Era-se o tempo em que morrer vinte vezes em uma mesma fase, arrancar os cabelos do sovaco e penar até conseguir alguma coisa era realidade nos jogos em mãos, ter de pular em um ponto certo, ter que mirar no momento exato, ter que desviar de um machado voador, ser surpreendido, levar sustos, enfim, tudo o que frustrava o jogador a ficar horas a fio segurando um controle roído de ódio era algo corriqueiro. No entanto, tudo foi deixado ao passado; hoje em dia, temos a comodidade de escolher modos que variam do Fácil ao Difícil, sendo que, em sua maioria, o modo Difícil parece ter se baseado em jogos pré-escolares.

Talvez os gamers iniciantes devam achar tudo isso uma grande abobrinha. Afinal, matar os chefes de The Legend of Zelda: Ocarina of Time foi superdifícil e desgastante. Este texto não foi feito pra você, vai jogar Peggle.

Falando em Zelda, experimentem jogar o The Adventure of Link e depois façam um comparativo com Twilight Princess. No quesito dificuldade, você verá a gritante, impactante e pululante diferença: enquanto um é agradável aos olhos, bonitinho, tem uns sistemas legais, uns minigames, o outro te chama de lagartixa e te joga na parede, te coloca pra baixo, te faz querer voltar ao útero da sua mãe, te chama indiretamente de retardado e faz você querer mais do que nunca zerar essa merda por pura honra.

Na boa, meus amigos, tá certo que os jogos hoje têm muito mais abrangência que antigamente. Antes nós eramos uma tribo, um seleto grupo de nerds que passavam 80% do seu tempo inundando os fliperamas, mascavamos bits e cuspiamos bytes, manjavamos de todos os especiais, os bugs e as artimanhas necessárias pra chegar lá antes dos leigos. Já hoje, os jogos têm a difícil tarefa de agradar gregos e troianos, manter um nivel decente de dificuldade que agrade a maioria mas desagrada os mais hardcores, prezar mais pela aparência e história do que pelo tempo que se passa jogando.

Hoje temos jogos com 6 a 12 horas de gameplay. Isto é um maldito absurdo, antes não passávamos menos do que dois meses pra coletar cada moedinha, pra catar cada item secreto, pra vasculhar cada cantinho imundo do mapa, pra matar cada ser vivo que anda na atmosfera virtual, pra se frustrar e se matar pra pegar tudo, e depois ter a grande satisfação de bater no peito e dizer: eu consegui.

Não queria ser muito saudosista, mas perdemos um grande elemento dos jogos pra modernidade: o orgulho gamer. Aquele em que, na escola, você era apontado e vangloriado por ter matado o chefe com uma só vida. Aquele em que você é ovacionado por ter desviado de cada uma das balas soltas por um cargueiro nazista. Aquele em que você fazia todo o esforço de passar horas a fio, de deixar de almoçar, de deixar a namorada esperando pra jogar só mais uma fase, de quebrar a mão no chão e de xingar a sua televisão de tudo que era nome. Aquele em que fazia os fliperamas abrirem caminho pro “melhor jogador de Sonic Wings” realmente valer a pena.

Concluindo, meus amigos, a todos aqueles que experimentaram um pouco dessa angústia, meus pêsames, e a todos aqueles que nunca sentiram essa fúria que todos adoram, bom, é melhor nunca ter experimentado a glória, do que experimentar e ser tirado dela.


Publicação original de 07/05/2010.

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