Após bater um papo durante o Fantasticon, evento de literatura fantástica, realizamos uma entrevista exclusiva com a autora Giulia Moon. Contendo de tudo um pouco, esta é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre o seu trabalho e se aventurar em seus livros.

O último livro, e talvez o que teve mais repercussão na mídia, foi Kaori: Perfume de Vampira, que conta com enorme influência da cultura japonesa.

Giulia Moon é paulistana, formada em publicidade e propaganda pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Já foi diretora de arte, ilustradora, diretora de criação e sócia de agência de propaganda. Giulia tem três coletâneas de contos publicadas: Luar de Vampiros (2003), Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (2004) e A Dama-Morcega (2006). Em 2009, lançou o seu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira. Participou das coletâneas Amor Vampiro (2008), Território V (2009), Galeria do Sobrenatural (2009), Imaginários Vol. 1 (2009) e Meu Amor É um Vampiro (2010).

1. Quando surgiu seu interesse pela literatura? E Qual foi o principal motivo?

Eu sempre gostei de ler. Desde pequena, lia quase o tempo todo e tudo o que me caía nas mãos. Em casa, “assaltava” a estante do meu pai e lia os seus livros, desde romances complicados até os quadrinhos do Asterix — que ele colecionava. Na escola, vivia na biblioteca, lendo, lendo, lendo... Acho que a principal razão para começar a escrever foi a minha vontade de fazer parte dessas aventuras incríveis que lia nos livros, nos quadrinhos e mangás.

Comecei a criar as minhas primeiras histórias ainda criança, imaginando aventuras para os meus heróis prediletos na cama, antes de dormir. Depois, já no colégio, comecei a escrever os primeiros contos e a desenhar mangás, dando forma a essas aventuras. Quando entrei para a faculdade e iniciei a carreira em publicidade, acabei deixando de lado os mangás, passando a escrever apenas contos e, mesmo esses, só de vez em quando. Mas, em 2000, readquiri o gosto pela escrita ao descobrir na internet um grupo de discussão chamado Tinta Rubra. Era um grupo composto por escritores amadores de contos de vampiros, e eu estava maluca na época pelos livros de Anne Rice. Já tinha lido Entrevista com o Vampiro, O Vampiro Lestat e quase todos os romances da autora. Entrei para o grupo e escrevi o meu primeiro conto vampiresco curto, chamado “Tédio de Matar”. Depois desse, vieram muitos outros e passei a escrever quase todos os dias. Percebi, também na Tinta Rubra, que os meus contos faziam sucesso, e que talvez valesse a pena me dedicar um pouco mais a eles. Foi assim que, em 2003, lancei o meu primeiro livro, uma coletânea com dez contos dessa minha época de Tinta Rubra. O livro chamava-se Luar de Vampiros, e saiu pela Scortecci Editora. De lá para cá já são três livros de contos e um romance publicados. E, espero, que venham muitos mais ainda!

2. Qual a principal dificuldade do cenário literário no Brasil?

Acho que a principal dificuldade para o autor ainda é o tamanho do mercado. Temos poucos leitores, mesmo comparado a países bem menores como Portugal, por exemplo. As tiragens brasileiras são pequenas e os livros são caros, difíceis de serem acomodados dentro do orçamento apertado da maioria dos brasileiros. Mas isso está mudando. Eu vejo cada vez mais leitores sendo formados, mais gente descobrindo que a leitura pode ser uma diversão tão grande quanto os outros meios. E que investir na compra de um livro sempre vale a pena.

Outra dificuldade é chegar aos leitores. Não adianta nada você ter um bom livro se ninguém saber disso. A divulgação nas mídias de massa para a literatura fantástica ainda é pouca. Só casos raros merecem espaço nos meios convencionais de divulgação. Mas os blogs de leituras mantidas por iniciativa de pessoas comuns, que gostam de ler e de comentar seus livros, estão preenchendo essa lacuna, assim como o trabalho de sites como o da Rádio Blast!, que estão correndo por fora, dando espaço à literatura e a outras formas de arte pouco divulgadas.

3. Como você se sente ao saber que tantos jovens, fãs de literatura fantástica, leem os seus livros?

Ah, eu fico muito satisfeita, claro! Não só fãs de literatura, mas de HQs, animes e mangás estão se tornando meus leitores, graças, principalmente, a Kaori. Eu sempre converso bastante com os leitores em eventos, encontros e palestras e é um prazer enorme saber que os personagens como Kaori, Samuel, Calixto, Kodo e Missora estão sendo discutidos, comentados e curtidos por toda essa gente. Cada personagem é como se fosse um filho do escritor. A gente os vê nascer, crescer e depois ir embora para enfrentar o mundo. Então imagine o orgulho que nós sentimos quando esse filho faz bonito lá fora!

