Olá, pessoal, depois de muito tempo, volto a escrever algo. Porém, será um post diferente dos demais que fiz: o que, de fato, aconteceu no Japão pós-terremoto e tsunami?
Para saber dos detalhes, conversei com Sarah Kimura, uma brasileira que vive e conhece bem a realidade do Japão há dez anos.
É interessante dizer que a mídia que trouxe as imagens e reportagens da devastação é a mesma que busca os dekasséguis (brasileiros que vão ao Japão apenas para trabalhar e retornar ao Brasil em breve — ou seja, não sabem como se comporta o japonês em casos semelhantes ao do começo do mês de março) e turistas, apenas pessoas que não conhecem o Japão, que não têm treinamento para eventos extremos da natureza — terremotos, tufões (ou furacões), tsunamis e eventuais vulcanismos — para darem depoimentos sobre o ocorrido.
Manipulação ou má interpretação das notícias? Para ter uma real noção do que acontece, cerca de dois dias depois do evento, Sarah soltou uma nota em seu perfil do Facebook com os seguintes dizeres:
Aos amigos que não estão no Japão, obrigada pelas mensagens de solidariedade e preocupação.
Estamos bem, assustados com a situação, mas a região de Tóquio está longe das áreas mais afetadas. Por favor, não acreditem em tudo que a mídia diz, existe muita especulação referente à usina nuclear, mas não é tão grave assim até o momento. Pode ser que as condições piorem, porém esse é um risco que nós correríamos em qualquer parte do mundo. Nós sempre soubemos dos riscos em viver no Japão, da mesma forma que quem vai ao RJ sabe que pode ser atingido por uma bala perdida.
Não se esqueçam que o Japão é um país preparado para as catástrofes naturais, cheio de recursos. O povo japonês não deixa de ser educado e solidário mesmo nessa confusão.
E aos amigos que estão no Japão, não se desesperem, não instalem pânico nas pessoas que não estão aqui. A situação é horrível, mas não aumentem, não piorem.
Por algum motivo, esse é o país que escolhemos viver, vamos nos unir e tentar ajudar os verdadeiros necessitados. Se não dá pra ajudar, não atrapalhe. Não está faltando comida e nem combustível, o problema é que como as rodovias estão fechadas, os caminhões não estão chegando nos supermercados.
Bom, agora preciso trabalhar e tentar que a mídia brasileira transmita as informações corretamente aos que estão no Brasil!
A vida continua gente, não fiquem só rezando. Se Deus existe, ele está testando a nossa solidariedade em situações limite como essa.
Fiquem em paz!
Sarah
Durante os primeiros dias, ela disse que o que estava acontecendo era normal para o Japão — são mais de 5 mil anos de colonização do território japonês e conhecimento dos fenômenos naturais* —, pois os tremores de terra lá são quase que diários. Eventos de ondas gigantes já ocorreram antes e o Japão seguiu em frente, fato é que este é o pior e mais grave desastre em território japonês, trazendo um grande número de vitimas e desabrigados, além de trazer prejuízos econômicos.
Entretanto, isso é NATURAL para o Japão, sempre aconteceu, está acontecendo — acabou de acontecer um terremoto de 6,1 graus na escala Richter, seu epicentro sendo a 90 km de Honshū — e acontecerá na história do Japão. É interessante deixar claro também que o terremoto e o tsunami nada têm a ver com a interferência do homem na natureza, exceto pelos reatores nucleares que foram MUITO mal-instalados. Para mim — leiam bem: PARA MIM —, como geógrafo, os reatores deveriam ser instalados na região sul do Japão, pois é uma região de menor frequência de abalos sísmicos e, assim, com menores chances de haver esse “holocausto” nuclear. Esse foi o, talvez, único erro japonês.
Outras informações que a Sarah trouxe foram de que o governo japonês já injetou mais de 3 BILHÕES de IENES (quase 70 milhões de reais) em apenas uma semana, *outra nota de terremoto próximo à Honshu, esse de menor magnitude: 4,8* sendo que, aqui no Brasil, nada está sendo feito com as vítimas das chuvas que aconteceram de janeiro a março deste ano — para quem não sabe, os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul sofreram com as chuvas prolongadas do início de ano. Milhares de pessoas perderam seus bens, muitas morreram e outras tantas estão desaparecidas. É importante frisar que a maioria das pessoas não possuía seguro residencial ou de vida, além de possuírem baixos salários, então realmente perderam TUDO.
Então, ajudar a quem? Japão (um país cheio de recursos financeiros e tecnológicos) ou o Brasil, o nosso país que sofre com uma simples chuva?
Enfim, o intuito do Plug In Baby é trazer à tona assuntos das mais diferentes esferas e que possam ser tratados de modo crítico. Esse assunto é deveras importante para a formação de pessoas que sejam capazes de saber ouvir e ver outros pontos de vista, o que não acontece com o Brasil, pois a notícia que vem para nós via TV, jornais, revistas e internet é uma devastação jamais vista e de que o Japão levaria anos para se recuperar. Não é o que acontece. A Sarah e uma repórter de uma emissora de TV aberta brasileira foram ao centro da cidade de Sendai ver que não está devastada como falam: tem água, energia e combustível.
O triste é ver a mídia fazer alardes sobre uma coisa do outro lado do mundo e esquecer os “filhos” dela. Seria como dar atenção ao filho do vizinho e esquecer-se dos nossos.
Façam um debate saudável e que respeite as diferentes opiniões, como deve ser uma discussão, para que possamos chegar num bem comum e tenhamos, de fato, uma comunidade.
De modo mais sublime, este post também é uma forma de protesto às pessoas que vivem para perseguir outras, seja pela opção política, religiosa ou sexual, pois através da diferença se forma uma
sociedade mais justa e igualitária, coisa que o Japão é.
*Nota do redator
ERRATA: Ontem a Sarah me disse que ainda está em falta o combustível em Sendai.
Publicação original de 20/03/2011.