O mundo da música japonesa está chato pra cacete, e eu acho que falta assunto interessante pra se comentar. Mas eu não morri, estou vivo! E o LUNA SEA também! E eles acabaram de lançar esse single, “THE ONE -crash to create-”, agora em março de 2012.

É uma música de mais de 20 minutos que, obviamente, todo mundo vai associar a “ART OF LIFE”, do X JAPAN, só por se tratar de duas grandes bandas do visual kei. Mas, na verdade, os dois trabalhos não têm tanto a ver assim. O do X é uma música à la metal progressivo, o do LUNA já faz mais o estilo “visual-kei-light” consagrado por eles próprios nos últimos anos de carreira antes da separação.

“ART OF LIFE” tem longos 28 minutos porque é que nem um livro, um trecho leva a outro num desenvolvimento de um uma ideia central: ela começa lentinha, depois fica agitada, entre uma parte e outra a melodia muda um pouco, ouvimos diferentes solos de guitarra e algumas variações no ritmo da canção... e no meio tem um solo de piano, que eventualmente se transforma em uma barulheira tosca e desnecessária que poderia ser apagada pra economizar 5 minutos do ouvinte (mas tudo bem).

A primeira coisa estranha que notei em “THE ONE” é que ela começa como uma música agitada do LUNA SEA e, passando os 9 minutos, vira uma música lenta do LUNA SEA. Quer dizer, esse projeto de uma música com mais de 20 minutos (algo que chama bastante atenção quando anunciado na mídia como vindo do LUNA) é realidade uma colagem de uma música de 9 minutos com outra de 11, pra compor uma faixa extensa apenas por ser extensa. É algo que lembra mais o single “SAY YOUR DREAM”, de 2009, do GLAY. Foi anunciado como um single de 15 minutos para comemorar os 15 anos da banda. Na verdade, eram 15 anos de carreira major (desconsiderados os anos independentes), a música tem uns 13 minutos e é uma colagem de duas músicas muito distintas, cada uma com uns 6,5 minutos.

Voltando a “THE ONE”, essa “primeira música” não é ruim, mas também não me chamou tanta atenção — minhas expectativas são maiores quando se trata dessa banda. A segunda parte/música da faixa já é mais interessante, apesar de não chegar no mesmo nível de “FOREVER & EVER” (álbum STYLE, 1996) e “LOVE SONG” (single, 2000), outras faixas longas do LUNA, mas que são bem mais inspiradas, bonitas e envolventes. Numa comparação mais detalhada, o solo de violino de SUGIZO em “FOREVER & EVER” é muito, muito mais bonito que o do novo single, que parece ter a obrigatoriedade de ter apenas “por ter” algum momento com SUGIZO fazendo qualquer coisa no violino. Veredito final musical: essa segunda parte do single seria boa, não fossem as enrolações: basicamente, a mistureba do que parecem ser duas músicas distintas, o solo de violino meia boca, a parte do piano e do “lalala” enfiada lá pra encher linguiça.

Existem outras duas coisas estranhas envolvendo “THE ONE”. A primeira é que o single foi anunciado como o “grande lançamento-retorno” da banda, a publicidade pro disco deu a entender que essa era a primeira música inédita que eles soltavam depois de “LOVE SONG”. A descrição de “THE ONE” no CD Japan diz “LUNA SEA traz uma música nova pela primeira vez em 11 anos!” Deu no JaME em 21/02: “LUNA SEA se prepara para lançar um novo single depois de 12 anos sem nenhum lançamento”. Tudo balela. “THE ONE” é considerado pela banda a primeira música lançada depois de “LOVE SONG” só porque “PROMISE”, de 2011, não foi lançada em CD físico para ser comercializada e encher os bolsos dos envolvidos, mas, sim, disponibilizada no iTunes para download pago, cuja renda foi, conforme anúncio oficial, destinada a ajudar vítimas do tsunami do ano passado no Japão. É o único motivo. Até onde se sabe, “PROMISE” é tanto uma música criada pelos membros do LUNA quanto “THE ONE”.

A outra coisa estranha são as versões que o novo single ganhou. Foram lançados simultaneamente quatro versões diferentes: a normal e a da versão em 5.1 canais (o que até faz sentido pra uma banda com cinco integrantes) não me chamaram tanta atenção. Comecei a estranhar a notícia quando vi que eles lançar uma versão de “alta qualidade” — com esse nome vago mesmo. Hoje em dia, tecnologias de gravação sonora são tão acessíveis que não é difícil nem para um estúdio caseiro produzir obras com boa qualidade. O LUNA SEA com certeza grava em estúdio top de linha, e a única maneira que consigo imaginar de caras assim produzirem uma faixa que não seja de “alta qualidade” é fazer um trabalho com qualidade inferior de propósito. Ou talvez soltar dois CDs, com o mesmo conteúdo, com a mesma qualidade, mas dizer que um é melhor e, aí, por autossugestão, alguns fãs vão achar que um deles realmente tem qualidade melhor. Ou talvez, no caso dos dois CDs iguais. mas com nomes diferentes, possa-se alegar que certos aparelhos não têm capacidade de reproduzir aquele conteúdo de qualidade superior com toda a qualidade da gravação original (lembrando que não estou falando aqui da versão em 5.1 canais), pro caso de alguém reclamar. Ou talvez até exista alguma tecnologia maluca e pouco acessível pra fazer algo realmente superior, cujo produto final você venda mais caro por isso. Mas, na real, o ouvido humano não tem condições de aproveitar algo muito superior ao padrão de qualidade de uma gravação perfeita em um CD comum no mercado fonográfico. Só que algo me diz que o grosso dos fãs do LUNA SEA não vão se questionar sobre nada disso. Tem ainda uma quarta versão do lançamento, que é a mais incrível: as outras três, juntas no mesmo box provavelmente enfeitadinho! Uma (ou duas) música(s) repetida(s) em três CDs no mesmo bolo por um preço sete vezes superior ao do CD normal. Financeiramente, é uma jogada muito boa pra quem não faz questão de agir muito decentemente com o próprio público, cuja parcela que vai comprar, em específico, esse box da quarta versão não vai se questionar sobre nada colocado neste parágrafo, tenho quase certeza.

Álbum novo que é bom, nada. Será que o álbum novo do LUNA só vai sair depois do novo do X JAPAN (que está previsto pra sair só no Dia de São Nunca)?

EDIT. - Observação: Não me venham com esse papo furado de que fazer isso ou aquilo deve/pode ser uma decisão da gravadora ou de quem quer que seja e não uma decisão da banda. O que carrega a marca “LUNA SEA” é inevitavelmente associado (e, pela lógica, automaticamente aprovado) pelas cinco pessoas que compõem a banda. Se um presidente da Embraer demitir 5000 pessoas de uma vez, todo mundo vai associar a responsabilidade disso à marca Embraer como um todo e não exclusivamente ao homem que realizou a demissão oficialmente. E com razão. Porque seria uma decisão acordada entre a diretoria, alto escalão executivo e quem mais fosse mais relevante em responder legal e moralmente pelo que a empresa é e faz. Tenha certeza de que qualquer coisa desonesta ou abusiva feita em nome de uma banda é conversada e, de uma maneira ou de outra, acordada pelos músicos integrantes da mesma.


Publicação original de 28/03/2012. 1 imagem desta publicação não sobreviveu à migração de 2013.

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