e todo o mundo da fama na música “LA LA Land” (em uma tradução aproximada, “A Terra de Los Angeles”). Segue um trecho da música:
Quem disse que eu não posso usar o meu
All Star com o meu vestido?
Baby, essa sou eu!
E quem disse que não posso ser solteira?
Eu tenho que sair e me misturar?
Baby, essa não sou eu
Não, não
Alguns podem dizer que eu preciso ter medo
de perder tudo
Por causa de onde eu vim,
De onde comecei
E onde fiz minha fama.
Mas tudo é o mesmo
Na máquina da Los Angeles
Me diz, você se sente do jeito que eu me sinto?
Porque nada mais é real
Em Los Angeles para mim!
Miley Cyrus, a atriz e cantora que faz a “sensação musical” infantil Hannah Montana, também critica Hollywood, a “terra da fama”, na música “Party In The U.S.A.” (traduzindo: “Festa nos EUA”). A música faz parte da carreira solo da cantora. Segue um trecho:
Eu saí do avião no aeroporto de Los Angeles
Com um sonho e meu cardigã
Bem-vinda à terra do excesso de fama
Será que eu vou me encaixar?
Peguei um táxi,
Aqui estou eu pela primeira vez
Olho para a direita e vejo o letreiro de Hollywood
Isto é tudo tão louco
Todo mundo parece tão famoso
(...)
É tão difícil ficar sem minhas amigas por perto
Definitivamente não é uma festa do interior
Porque tudo que vejo são estiletes
Acho que nunca recebi o memorando
Mitchel Musso, ator da Disney que também tem carreira solo e fez parte da série Hannah Montana ao lado de Miley, faz uma dura crítica à valorização da fama e do dinheiro na música “The In Crowd” (tradução aproximada: “Entre os Populares”):
Será que ninguém aqui vive uma vida original?
Do que você abriu mão para fazer parte da galera?
Quando você desaparecer, eles não vão se lembrar do seu nome.
E você vai desaparecer e alguém vai tomar seu lugar,
Tomar o seu lugar
Na galera popular
É claro, pode ser uma estratégia para vender mais discos. Pode ser uma tentativa de incorporar o “modelo” Disney, no qual a inocência, a simplicidade e a justiça reinam acima da fama e do dinheiro. Mas poderia também ser um meio de mostrar como eles se sentem?
Quem sabe? As únicas coisas que podemos afirmar são: a Disney é uma “fábrica de talentos”, e ninguém sabe o que se passa na cabeça dos “escolhidos” para serem as novas estrelas do mundo pop.
Publicação original de 01/04/2011.