4. Dentre os seus livros de contos, qual foi aquele que fez você pensar: “Poderia ter virado um romance”?

Acho que o conto “A Dama-Morcega”, que faz parte da coletânea com o mesmo nome que lancei em 2006, é um conto que poderia ter rendido um belo romance. Muitos leitores me disseram, após lê-lo, que ficaram com vontade de saber mais, aprofundar-se nos personagens e fatos. O conto fala sobre uma vampira desmemoriada que é explorada pelo dono de um circo de horrores na São Paulo de 1905. Ela é resgatada por um jovem médico interessado em investigar a natureza física de uma criatura sobrenatural e, no decorrer da história, as certezas científicas do médico vão se deteriorando, ao mesmo tempo em que a humanidade da vampira vai sendo resgatada. Com certeza, esse conto era o meu trabalho mais elaborado na época, pois recriava o cenário paulista do começo de século, ainda em plena fase de desenvolvimento, e contava com personagens complexos e intensos.

5. Em média, quanto tempo você escreve por dia? Ou por semana? Você acha importante o escritor manter uma rotina de escrita?

Acho muito importante o escritor ter horários certos, rotina e disciplina ao escrever. Senão, acabamos nos perdendo em ler e-mails, ver vídeos, enfim, usando o computador como entretenimento, não como instrumento de trabalho, ou fazendo coisas que nada têm a ver com o trabalho. No momento, eu escrevo cerca de oito a dez horas por dia. Mas, isso varia de acordo com o fluxo dos meus trabalhos como freelancer na área publicitária, onde também atuo.

6. A cultura japonesa influenciou bastante Kaori. Conte-nos um pouco sobre como foi o processo de pesquisa e criação.

A personagem “Kaori” nasceu aos poucos, aparecendo em contos isolados ou participando como coadjuvante em histórias de outros personagens. E já existia, lá pelos idos de 2005, um início de romance que eu estava escrevendo, com uma aventura da vampira japonesa Kaori e o observador de vampiros Samuel. Mas, em 2007, fui convidada pela Giz Editorial a participar de uma coletânea chamada Amor Vampiro, só com histórias de amor de... vampiros, claro! Gostei da ideia, e pensei em escrever um conto diferente, que tivesse como cenário a cidade de São Paulo, mostrando lugares que eu conheço e que amo, como a Avenida Paulista e a região da Liberdade. Então me lembrei de Kaori e Samuel, eles eram os personagens ideais para o meu conto. Aí, usando como ponto de partida uma das cenas do romance esboçado, compus a trama do conto, que acabou recebendo o nome de “Dragões Tatuados”. O conto fez bastante sucesso, e recebeu muitos elogios. Passou-se um ano e, em 2008, durante a Bienal do Livro, Ednei Procópio, editor da Giz, perguntou-me se eu não gostaria de escrever algo mais longo, um romance, para a Giz. Lembrei-me então de “Kaori”. E, como o conto “Dragões Tatuados” já havia saído pela própria Giz, não tinha nada mais adequado do que escrever o romance, agora, contando a história de Kaori desde a sua transformação em vampira no Japão feudal até os dias de hoje, quando se envolve com o mortal Samuel, o observador de vampiros.

Depois de tudo acertado, comecei o romance, disposta a escrever algo que fosse extremamente divertido, mas que também fosse autêntico, o máximo possível, ao recriar um pedaço do Japão da era dos samurais. Não seria um romance histórico, mas uma narrativa que passasse aos brasileiros o clima, as emoções, os cenários de um Japão antigo e misterioso. Para isso, li alguns livros sobre a História do Japão, pesquisei na internet e consultei amigos japoneses eruditos para acertar detalhes como a vegetação e a geografia do local, os costumes e o comportamento de pessoas da época. Nesse aspecto, tive a ajuda valiosa do tradutor e conhecedor de cultura japonesa, Lúcio Kubo, para a leitura final da obra.

A parte moderna, a aventura brasileira de Kaori, contou com o auxílio inestimável de amigos como os escritores e biólogos Martha Argel e Humberto Moura e de Roberto Melfra, escritor e computólogo, que me forneceu informações sobre várias áreas da ciência.

Todos eles leram o livro antes de ser apresentado à editora e me auxiliaram a refinar as informações. Portanto, Kaori, além de ter uma mãe, tem vários tios e tias que ajudaram a trazê-la para o mundo!

6. Como foi a receptividade da editora ao ler a história de Kaori?

Foi a melhor possível. Não houve quase nenhuma alteração, e, o que houve, foram detalhes que só vieram a melhorar o resultado final. Tenho orgulho em dizer que a equipe da Giz foi a primeira a botar fé de forma incondicional em Kaori, e sempre tenho contado com a torcida e vibração deles para manter a energia lá em cima, trabalhando pelo sucesso do livro.

7. O livro de Kaori se passa alternadamente entre o Japão e São Paulo, em épocas distintas. Qual das duas partes você mais gostou de escrever? E qual foi a mais díficil?

