As relações entre a mídia e os governos são curiosas. Em diversos países, o chamado “quarto poder” é tratado de forma crítica e questionadora pelos seus governantes. No Brasil, a imprensa, além de assumir ser porta-voz da direita conservadora, finge que faz um trabalho neutro e imparcial, enquanto os governantes fingem que acreditam. Não é nenhuma novidade que alguns órgãos midiáticos defendem interesses de determinados grupos sociais (sejam empresários, trabalhadores ou latifundiários), mas existe um limite entre a informação parcial e a invenção de factoides.

Rupert Murdoch, dono da rede de notícias Fox News, que o diga. Barack Obama entrou em choque com o chamado “novo Cidadão Kane” e decidiu considerar sua empresa como braço do partido republicano e de sua oposição mais reacionária, que utiliza frequentemente de invenções e mentiras para desmoralizar as já lentas ações do governo democrata. Impossível no Brasil, onde qualquer medida semelhante iria ser taxada de ser contra a liberdade de expressão. A pergunta é: estaria as redes dos Marinho, dos Civita e dos Frias e hoje dos evangélicos a serviço da informação e da verdade ou defendendo apenas a determinados grupos sociais?

Já na Argentina, a presidente Cristina Kirchner encaminhou ao Congresso uma lei antimonopólio midiático que impede que uma mesma empresa controle mais de um meio de comunicação. Seu alvo é claramente o grupo El Clarín, detentor de um monopólio por mais de 30 anos (qualquer semelhança com as Organizações Globo não é mera coincidência) e ferrenho opositor de Kirchner e seu marido. Apesar disso, a lei é altamente democrática e já existe em muitos outros países do chamado Primeiro Mundo. Impossível no Brasil, onde o Congresso não tem nenhum compromisso com a democracia real, apenas com a defesa de seu pedaço de bolo no jogo de interesses.

O primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi, por sua vez, declarou guerra à imprensa estrangeira. O premiê é frequentemente alvo de escândalos pessoais, entre as quais supostas relações sexuais com menores de idade e declarações racistas na época da eleição de Obama. Com amplo apoio de partidos com tendências fascistas e conhecido por seu autoritarismo, Berlusconi também chamou de patifes os jornalistas que não trabalham pra ele. O premiê é dono de inúmeras redes de comunicação, além das empresas estatais que são gerenciadas por seus aliados. Apesar de ser o contraexemplo do que um governante deveria fazer com a mídia, Berlusconi expõe outra fratura entre o interesse governamental e o midiático.

A mídia não é má por si só, o problema está nos oligopólios que a controlam. Em determinadas ocasiões, pode ser responsável por grandes retrocessos na sociedade, pois a mídia é formadora de opinião. Mídia é, acima de tudo, poder. No Brasil, alguns jornalistas, infelizmente, deixam-se levar pelos pontos de vista dos donos das corporações midiáticas e seu trabalho, tão importante pra sociedade, se torna unilateral, uníssono. Como diria o sábio Mino Carta, este é o único país onde os jornalistas chamam patrão de colega e o sindicato lhes oferece carteirinha.


Publicação original de 26/10/2009.

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