Resenha de CRUSH! -90’s V-Rock best hit cover songs- , de Vários Artistas (Nayutawave Records, 2011). Nota: 6,5.
CRUSH! -90’s V-Rock best hit cover songs- parecia um bom negócio desde o início. Uma série de bandas da última década regravando músicas de bandas dos anos 90. Bom para os fãs mais jovens, que ganham não só material de seus artistas preferidos, como uma porta para conhecer bandas antigas, e para os mais velhos saberem as quantas anda aquele negócio de parecer um travesti que gera hordas de meninas apaixonadas.
Até do ponto de vista financeiro o negócio funciona. Afinal, é um bom viés para resgatar catálogos frios de outrora e divulgar nomes com potencial de tornaram-se relevantes. Fora a boa oportunidade para grupos menores experimentarem as luxúrias de uma boa gravação. Por mais que isso não tenha acontecido.
“Melty Love” foi o maior hit single do SHAZNA. A rendição do BugLug para a faixa parecia desgraça anunciada, e não é que foi? O timbre afetado do vocalista põe tudo a perder, uma pena já que os outros músicos da banda são eficientes em seus instrumentos. Não que IZAM, vocalista do SHAZNA, tivesse um vozeirão, mas o estilo casava com as pérolas pops que a banda produzia (e que nunca receberam o devido o valor). Já Issei, do BugLug, tem aquela voz que infesta 99% das bandas de oshare, realçada por uma produção ruim que joga a experança de igualdade morro abaixo.
Se você achava a voz do TAKA, vocalista do La’cryma Christi, irritante, passe longe da versão do DaizyStripper. O vocalista Yu-giri poderia ser escalado facilmente para a dublagem nipônica de Alvin e os Esquilos. Os outros caras até se esforçam em produzir um som competente, mas a voz de paquita sob anfetaminas do vocalista aniquila todas as chances da banda.
Já sono, vocalista do Matenrou Opera, mostrou que não perdia uma aula na escola Chororó para vocais onde o TOSHI do X JAPAN costumava lecionar. A versão dos caras para “KURENAI” é exatamente o que qualquer banda de metal melódico faria: teclados pentelhos, bateria metralhando e solos em todas as oportunidades. Falharam pelos malabarismos excessivos, coisa que o YOSHIKI e seus comparsas sabiam dosar com excelência (pelo menos quando não lançavam aquele monte de baladas iguais...).
DOGinTheParallel World Orchestra (lutando contra uma gravação seca e abafada), Lolita23q, DOREMIdan e o LOST ASH soam corretos, mas nada que vá te animar a ouvir mais vezes. A semelhança com as faixas originais torna a coisa toda pouco empolgante, principalmente quando se trata do vocalista soshi, recém chegado no Lolita23q. O cara emula o RYUICHI na versão de “STORM” do LUNA SEA com uma semelhança absurda. É assustador! A banda até se esforça para fazer algo diferente, mas o cara simplesmente baixou o santo.
A escolha do DOREMIdan foi a que mais me surpreendeu. Quem se lembra do SOPHIA? Provavelmente só os caras do DOREMIdan. A banda sempre foi simpática, lançou uma penca de CDs, mas ninguém nunca deu a mínima (pelo menos nesse canto do globo). Assim como acontece com o próprio DOREMIdan.
DuelJewel, heidi., 12012 e o Shinko Syukyo Gakudan NoGoD fizeram um bom trabalho em suas respectivas versões. Mas, sério, qual é a graça de ouvir bandas calejadas apresentando covers similares às músicas originais? Esses quatro obviamente atingiram padrões altos de qualidade, mas justamente por elegerem a fidelidade extrema às canções originais como fator central tornam-se irrelevantes.
O DuelJewel confirma o profissionalismo habitual em “JUPITER” do BUCK-TICK. A versão de “Winter, again” pelo 12012 é a melhor música que eles lançaram em anos (só perderam a oportunidade de tirar os coros bregas do GLAY). O NoGoD é um SIAM SHADE embebido em visual kei e heidi., já experiente quando se trata do hide, faz uma “PINK SPIDER” mais crua. Tudo legal para quem não conhece os clássicos ou para ver como ficaria uma banda executando uma faixa de outro artista, mas dispensável.
Agora, chegamos ao que interessa. Bandas resgatando influências distantes do seu som e que, mesmo assim, não extrapolam o limite do racional. Excetuando se você acha o resultado bom ou ruim, essa é a postura que tornaria todo esse CD menos burocrático.
O Mix Speaker’s, Inc. transformou uma faixa retardada como “S.O.S ROMANTIC” dos estranhos do CASCADE em uma faixa retardada à moda da própria banda. Eu provavelmente não ouviria uma hora de músicas assim, mas é muito bom encontrar algo do tipo num álbum em que prevalecem músicas pop cheias de clichês.
O que o AND fez com “ROMANCE” do PENICILLIN não foi lá a melhor coisa do mundo, mas pelo menos ousaram transformar as partes menos marcantes da canção. Diminuíram os teclados e guiaram a música com guitarras pesadas e modernas. De qualquer forma, a versão original já não era muito interessante e o PENICILLIN é e sempre foi muito superestimado.
Os doidos do MERRY fazem mais uma vez um negócio que, para eles, é tão natural quanto comer peixe cru: gravar cover. Quando não aparecem em discos tributos para bandas roqueiras, estão resgatando pérolas da música japonesa antiga. Em tributo ao DIR EN GREY, desmontam os riffs robóticos de Kaoru e Die e “Schwein no Isu” vira um passeio por uma Casa do Terror de parques de diversões.
A versão do D para “Gekka no Yasōkyoku” do MALICE MIZER é um caso a parte. Ótimos músicos modelando cada detalhe geometricamente com uma maturidade absurda para adequá-la a realidade do grupo. ASAGI confirma o que todo mundo sempre suspeitou — o cara é mesmo influenciado pelo GACKT —, mas filé mignon é o resto da banda transformando o lirismo circense da antiga trupe do Mana num metal técnico com uma performance de tirar o fôlego. Nunca vai substituir o original, mas o que interessa é a perspectiva de cada devoto sobre seu cultuado. A melhor versão de todo o álbum.
CRUSH! -90’s V-Rock best hit cover songs- é uma boa coletânea e realmente cumpre o que se propõe. O fato de uma banda ou outra negligenciar a própria identidade em favor de servir aos seus ídolos prejudica, mas é até compreensível. Eu também seria temeroso de arruinar uma música de uma banda que gosto muito. Provavelmente, daqui a duas ou três semanas, você não vai nem lembrar mais que esse tributo foi lançado. Coletâneas são assim mesmo. As facilidades modernas de separar uma música do resto e transportar o MP3 pelo seu computador talvez até garantam uma sobrevida para a faixa do seu artista preferido. Mas se isso fosse um CD físico, ficaria perdido pela prateleira pegando poeira.
Publicação original de 27/01/2011.