Houve momentos em que eu gostava mais de uma parte ou de outra, não tem como escolher uma delas. Da mesma forma, as dificuldades foram de natureza diferente, mas existiram em ambas as partes. Acho que, no final das contas, deu empate!

8. Há boatos de que a música “Fragrance”, do GACKT, teve influência sobre o nome da personagem. Há alguma ligação entre um e outro? GACKT em algum momento influenciou sua escrita?

O nome da vampira Kaori já existia muito antes de eu ouvir falar de GACKT. Mas a música, com certeza, foi muito importante para compor uma das cenas-chave de Kaori.

Tudo começou quando eu me dei conta que queria uma música japonesa para tocar no iPod da personagem Kaori, um detalhe dentro de uma cena importante. Então comecei a navegar pela internet, procurando músicas japonesas modernas, mas nenhuma me agradava. Então, quando já estava para desistir, encontrei alguns clipes do GACKT no YouTube. Ele me agradou na hora, principalmente pela sua voz sedutora. Aprofundando a pesquisa, quase não acreditei quando achei performances ao vivo da música “Fragrance”.

A palavra kaori, em japonês, significa perfume, fragrância. E saber que existia uma música chamada “Fragrance” foi uma descoberta mais do que sensacional. Lembro-me de ter ficado emocionada na hora, ouvindo-a. Além disso, a letra, a melodia sensual, a voz maravilhosa de barítono de GACKT, tudo na canção trazia um clima de sensualidade e mistério que caía como uma luva para a ideia da cena, da personagem, de tudo! Depois disso, “Fragrance”, para mim, tornou-se a música-tema de Kaori, e ela, assim como GACKT, é citada na cena, na página 163 do livro.

Hoje sou fã de GACKT e acompanho a carreira dele com interesse. Participo da comunidade GACKT ~[ Brasil ]~ do Orkut e ouço as músicas dele sempre que posso. Ah, e também já escrevi um outro conto chamado “As Vampiras de Kenshin”, onde um personagem, um cantor de rock japonês, é sequestrado por um grupo de fãs gothic lolitas brasileiras. Kenshin, claro, foi inspirado em GACKT. O personagem não é exatamente como ele, pois seria muita pretensão da minha parte tentar recriar uma pessoa complexa como GACKT nas páginas breves de um conto, mas digamos que tomei emprestado os belos atributos físicos do GACKT-san para o personagem. O conto “As Vampiras de Kenshin” faz parte da coletânea Território V, organizado pelo escritor Kizzy Ysatis e publicado em 2009 pela Editora Terracota.

9. Atualmente você está envolvida em algum novo projeto que possa contar para nós?

O meu maior projeto, para onde estou dirigindo todo o meu tempo e energia, é o segundo livro com Kaori, a vampira. Não posso falar muito sobre ele ainda, a não ser que terá Kaori e muitos personagens do primeiro livro, alguns personagens novos e mais uma música de GACKT numa das cenas importantes. Será um livro com muita ação e sedução, que, espero, trará momentos de muita diversão para os amantes de literatura fantástica. Para quem já leu e gostou de Kaori, peço que cruzem os dedinhos e torçam por mim. Eu, aqui no meu cantinho, estarei me esforçando ao máximo para fazer um bom trabalho!

10. Para finalizar, qual conselho você pode deixar para aqueles que escrevem sobre vampiros e/ou cultura japonesa e desejam publicar?

Bem, acho que cada um tem a sua própria maneira de encontrar o seu caminho, mas uma palavra de incentivo é sempre boa, não é? Acho que um bom conselho é: entre em comunidades ou grupos de discussão de escritores, mantenha contato com eles e troque ideias, saiba o que está rolando no mercado. Procure sempre verificar se o seu livro é bom, se está pronto para ser publicado ou necessita de algumas melhorias. Uma boa forma de descobrir isso é pedir a amigos confiáveis para que se tornem seus leitores beta, criticando de forma construtiva o seu livro. Saiba, porém, que nem sempre será fácil achar bons leitores beta com tempo e disposição para ajudá-lo, por isso, trate-o com carinho quando o encontrar, ouça o que ele tem a dizer com atenção e respeito. Antes de partir à procura de uma editora, tenha a certeza de ter feito o possível e o impossível para elevar a qualidade do seu livro, seja na apresentação, na revisão, na diagramação, e, claro, no conteúdo. Não tenha preguiça de reescrever partes que não o agradam ou que mereceriam maior cuidado. O segredo de um bom livro é o constante aperfeiçoamento.

E, acima de tudo, nunca se esqueça que escrever dá trabalho, sim. E muito! Mas é muito divertido também. Se você conseguir achar o equilíbrio ideal entre a diversão e o trabalho na hora de escrever, terá grandes chances de se tornar um bom escritor.

Galeria de imagens

Para saber mais sobre ela:


Publicação original de 09/10/2010. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.

Compartilhar
Comentários
0 comentários